Poemas do livro ‘OS VENTOS E AS MARCHAS’, de Jorge Vicente

Fotografia de Daniel J. Schwarz




OS VENTOS
 
 
5.
 
abrir ventos escolher salivas gastas
em  transumânsua linguística e corporal,
 
pintar em pele de jabuticaba e de frutos silvestres
a nossa língua e caminho  – roupa de nova nascente
para animais solares.
 
 
10.
 
ha uma pressa na palavra
mais do que a vontade de dizer,
mais do que o silêncio no escutar
 
mais apenas mais
do que a antevoz que precede ao
sangue.
 
 
12.
 
se queres ser humano
dá o que for de ti
à correnteza de todos os rios.
 
 
13.
 
tudo o que sublimas
através da poesia
foi antes poalha de estrelas
 
galáxia breve de uma
nova nascência.
 
 
15.
 
as gaivotas aspiram harpias e ar marítimo
grasnam cospem mergulham no lent emaranhado de sal
 
tudo é caminho / e tudo sopra
numa feroz ventania.
 





AS MARCHAS
 
 
1.
 
movimenta-se como vento virgem
a frágil luminosidade da noite:
tudo transita e tudo se arrasta
na coroa de uma trovoada branca,
 
trovoada seca e crua
carne agreste de gastronomia de verão
lenta rede de arrasto e de saliva
marcha e caminho e pegada  & poema
sem lei e sem abismo,
 
quero o riso desta margem complexa e animal
humana transcendente maternal
caminho como se fosse a mãe e o pai
de todas as flores,
 
abandon e nasço na mesma medida,
medida de deus e dos santos
e do meu corpo em transe arrastado pelo
silêncio,
 
silêncio e vida e marcha e amor
e círculos de cultura nascendo e baptizando
o desejo e aesperança,
 
a trágica bela humanidade de nos vermos
nessa ânsia e nessa alegre certeza
de que a palavra nasce com toda a leveza
dos mundos.
 
 
2.
                                   Para Paulo Freire
 
Paulo, sabes escrever o teu nome?
 
terás a história do mundo no teu olhar
de primavera,
ou serão as sílabas e os sons incandescentes
da tua gramática apenas o acervo breve
de uma comunidade a haver?
 
 
7.
 
Um corpo assombrado no grito dos animais
Felinas vozes abrindo das mãos
A sua vontade e prazer
 
Um trono líquido na raiz dos dedos
E do sexo pulsando de dentro
 
Toda a fauna responde e caminha
Num mantra ruminante de sons.
 
 
9.
 
escrevam com peles que se possam dobrar, seconder, entregar.
todo poema é um acto de palavras, caligrafia que
amanhece no solo e que caminha com os olhos fechados.
 
 
11.
 
o meu amor só se desenha
no futuro das montanhas.




Foto: Ozias Filho

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direção editorial da revista online INcomunidade. Tem seis livros publicados, sendo o último Os ventos e as marchas (Urutau: 2025).

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