3 poemas de Jandira Zanchi

Ilustração: db Waterman



Rosários

hóstia e compaixão
— sem fé, sem
pecado ou
lembrança apenas
sisuda oferta
continuidade em algum cálice
(e continua o fogo)

a água remove todo resíduo ou busca
ou oração/encontro, são rosários
ocultos em tua mão.


Joguetes

insondável senda — um tempo morto
recuerdos dos que não aceitam esse lirismo pobre
manufaturado dos códigos da resistência

as mesmas eminências estão parvas
amofinadas em escândalos
recitando versos e manuscritos que se não estão extintos
estão em suspenso (lento metabolismo que retarda gerações
atrai outras esperanças de alfinetes e linhas sem fio branco
compõem em atraso opróbrios e misérias ou bobagens)

na rua lisa e cinzenta que segue sem curvas
sem aderências ou atritos de reais corpúsculos
sombras se abaixam e espreitam qualquer motivo
e nenhum desígnio nenhuma conquista ou oposição

apenas enfeites, joguetes, jogatinas nas mesmas madrugadas
cada vez mais coloridas e aflitas onde verbos se esvaziam sem
antes preencher um carma ou uma forma ou uma vitória

só verbos vestidos de quase nada especulando
manuseando a realidade espichando sonhos
tão humanos e cumpridos como o lento
rodar da roda sem fortuna
uma arte sem véus e sem visão
em lenta agonia no esqueleto da dúvida.


Cartilha

na sombra e no recuo o medo
— afastam-se do eixo e de alguma
esperança atentos oprimidos quase calados
amansando-se do nada e da faca

a dúvida da certeza — é quase o fim —
tão marcado e retilíneo
como qualquer outro método ou inseto
e quase tão vulgar e mascarado
no espelho como a própria sombra
essa alguma encrespada surtada e
mal ferida inibida ainda crente
ciente cânfora e aço na prontidão

não são três linhas ou uma tola cartilha
que ditam o verso reverso controverso
tanto se diz ou condiz ou confirma ou inimiga
quase branda no estigma
não é tola a vida embora equivocada
com suas não muito bem costuradas
partidas e boas vindas — é sim confusa e difusa
ambivalente sem tridentes ou sacerdócios
um ócio na linha mais branda, mas enfim,
de nenhum método ou escolha se vale só prossegue cheia
de antepastos e alguns ratos
berlinda de muitas pontas e poucas escolhas

que se entenda e não se surpreenda
não é retilíneo nem discursivo
o processo
o ingresso
a feliz ou infeliz permanência.


Poemas de A Sexta Hora (urutau)



Jandira Zanchi é poeta, ficcionista e editora. Tem nove livros publicados: os livros de poesia, A Sexta Hora, Fronteiras,  Luas de Maçã,  O Vapor da Noite, Área de Corte, Gume de Gueixa, A Janela dos Ventos e Balão de Ensaio, o livro de contos, Egos & Reversos. Atua há quinze anos em revistas literárias virtuais e participa da antologia 101 poetas paranaenses. Coedita amaitepoesiaecia.com.br/ .

Respostas de 4

  1. Na poesia de Jandira Zanchi, a linguagem cria a própria essência do poema. A sua identidade literária convoca primeiro o signo através das suas manifestações sonoras — assonâncias, aliterações, ritmos. Só depois emerge o valor simbólico, como um espaço interpretativo aberto à liberdade do leitor.

    É uma poesia que pede voz; uma prosódia que a lance num movimento ondulatório, capaz de revelar toda a sua arquitetura sonora. Uma poesia que espera um leitor adulto, disponível para a escuta e para a complexidade.

    A poesia de Jandira Zanchi trata o leitor com respeito. O mesmo respeito que lhe devemos à poeta, porque nos oferece, através da linguagem, um raro exercício de liberdade.

    1. Obrigada, poeta. A complexidade é inerente ao cosmo e ao humano. Na estrutura de um, na subjetividade do outro. Não se trata de dificultar o entendimento, mas, de procurar acompanhar grades e percursos que nos mantém intrigados, numa escuta contínua. A simplicidade, na arte e na vida, pode, por outro lado, ser a bonomia da sabedoria. A poesia percorre todos os matizes do sonho e do concreto, a boa poesia, e somos, em amaité, militantes dessa boa poesia.

      1. O texto do Luís Palmas já vale uma orelha, um prefácio e seu retorno a Palmas, Jandira, complexifica, alude, “termina”, reage com voz própria – nem sempre precisando convergir ou aproximar. Dessa forma, evidencia uma virtude necessária na literatura: a consciência da própria escrita. A partir daí, vem a sinceridade, a consulta da própria alma criativa para guiar-se na linguagem poética marcada por reviravolta bem talhadas e bem definidas. Linguagem de labirintos espontâneos, sem o anúncio do perder-se. Porém, do ir-se – ácido ou suave – sentindo não o tresloucado nonsense, mas os pés no chão que há. Este chão é estático à nossa sujeição a fazê-lo firme e/ou movediço, volúvel e/ou demarcado. Enfim, os poemas também caem em seu chão. Não havendo utopia, idealização e nenhuma outra deliberada ilusão, eles se deslocam na multidão do caminhar dos leitores. Nessa caminhada por entre os versos, ficamos dispersos, buscando atenção, conjugados nos acordes de nossos interinos endereços.
        Assim concebo, talvez ainda ingênuo e dedicado, não só estes poemas, mas toda sua poética, Jandira Zanchi.
        Evoé !

        1. Evoé,Geovane, agradeço o comentário. Misturo racionalidade com lirismo sim, e não vejo necessidade de poesia útil e também não concebo poesia inútil. A função,se existe, é um desdobramento da subjetividade, um ser como criador ou criadora, condição essencial da humana. A poesia não é só consciente, ela perfura o que ainda não encontrou definição e começa a revelar o conhecimento que vai além do navegador em terra. Definições fechadas da psique e da arte comprometem ambas. Somos livres e aves e então cantamos ou resmungamos em versos rítmicos ou lineares.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *