
Ilustração: Monumento no Beco do Chão Salgado, em Lisboa (Portugal), em desenho feito por IA, baseado em foto do autor.
Em 13 de janeiro de 1759, a família Távora e demais acusados foram cruelmente executados na praça de Belém, uma carnificina de dez pessoas que sequer receberam um julgamento adequado, e banimentos de muitas outras, tendo sido privados dos seus títulos, das suas ordens, dos seus cargos e dos seus postos no exército. Os seus bens foram confiscados e as suas casas destruídas, tendo sido salgados os terrenos para que nada mais nascesse sobre eles. Teresa, a amante do rei, nada sofreu, embora tenha sido encerrada em um convento de freiras, onde viveu no esquecimento e na miséria até sua morte, em data incerta. As mulheres não executadas foram para outros conventos e vários jesuítas foram presos, sendo a Companhia de Jesus expulsa de Portugal.
As vítimas da pavorosa execução haviam sido acusadas de crime de lesa-majestade, alta traição, rebelião e parricídio, já que o rei é o pai da nação. Quatro meses antes do massacre, no dia 3 de setembro de 1758, a carruagem que levava o rei se esgueirava pela noite de Lisboa, de volta às tendas do Alto da Ajuda. Vinha de um encontro secreto com a marquesa Teresa de Távora e Lorena, casada com o próprio sobrinho, Luís Bernardo, que a havia deixado em Lisboa, quando acompanhou o pai em uma missão à Índia, passando 4 anos ausente. Teresa, solitária, acabou por se entregar aos caprichos do rei, concebendo um filho do monarca, Bernardo José de Lorena, futuro governador da capitania de São Paulo.
O rei se fazia acompanhar por Pedro Teixeira, seu confidente para assuntos ligados às suas aventuras amorosas. Ao cruzar uma rua escura e estreita, nas proximidades da Quinta do Meio, o cocheiro Custódio da Costa viu a silhueta de três homens mascarados, que surgiram por debaixo de um dos arcos do imenso aqueduto, realizando disparos. Os cavalos se assustaram, e a carruagem saiu em desabalada velocidade. Novos disparos foram ouvidos e um deles atingiu o ombro do rei. Pedro Teixeira nada sofreu. Prevendo que adiante poderia encontrar outra emboscada, Dom José I ordenou que o cocheiro fizesse a volta e se dirigisse à casa do cirurgião real. Para encontrar os culpados pelo atentado, Dom José escalou seu secretário preferido, Sebastião José de Carvalho, que viu nos jesuítas e em algumas famílias nobres motivos suficientes para desejarem a morte do rei. Uma de suas primeiras suspeitas recaiu sobre a velha marquesa de Távora, dona Leonor, e o duque de Aveiro, pois a todo instante chegavam notícias de que os dois andavam em encontros às escondidas.
Cedo da manhã, a primeira vítima a subir o patíbulo foi Leonor Tomásia de Távora, 3ª Marquesa de Távora, transportada em uma cadeirinha, na companhia de dois frades. A ela foi consentido receber os últimos sacramentos, antes de ser decapitada. Em seguida, foi a vez de Dom José Maria, filho mais novo dos Távora, único que teve a coragem de negar as acusações para não comprometer a honra da família. As suas pernas e braços foram amarrados e quebrados a marteladas, enquanto um dos carrascos o estrangulava com uma corda. Esse mesmo castigo foi aplicado ao marquês novo Luís Bernardo de Távora, ao conde de Atouguia Jerônimo de Ataíde e aos plebeus José Brás Romeiro, que era cabo da Esquadra da Companhia do Marquês de Távora, Manuel Álvares Ferreira, criado e guarda roupa do duque de Aveiro, e João Miguel, acompanhante do duque de Aveiro. Diante daquele espetáculo brutal, com os corpos mutilados e expostos sobre as mesas de tortura, Dom José Mascarenhas, duque de Aveiro, e o marquês velho Francisco de Assis de Távora foram levados ao patíbulo. As suas sentenças ordenavam que os membros e as costelas deveriam ser quebrados sem que se estrangulassem, permanecendo em suplício até que os últimos condenados fossem executados: Antônio Álvares Ferreira foi queimado vivo e José Policarpo, como não foi encontrado, teve sua efígie queimada simbolicamente.
Após as execuções, que deixaram na praça uma imagem de terror, com dez corpos mutilados e destroçados, atearam fogo a um material inflamável que estava sob o patíbulo, queimando a todos durante o dia inteiro. À noite, as cinzas foram jogadas no rio Tejo, à sua margem direita, no cais de Belém, deixando naquela manhã um cheiro nauseante e uma névoa escura no ar. No local onde antes se edificava o palácio do Duque de Aveiro, demolido e salgado o terreno, foi construído um marco alusivo ao acontecimento, mandado erigir por Dom José I, não se sabe se para homenagear os mortos ou para que a sociedade não se esquecesse da trama montada para sua morte. O local ficou conhecido como “Beco do chão salgado” e o texto a seguir está grafado no monumento:
“Aqui foram as casas arrasadas e salgadas de Dom Mascarenhas, exautorado das honras de Duque de Aveiro e outras, condenado por sentença proferida na Suprema Junta da Inconfidência em 12 de janeiro de 1759, justificado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de setembro de 1758 se havia intentado contra a Real e sagrada pessoa de El Rei Nosso Senhor D. José. Neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum.”

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).