
1. Análise do sentido
Adriano Wintter é um poeta radical, objetivo e conceitual. A poesia em seu conteúdo encontra-se atrás do jogo de palavras, da sonoridade dos fonemas que parecem adquirir, à leitura, vida própria, independente do sentido do poema; porém, por dentro da torrente de palavras existe um conhecimento oculto — o poeta não procura facilitar o leitor nessa ascese —, a ser descoberto verso a verso, subindo (ou descendo) uma escadaria íngreme: o sentido que carrega consigo.
O poeta é consciente de suas escolhas que, fatalmente, o afastam do leitor médio de poesia. Para tentar entender os seus poemas — aqui escolhi uma das vias de interpretação possíveis —, é necessário entrar na sua lógica experimental de som e sentido, ter prazer no jogo dos conceitos sublimados através do ritmo e de suas raras pausas (o poeta não descansa entre as metáforas), da cascata de rimas que caem sobre nós vindas de um rio escondido nas sombras.
Dividido em três partes, a que denomina Tratados, como se fosse um livro de exercícios filosóficos subdividido em artigos e parágrafos — ou um longo poema de raciocínios montado sobre o conhecimento, original e inteligível, feito de epigramas que se somam num todo, segundo a velha máxima de Aristóteles: o todo é maior do que a soma de suas partes. Lê-se, pois, estes poemas, como se navegando num rio obscuro à procura de suas margens.
No primeiro Tratado, art. 1, pétala adversa, encontramos a proposição, ou o tema a ser desenvolvido:
luz egressa
entre agruras
uma pétala
é ruptura
quando desce
e fulgura
feito fresta
(foz de fuga)
contra pedras
intramuros
(p. 23).
A ruptura da realidade, a queda de uma pétala que rompe o cotidiano, o mundo fechado e comum, sem perspectivas (representado pela dura pedra — o muro):
pedra de porte
vil e feiura
pedra de ódio
viril e surto
pedra de pobre
pedra de puta
pedra de pólis
fria e corrupta
pedra de óssea
sina: sepulcro
(p. 24).
A realidade é sempre dura e mortal, sem compaixão ou piedade:
sob a lápide
monocromática
do imundo
(p. 26).
A luta do homem/poeta é constante, necessária, obrigatória:
tudo o que vinga
ruge e reluz
dentro da vida
(linfa de lutas)
(p. 27).
A flor tem o significado de romper com o que é rude e maligno na existência, combatendo a morte e o nada:
a flor bate
contra a pútrida
parte rude
do não-nada
(p. 29).
No art. 2, pétala libérrima, a liberdade se conquista com a flor que abre o caminho para a lucidez:
rebelde seta
ou flóreo fuste
silvestre vértice
ou púgil acúleo
voga e flagela
a pedra espurca
que não agrega
gnose ou música
nem forma acesso
ao sol maiúsculo
que a estrofe célica
envolve: lúcida
(p. 33).
A luta entre o bem e o mal, na metáfora da flor/pétala contra a pedra, é explicitada no poema:
uma flor surra
o mal nos muros
(p. 35).
A luta penetra inclusive o mundo não poético, escatológico, onde crescem palavras não cristalinas, opacas, sujas, tais como porra, pus, dejetos, pústulas, merda – é como se o poeta visse o mundo como algo a ser esclarecido, limpo através da lucidez poética representada na flor, arma mais frágil ainda: na pétala. Lembro o poeta Prado Veppo (2002, p. 115) no poema que diz: Fazer poesia / No mundo prático / É entrar na guerra / Esgrimindo uma flor. Não é bem isso o que o poeta Adriano Wintter maneja, esgrima, na sua luta interna e externa de compreensão do mundo? Mesmo sendo Veppo um poeta de índole neorromântica e Wintter ligado à vanguarda, como bem demonstra a epígrafe de e. e. cummings, as imagens são similares.
No art. 3, pétala profética, a imagem da flor como ruptura permanece como possibilidade, desejo futuro:
uma pétala
amarela
é fratura
na intempérie
fim do fluxo
deletério
(p. 43).
É uma possibilidade libertadora para o poeta:
farpa fútil
reles réstia
favo nulo
que carrega
no mel plúrimo
o poético
e a amplitude
do mistério
cujo fulcro
vem: liberta
(p. 44).
Liberta pelo encontro com a beleza:
pois a pétala
quando investe
sobre a terra
faz o inverso
de sua queda:
ela eleva
tudo ao belo
e oferece
contra o fero
fosso infecto
refrigério
céu e fé
(p. 45).
Entramos no segundo Tratado, art. 1, pétala térrea, com uma conquista da flor, o que permite o deleite puro do momento único em que a beleza se desvela e surpreende o poeta:
feroz
action painting
da flora
ferindo
necrólatras
com seu festim
(p. 57).
O mundo pode, assim, tornar-se benfazejo, aceitável, aprazível. No art. 2, pétala aérea, o poeta, depois da árdua luta, usando a flor como arma, permite-se usufruir da vida, e nos permite, também, acompanhá-lo na descoberta do belo e da esperança:
amarelo
de relâmpago
ou lã: lépida
luz e lâmina
que libera
a esperança
(p. 70).
No art. 3, pétala férvida, como no primeiro Tratado, o poeta volta a esgrimir contra a realidade, com a flor que é sua arma:
ela vem: queimando
fel e pez inane
(p. 75).
A luta é contínua e o poeta não pode baixar a guarda. No art. 4, pétala hidrosférica, o poeta se deixa levar pelos sons mais que pelo sentido, numa festa luminosa de encontros de fonemas, aliterações, rimas. O poema seguinte é bem representativo desse jogo (parece que aqui o poeta abdica da extrema lucidez, para entregar-se ao exercício do lúdico):
a flor desloca
(pódio do pólen)
a luz da orla
(polo da glória)
da cor que corta
(lesto swarowski)
o rol do sólido
(crisol eólico)
e afoga o imóvel
(poda cióptica)
(p.88).
O poeta tem o poder de enxergar na sombra, pode, então, entregar-se ao ritmo secreto das palavras feito a criança brinca com pedrinhas coloridas num riacho: cor e som. Existe, nesse segundo Tratado, a relação direta com os quatro elementos da filosofia clássica, consubstanciados na imagem da pétala.
No terceiro Tratado, art. 1, inferno apétalo, temos o retorno do terror do mundo apétalo, sem beleza, o antigo enfrentamento volta, a sina do poeta:
sob o domo
hediondo
dos monstros
e demônios
logradouro
de ogros
esconso
dos lobos
ou torvos
ladrões
(p. 101).
No quarto Tratado, art. 1, pétala bélica, o poeta enfrenta o que se opõe à flor:
impelindo
finas minas
de matiz
a explodir
o país
floricida
(p. 111).
Guerra aberta e total contra quem quer destruir o jardim tão duramente conquistado. No art. 3, pétala cinética, o poeta vê-se, novamente, no encontro da paz e da beleza tão almejadas:
incisivo círculo
florífero
o brio
livre das fímbrias
(p. 129).
A visão dessa vida possível muta-se na imagem da bailarina:
viva bailarina
oscila
na suíte
da ventania:
cintila
na suavíssima
descida
sobre a acinesia
e reanima
rijas retinas
(p. 132).
No art. 4, pétala estética, assume o poeta sua visão de estilo e de filosofia:
e destruindo
as galerias líticas
do presídio
cris: antilírico
(p. 139).
No art. 5, pétala mélica, o fortalecimento da voz do poeta através da pétala/imagem torna-se metálica (apesar do seu nome musical) e, protegendo-o como uma armadura de cavaleiro antigo, salva-o da morte:
e o fedido mito
do suicídio
(p. 151).
No art. 7, pétala celeste, o poeta exorciza o mal do mundo, para só então reconciliar-se com a existência:
reprime
espíritos
de pedrarias
que humilha
e arruína: exorciza
(p. 172).
Nota-se no poeta um caminho místico, alquímico, que tenta superar através do domínio da forma e da entrega ao devir do mundo (o conteúdo). Vemos, assim, que o poema é uma longa caminhada de conhecimento, cada poema um degrau que tem de ser expiado para ser explicado.
2. Análise da forma
Murilo Araújo, no seu livro A arte do poeta (1973, p. 50), explica a diferença entre o lírico e o épico: Assim, se na poesia épica domina o caráter objetivo, a lírica é marcada pelo caráter subjetivo. No caso do livro do poeta Adriano Wintter, Sobre a queda de uma pétala, vemos que o caráter objetivo é predominante. Mesmo que o poeta passe pelas fases da criação poética enunciadas pelo autor citado, na p. 14: contemplação, imaginação, expressão. A primeira e a última fases são as preferenciais maneiras de ação poética do autor que estamos analisando. Isso faz com que a síntese seja predominante e a elaboração hermética dos conteúdos uma constante. Extrema contenção linguística e metafórica, e preocupação absoluta com a forma. Falando nela, encontramos um poeta em busca da síntese, expressando-se em poemas epigramáticos, curtos, de poucos versos, no máximo 12, com ritmos rápidos de 3 a 5 sílabas em sua maioria. Essa sucessão de sons verbais harmônicos compõe a parte mais importante do estilo do poeta. Junto das rimas que têm prioridade na musicalidade de seus versos, mesmo correndo o risco de obscurecer o sentido. Como dizia Murilo Araújo, em nota de pé de página: A rima não deve puxar ideias, ao contrário do que pensava Bilac (p. 42). O poeta correu conscientemente esse risco. Usou, preferencialmente, rimas toantes externas. Trabalhou com qualidade as aliterações, como: pua de plumas (p. 42), veloz veludo (p. 43), fosso infecto (p. 53). Não as mencionarei todas aqui, pois o leitor atento, necessariamente, vai dar com elas no texto. O poeta usa, como no passado utilizou Augusto dos Anjos, termos técnicos, científicos, do mundo mineral: “etileno”, “pez”, “êneo”, “féleo”. Essa característica “naturaliza” toda e qualquer possibilidade esotérica (que existe) no texto. Há uma evidente ligação do seu poema com o concretismo literário e pictórico, que não cabe aqui estudar.
3. Conclusão
A poesia de Adriano Wintter é uma poética baseada na expressão, onde a imaginação e o sentimento estão a reboque da forma buscada como depuração do excesso. Uma poética épica (no entendimento de Murilo Araújo), não no sentido heroico, mas no sentido da objetividade dos temas e dos conceitos. Uma poesia predominantemente sintética, elaborada e com sentido filosófico. Essa expressão se traduz numa forma concisa, tendendo ao hermetismo das imagens, alicerçada num perfeito domínio das técnicas do verso. Poderíamos, para finalizar, citar Benedetto Croce, no seu livro A poesia (1967, p. 11): A poesia não pode copiar ou imitar o sentimento porque este, que tem forma por si mesmo, em sua esfera, não tem forma diante dela, e, aí, não é algo determinado, mas o caos, e, sendo o caos um simples momento negativo, é o nada. Como qualquer outra atividade espiritual, a poesia cria, ela mesma, com a solução o problema, com a forma o conteúdo, que não é matéria informe, mas formada.
O leitor encontrará e desenvolverá nesses poemas os seus próprios enigmas.
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Referências
ARAUJO, Murilo: A arte do poeta. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1973.
CROCE, Benedetto: A poesia. Porto Alegre: Edições da Faculdade de Filosofia da UFRGS, 1967.
VEPPO, Prado: Obra completa. Santa Maria: Editora UFSM, 2002.
José Eduardo Degrazia (Porto Alegre, 1951) é médico, poeta, contista, novelista, autor infantojuvenil e tradutor. Publicou dezenas de obras e recebeu vários prêmios, entre os quais: Prêmio Internacional de Poesia da Macedônia do Norte (2022), Prêmios Livro do Ano e Narrativa Curta da Associação Gaúcha de Escritores (2021), Prêmio Internacional de Poesia de Trieste (2013), Prêmio de prosa da Academia Mahi Eminescu — Romênia (2012), Prêmio livro do ano da Associação Gaúcha de Escritores/Novela (2006), Prêmio do I Concurso Universitário de Literatura da UFRGS (1976). Finalista do Prêmio Oceanos de 2025 com o livro As Cidades Conquistadas. Ocupa a cadeira n.º 1 da Academia Rio-Grandense de Letras.
