Coluna Guido Viaro: A Laranja Verde/Capítulo 8

Ilustração: Owen Gent

O jovem despertou confuso. Pedaços do sonho gritavam para não caírem no esquecimento. Eram brasas queimando carne, desejando que a dor garantisse que elas não desaparecessem entre os imensos vãos da memória. O final, quando aquele homem o desperta, ainda estava quente, mas havia trechos muito mais pesados, que precisava congelá-los para poder analisá-los com mais calma. Mas a imensa quantidade de material anunciava que a tarefa seria impossível. E toda aquela riqueza estava condenada ao desaparecimento.   
                                                                                            
Lembrou-se do fundo do mar, do louva-a-deus e de sua particular forma de perceber a realidade. Mas já não mais havia uma linha condutora, que construíra um enredo, mesmo que quase abstrato. Ele acreditava que deveria haver um sentido, que aquela quase infinita sequência de absurdos estava lá para dizer algo. Mas talvez os sonhos fossem como estrelas, existem, estão lá, mas nunca poderemos tocá-los ou compreendê-los.                                               
 
Levantou-se e foi caminhar pela praia. Não queria encontrar ninguém, pois não saberia o que dizer sobre a noite que vivera. Pela posição do sol calculou que convivera com aquele sonho por quase a metade de um dia. Jamais sonhara durante tanto tempo. Também jamais sonhara tão profundamente. Mesmo a primeira experiência que tivera não se comparava a essa. E talvez ainda estivesse longe do ponto mais fundo do oceano. Poderia ser que ainda pisasse em águas rasas.  
                                                                                 
Percebeu que se continuasse na praia, logo encontraria conhecidos que o distrairiam e ele acabaria se esquecendo daquilo que mais o interessava. Afastou-se da comunidade e encontrou um refúgio solitário invadindo a mata não muito longe do lago. Sentado sob a sombra de uma palmeira encontrou a paz de que precisava. Mas ela durou pouco.  
                                                                                        
Precisava organizar seus pensamentos. Alguns fragmentos sonhados ainda estavam quentes e queimavam-lhe a alma. Mas não havia sentido em conservá-los assim, se não conseguisse dar um sentido a esses acumulados de sensações. Essa era a grande questão, sem a qual todo o resto não passaria de uma imensa e penosa perda de tempo. Mas por onde deveria começar? A missão era ingrata e se assemelhava a um levantamento do número de ondas no mar ou de folhas em todas as árvores que existiam. Poderia passar a vida contando e mesmo assim, aquele grande número que obteria no final de sua vida, nada significaria, e, principalmente, não possuiria um sentido.    
                                                                         
Talvez devesse começar por aquele instante que mais se aproximava dele mesmo. Aquela figura humana que o despertou, e com a qual juntos olharam para as laranjas verdes. Não conseguia se lembrar do rosto do homem, mas isso também não importava muito. Alguém o despertara de seu sono, mas assim que acordou, ainda sonhava, portanto ainda dormia. E aquele homem que foi desperto enquanto dormia dentro de seu próprio sonho, será que sonhara com o mesmo que sonhou? Ou então aquele outro, que se parecia com ele e estava no mesmo lugar onde estava, não seria apenas uma representação dele mesmo? Uma falsa imagem construída apenas com finalidades simbólicas? 
                                           
Difícil dizer. Mas nesse tipo de dedução, nada é fácil. Prosseguiu: se realmente existissem outras representações de si mesmo, não seria ele, aquele que nesse instante está sob as palmeiras, procurando encontrar um sentido para seu sonho, apenas mais uma dessas imagens falsas? Quem poderia garantir o contrário?  
                                                                                                              
Então ele sorriu e logo em seguida cobriu o rosto com as mãos. Quando voltou a enxergar a luz do sol, tinha um semblante preocupado. Tudo era possível, até mesmo que o sonho, de fato, estivesse acontecendo naquele exato instante, e tudo o que vivera durante aquela estranha noite, fosse a mais pura realidade. Finalmente chegou a sua primeira conclusão, que apesar de evidente, e de não possuir muita serventia, acalmou-lhe os ânimos: a única certeza que tinha é que não havia garantias. Em nenhum dos caminhos, em nenhuma escolha, dentro ou fora de sonhos, nada era absoluto. Se a relatividade possuísse um cheiro, seria esse o odor do universo.                                                                                                      
 
Um pouco depois, percebeu que os efeitos anestésicos dessa conclusão não teriam longa duração. Começou a sentir coceiras que desciam por seu tronco até acumularem-se na base de sua alma, como uma poça de sangue coalhado que espera tranquilamente até conseguir perpetrar males maiores. Sono e vigília abrigavam duas pessoas diferentes, aquele que vive e aquele que vive o sonho. Ao contrário daquilo que sempre acreditara, aquele que vive poderia não ser mais importante do que aquele que vive o sonho. Na verdade, pelas possibilidades que estão ao alcance daquele que experimenta o sonho, ele sim, poderia ser o personagem principal. E ele mesmo, como se conhecia, como se compreendia, não passasse de um detalhe sem importância. 
                                                                           
Mas, como não possuía certezas, nenhuma atitude deveria ser tomada. E mesmo se decidisse arriscar, o que poderia fazer? Abandonar o corpo para viver no mundo dos sonhos? Isso se assemelhava ao que se chama por aí, morrer. Não era o que queria. Os sonhos talvez não fossem meras consequências do que vivemos acordados. Talvez tudo acontecesse no sentido oposto, ou então em ambos. Mas como poderia experimentar o outro lado se aquele em que se transformava assim que dormia, já não era ele. Talvez alguém parecido, que compartilhava partes de sua consciência, mas que não obedecia a suas ordens e desejos. O homem existe porque deseja, e aquele outro, parece apenas acontecer conduzido por um fluxo que não obedece a seus desejos.                                                                 
Havia outro abismo que separava os dois homens, aquele dos sonhos, aparentemente, não gerava memórias. Tudo acontecia, e na noite seguinte precisaria acontecer novamente, e nunca, nenhuma marca ficaria impressa sobre si mesmo ou sobre o mundo. Enquanto ele, aquele que está acordado, a cada dia carregaria pequenas e grandes recordações do cotidiano, aumentando o peso todas as manhãs. Até que o fardo não pudesse mais ser carregado, e os materiais precisassem ser distribuídos a quem tivesse interesse, ou então jogados no lixo.                                                                           
 
Sentia-se como alguém que havia invadido território proibido e agora não encontrava o caminho de volta para sua terra natal, e mesmo se encontrasse, talvez, também ali, começasse a se sentir estrangeiro. Uma bola incandescente de angústia escorregou na direção de seu estômago. Mergulhou no lago para acalmar as ardências. Quando voltou para a relva parecia mais conformado. A hipocrisia humana talvez possuísse algumas raízes ligadas a fatores bem mais profundos do que aparentavam. Precisava ser hipócrita para continuar vivo, fingir, mesmo sabendo o contrário, que a única vida que existe e importa, é aquela que acontece após a abertura de nossos olhos todas as manhãs. Jogar todas as dores dentro de lixeiras feitas para suportar o cotidiano. Esquecer todos aqueles peixes misteriosos, aquelas luzes sem nome e as fulgurantes explosões libertadoras. Tudo em nome de nossos intestinos.                        
 
As coceiras atacaram, e alguns insetos pareceram perceber a oportunidade de aumentar seu desconforto formando uma nuvem de zumbidos ao seu redor. Voltou para a praia e mergulhou de olhos abertos na água salgada. O desconforto momentâneo arrastou consigo algumas ideias. Os peixes foram feitos para viverem dentro d’água, assim como os homens em estado de vigília. Não há peixe que consiga sobreviver fora d’água. Isso deve ser um indicativo de que o homem deve viver na vigília e visitar durante as noites o mundo dos sonhos, mas jamais poderá trocar de lado. A tentativa resultará na destruição da vigília, e por conseguinte, do mundo dos sonhos. Pois a morte pode ser um terceiro caminho, diferente dos outros dois.     A sabedoria consistia em aceitar suas próprias limitações e, apesar delas, utilizando materiais colhidos durante esses raros sonhos de grandeza elevada, ampliar os horizontes mentais de sua vida em vigília. Ele sorriu. O céu azul mostrava a primeira estrela, mas a luz ainda era suficiente para iluminar seu rosto. Desejou ser outra pessoa para conseguir se enxergar. Então mergulhou mais uma vez, olhos abertos até que a dor se tornasse insuportável. Quando emergiu de olhos fechados, sentiu o espírito do mar invadindo suas narinas. Isso serviu de consolo até que conseguisse novamente abrir os olhos e enxergar seu reflexo quase apagado nas águas que se transformavam em noite.                                                     
 
O mundo escureceu, o jovem, entretanto não queria dormir. Temia mais um daqueles sonhos imensos. Mais pedras para serem carregadas por seus ombros fatigados. Caminhou pela praia, admirou a lua e as estrelas. Depois escalou o penhasco e deitou-se olhando para o céu. Sabia que o sono seria inevitável, mas enquanto pudesse, iria lutar contra ele impondo a seu cérebro desafios que serviriam como rochas bloqueando o avanço dos sonhos. A primeira rocha era uma sólida pergunta: eu existo, de fato?  
                                                                                                                                                                    
Dei esse espaço para que ninguém se confunda. Ele continua no alto do rochedo tentando evitar um sono tão inevitável quanto a morte, mas está em seu pleno direito, afinal, viver, não é, em última instância, evitar a morte a todo custo? Enquanto isso desvio o assunto e volto a falar de literatura. Da mesma forma que ele, que é personagem para mim, para nós, mas é ser vivo para ele mesmo, duvida de sua própria existência e suspeita de que o personagem de seu sonho, que representa ele mesmo, possa ser o verdadeiro ser vivo, e ele mesmo, uma mera imitação daquele outro, o escritor quando constrói personagens de verdade, empresta a eles um pouco de sua vida. Vida que talvez, daquele momento em diante, venha a lhe fazer falta. Grandes escritores costumam secar após construírem grandes personagens. É claro, parte deles continuará vivendo nos personagens por um período de tempo muito maior do que uma vida humana. Mas, é apenas parte, o grosso deles morrerá como morre o mais medíocre dos homens.                                                                         
 
O que isso prova? Nada. Pelo contrário, complica ainda mais as coisas. A vida parece ser uma substância fluída que não pode ser aprisionada ou acumulada. Se não for vivida, desaparece. Grandes escritores talvez sintam esse mistério, por isso nunca são homens felizes. Todo seu imenso esforço será usufruído por outros, para eles apenas o fardo, e talvez alguma glória, que não tem o poder de alegrá-los, pois conhecem sua transitoriedade.  
                               
Saltemos então para o personagem, o jovem, que após reveladoras experiências com sonhos, suspeita que talvez não seja forte o suficiente para carregar aquele fardo. Duvida, sofre, busca, mas não enxerga um palmo a sua frente, e talvez venha justamente daí a maior fatia de suas dores. Teme desperdiçar suas energias caminhando pela estrada errada. E esse não seria também um medo que te aflige? Você, leitor, que constrói os alicerces de tua vida e depois vai empilhando tijolos, tomando cuidado para que a camada de cimento que os separa seja grossa o suficiente para que as paredes endureçam. Mas que antes de dormir olha para as paredes que levantou e imagina se não foram erigidas sobre terreno pantanoso, e qualquer dia ou noite, sem aviso, desabarão, levando embora o esforço de uma vida, e a própria vida.                                    
 
O jovem teme, como nós tememos, mas ele está em idade de agir, e fatalmente o fará, escolherá um caminho, abrindo espaço para o arrependimento. Depois justificará sua opção, desenrolando suas vantagens, e quando elas não forem suficientes, garantindo aos outros que, pelo menos, seus erros foram cometidos por uma ação e não por omissão. 
                                                                                      
Mas ele pode também não se arrepender, afirmar que diante de quase infinitas possibilidades alguma força mágica o ungiu a escolher a única estrada correta. Para sustentar essa atitude, precisará elevar-se acima de todos o tempo todo e em todas as ocasiões. A partir de então todo o resto desaparece e suas forças serão usadas para que a aura de sabedoria plena seja sustentada.                  
 
Percebam que as perspectivas daquele jovem não são muito animadoras. Mas ele, no ponto em que está, não consegue enxergar as coisas assim. Todas as manhãs é flechado por setas envenenadas com o vírus da esperança. Cada novo dia promete cores e cheiros novos. Seu corpo está amarrado a sensações, mas ainda mais, a promessas de sensações.                                        
 
Ele, o jovem, então prossegue, assim como todos nós prosseguimos caminhando sobre pedras escuras. Enquanto isso as probabilidades vão se movendo, o terreno vai assentando, nossos pés vão descartando estradas, escolhendo caminhos, até que tudo se torna irreversível. As outras estradas ficaram para trás e não podem mais ser alcançadas, nós mesmos deixamos pedaços pelo caminho e não somos aqueles que acreditamos ser. Então a noite cai. E tudo é escuro.  
                                                                                               
Ele, o jovem, vive a fronteira, a noite é só uma promessa, o céu ainda espera os desenhos luminosos das estrelas e seus olhos estão atentos a surpresas. Corpos celestes nunca vistos, símbolos com respostas escritas em seus bojos, manhãs bruscamente rasgando noites ainda não escurecidas. O coração de um jovem é agudo e não acredita nas fronteiras do destino, mesmo se viesse a conhecer previamente suas condenações.
                                                      
Deixemos o jovem um pouco de lado, na verdade não o abandonaremos, apenas transformaremos seu invólucro. O que é um leitor? Sim, você que nesse instante consome essas palavras enfileiradas em uma determinada ordem, e que juntas constroem uma ideia ou um conjunto delas? Vamos começar pelas respostas mais evidentes. O leitor é alguém com sede de saber. É alguém que deseja passar seu tempo. Uma pessoa com capacidade de concentração suficiente para absorver uma história da maneira menos evidente. Um jeito não visual, e que exige raciocínio para formalizar mentalmente o que as palavras simbolizam. 
                                     
Todas essas respostas estão corretas, mas elas não atingem o âmago da questão. Na minha opinião, antes de tudo o leitor é um jovem. Isso mesmo, um jovem que pode ter qualquer idade. E assim é porque gosta de espiar vidas alheias para saber se elas se parecem com a sua. Quer saber como funciona a experiência de se estar vivo em outras pessoas que não ele mesmo. Quer descobrir aquilo que apenas suspeita existir. Não se contenta com a própria existência e descobriu na leitura uma maneira interativa de encontrar tesouros. Como se cada nova arca enterrada não trouxesse moedas de ouro, mas um novo mapa que indica onde a próxima arca estará enterrada. Junto com o pergaminho enrolado, o leitor encontra um caco de espelho onde, queira ou não, acaba enxergando o próprio rosto. Então o leitor aprende a interagir consigo mesmo. Reconhece traços de seu rosto em personagens românticos do século 19, e empresta laivos de sua personalidade a heróis de ficção científica. O caminho é de mão dupla e a estrada, sempre que achamos que chegou ao fim, bifurca-se, ou então se transforma em círculo, e acabamos reconhecendo o exato ponto de onde partimos.                                          
 
E não há nada mais jovem do que o aprendizado constante e a aceitação tranquila da aparente falta de resultados práticos. É com esses ingredientes que fabricamos o jovem que viverá intacto, mesmo quando sua pele estiver enrugada e seus ossos prestes a se esfarelarem. E esse jovem guardará luzes em seus olhos, e elas aparecerão nos momentos mais inusitados, instantes antes da noite cair, durante um pensamento corriqueiro, ou no exato momento em que descobre que, apesar de sua alma se manter jovem, seu corpo já não possui o mesmo viço, e de agora em diante, corpo e alma serão animais de raças diferentes.  
                                                            
E como já decidimos que o jovem e o leitor são dois símbolos do mesmo objeto, e que suas respectivas existências são as sombras exercidas sobre o mundo, voltemos ao leitor, e ao brilho que eventualmente também incendeia seus olhos. De que matéria seriam feitas essas luzes? As páginas são viradas, milhares delas, e, de repente, uma faísca, o leitor percebe que todas suas dúvidas, as dores, a sensação de injustiça, tudo pelo que passou e julgou ser o primeiro a provar desses males, tudo isso já foi vivido por outra alma que espremeu a laranja e manchou as páginas em branco com o sumo do que vivenciou. Seus amores e esperanças, suas felicidades, o leitor, eventualmente também os encontra impressos em páginas.          

A sensação de conforto espalha-se pelo corpo. Aquela alma que, mesmo em meio a muita gente, frequentemente se sentia sozinha, descobre que seus sentimentos não são originais, e que ele ou ela fazem parte de uma longa corrente de atos e consequência que nasceu com o primeiro homem e só morrerá com o último. E é nesse instante em que as luzes nascem. Frequentemente a beleza serve de faísca, e inicia uma reação em cadeia que impulsiona moléculas sem matéria, descobre significados, atropela paradoxos e faz com que o escuro seja iluminado por dois olhos que, mais do que parecerem vivos, são a vida acontecendo.  
                                                     
Muitos milhares de páginas precisarão ser viradas para que a mágica ocorra novamente. Às vezes, a aparição das luzes misteriosas acontece apenas uma vez na vida. Mas tem o poder de modificar todos os dias que ainda restam para serem vividos. E esse mundo é estranho, não obedece às aritméticas terrestres. Homens que leem muitos livros não necessariamente terão mais chances de encontros com o grande mistério. Às vezes, o excesso de leitura mecaniza o processo mental e bloqueia a entrada clandestina de tesouros. Ficamos tão concentrados no número da página, no enredo da história, que acabamos não permitindo a entrada de mais nada além daquilo que já conhecemos.   
                                                              
Voltamos ao jovem e a seu dilema, deve permitir-se duvidar, e consequentemente, sofrer. Ou buscará as certezas que estão ao seu redor, e os prazeres anestésicos que elas carregam. Mesmo sabendo que, em uma noite distante, quando a juventude já tiver ido embora, descobrirá sombras estranhas que se arrastam pelo chão de seu quarto. E logo perceberá ser a única pessoa que as enxerga. Então saberá que elas estão ali para lembrá-lo de sua escolha de juventude. Abandonou algo que, de agora em diante, pedirá para existir. Os prazeres corriqueiros já não fazem mais sentido, a dúvida, o meio-tom e as sombras que foram abandonados durante toda sua vida, agora estão de volta, e são estridentes. Ele fechará seus olhos para não enxergá-las, mas assim que elas perceberem isso, gritarão até que ele se dê conta de que é inútil tentar fugir, e que deverá engolir em seco a dor de saber que é tarde demais para carregar o peso daquelas sombras escuras. 
                                                                          
Os arrependimentos e escolhas continuam acontecendo e, por mais estranho que pareça, um não elimina o outro. Quem escolhe, arrepende-se dos caminhos não tomados. Aquele que não faz opção se arrepende de sua abstinência. Os orgulhos pesam menos do que os arrependimentos, e os anos, vão enfraquecendo certezas e aumentando as fendas escuras que aparecem nas estradas. Viver é, mesmo sucumbindo aos empurrões do tempo, saber se equilibrar entre a ação e o medo. Escrever não é muito diferente, há o instinto, que assim como nos faz viver, nos faz contar o que foi vivido (a fantasia mais absurda também faz parte de nossa vivência). Escrevemos pressionados pelo tempo, pois nosso período útil como escritores é limitado pela curta duração de nossas vidas.                                      
 
Escrever é viver duas vezes, mas para que isso aconteça, o escritor não pode abandonar a própria vida em favor dos livros. Eles serão uma consequência de seus dias, mas sem a vida experimentada dia a dia aquilo que se transformar em livro será apenas uma caricatura. Seus personagens serão descrições de almas, e não a tentativa humana de fundá-las utilizando-se de palavras e papel . 
                                                                                             
De qualquer forma, e não reclamem, o mundo é mesmo cheio de contradições, e esse livro pertence ao mundo. Como já afirmei anteriormente, a criação de um personagem literário rico diminui o brilho humano do escritor, que empresta parte de suas melhores e piores características ao personagem a quem doa vida. É por isso que não existe receita para viver ou escrever.     
                                          
“Já que estamos aqui, precisamos prosseguir.” Essa frase deveria estar escrita nas paredes de todas as maternidades do mundo. Então, após décadas sobre o planeta, talvez alguns homens escolhessem essas letras em bronze para colocarem sobre suas sepulturas: “Só me incomodei.”. Outros apenas se calariam, e perto do fim, perguntariam a um céu que não lhes responde: “Mas onde entram as alegrias, os momentos de enlevo, a emoção da beleza?” É claro que não podemos ignorá-los. O que torna tudo ainda mais complicado. Precisamos, dentro de nosso medo, das evidentes dores, encaixar também as felicidades, se não quisermos correr o risco de transformarmos nossas vidas em dogmas simplórios.                    
 
É por essa razão que são tão raros os grandes livros. Neles tudo deve estar encaixado e nenhuma peça do quebra-cabeças deve sobrar.     
                                                                                                     
Interrompamos essa longa digressão, e voltemos ao nosso jovem, é dele o instante que está sendo vivido, pertence a ele o momento decisivo, que logo se transformará em história para depois desaparecer. Mas nesse exato instante ele vive, do alto dos rochedos olha para um céu que acabou de escurecer, em busca de respostas. Os pequenos pontos esbranquiçados que começam a brotar lembram-lhe barcos perdidos no oceano. Ele mesmo sente-se como um desses pontos solitários, infinitamente menor do que o universo ao seu redor.



   

Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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