
TU ÉS TUDO
Súplica aos elementos
[Da epígrafe:]
Pois as quatro raízes de todas (as coisas) ouve primeiro:
Zeus brilhante e Hera portadora de vida, Aidoneus
e Nestis, que de lágrimas umedece fonte mortal.*
Empédocles de Agrigento (c. 490-435 a.C.) – Aécio, 1, 3
(*) As divindades representam, respectivamente,
as quatro “raízes” (rizómata) ou “elementos” (stoikheîa):
fogo, ar, terra e água.
Duplas (coisas) direi: pois ora um foi crescido a ser um só
de muitos, ora de novo partiu-se a ser muitos de um só,
fogo e água e terra, e de ar a infinita altura,
e Ódio funesto fora deles, de peso igual em toda parte,
e Amizade dentro deles, igual em comprimento e largura
[…]
Empédocles de Agrigento – Simplício, Física, 157
Tradução: José Cavalcante de Souza
FOGO
E o mato que é bom, o fogo queimou
Antonio Carlos Jobim, “Passarim”
Tu és tudo, ó Fogo,
se andas convulso pelas matas
a devorar as árvores altas,
fazendo arder os caules verdes,
virar carvão todo vivente;
se podes, por si, assolar
sem trégua e limite o que há,
ser meio para o fim do mundo,
um usurpador do futuro.
Tu és tudo, ó Fogo,
se és capaz de prover calor
ao ser que o frio leva à morte,
de ser a luz no canto escuro,
símbolo sagrado em um culto;
de ser a chama da memória,
a tocha que celebra a glória,
a brasa que assa o que se come,
a purificação do homem.
Tu és tudo, ó Fogo,
se de ti dependem os dias,
por ti a noite se ilumina,
se a vida existe por tua causa;
sem ti não haveria água.
És tudo em teu próprio ser, Fogo,
como partícipe do todo,
que se funde mas prossegue único,
foco emergente do conjunto.
Tu és tudo, ó Fogo:
és o que se deixa de ter
desde que arrefece o desejo,
a alma cansada não se inflama,
o ânimo não mais se levanta;
desde que se descrê no ímpeto,
perde-se o ardor na fé do íntimo,
no coração o sangue esfria,
na fala o verbo não se agita;
quando o brilho do olhar se embaça,
a vontade da voz se apaga,
o suor não mais cobre o corpo,
o amor não mais sossega o sono.
Tu és tudo, ó Fogo,
mas na catástrofe instalada
neste agora, queimas as matas
sem dó, voluntariosamente,
sem destruição que te contente,
e em outras partes, alimentas
com tua força as guerras cruentas,
que explodem e abrasam cidades;
és o fulcro de atrocidades.
Por isso rogo, ó Elemento,
que concedas, em tais eventos,
um pouco de nada em teu tudo,
e de humildade em teu orgulho:
Tu és tudo, ó Fogo.
(Zeus flamejante, não te ofendas;
reverência é minha oferenda.)
Diz a razão que não me escutas,
e em vão será pedir-te ajuda;
mas se aos imortais não se pede,
tampouco aos mortais me compete
dirigir-nos palavra: surdos,
só ouvimos apelos escusos;
estultos, é a nós que cultuamos,
omissos e fiéis aos enganos.
Tu és tudo, ó Fogo:
que um breve motivo de vida
sobrepuje a supremacia
eterna de tua majestade,
antes que seja mais que tarde.
TERRA
Passarim quis pousar, não deu, voou
Antonio Carlos Jobim, “Passarim”
Tudo o que não fugia, gaviões, urubus, plantas bravas,
a terra devastada ainda mais fundo devastava.
João Cabral de Melo Neto, “Morte e vida severina”
Tu és tudo, ó Terra,
se com teus tremores assaltas
de tempo em tempo áreas povoadas,
se devastas com tuas lavas
as extensões em que te alastras;
se podes, como o todo que és,
concentrar todos os revezes,
abrir-te em grandes profundezas
e em teu magma extinguir belezas.
Tu és tudo, ó Terra,
se tua matéria nos sustenta,
no infindo tempo nos aguenta;
se és o esteio de onde viemos,
o pó em que nos desfaremos;
se és onde tudo se cultiva,
se provês os bens que dão vida,
em teu seio abrigas sementes,
és dos seres todos a gênese.
Tu és tudo, ó Terra,
se em ti nascem as estações,
se transmutas tuas ações
em teu contínuo movimento,
se compões o eterno e o momento.
És tudo em teu próprio ser, Terra,
como parte que o todo encerra,
ente que se mescla e resta único,
profunda base do conjunto.
Tu és tudo, ó Terra:
és o que se deixa de ter
se a alma voa sem se conter,
o senso perde sua medida,
a razão se faz exaurida;
sempre que se descrê dos pesos,
não se dá espaço aos sossegos,
negam-se sentidos profundos,
crê-se que a superfície é tudo;
quando o altivo não vê o chão,
por causas vãs desprezam grãos,
pelo fácil se larga o arado,
deixam-se atalhos dos achados.
Tu és tudo, ó Terra,
mas na catástrofe instalada
neste agora, soterras casas
quando deslizas por encostas,
arrasando tudo o que encontras;
e amiúde sacodes teus dentros,
irradiando solos violentos,
que mostram tua face sombria,
o reino das noites sem vida.
Por isso rogo, ó Elemento,
que concedas, em tais eventos,
um pouco de nada em teu tudo,
e de humildade em teu orgulho:
Tu és tudo, ó Terra.
(Aidoneus ctônio, não te ofendas;
reverência é minha oferenda.)
Diz a razão que não me escutas,
e em vão será pedir-te ajuda;
mas se aos imortais não se pede,
tampouco aos mortais me compete
dirigir-nos palavra: surdos,
só ouvimos apelos escusos;
estultos, é a nós que cultuamos,
omissos e fiéis aos enganos.
Tu és tudo, ó Terra:
que um breve motivo de vida
sobrepuje a supremacia
eterna de tua majestade,
antes que seja mais que tarde.
Os dois poemas pertencem à série referida no título, dedicada aos quatro elementos da natureza, integrante da parte “Segunda pessoa” do livro Ascensões e descensos (Madamu).

Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.