
Proponho-me a um breve descortinar do poema “Sensual”, da poetisa brasileira Gilka da Costa de Melo Machado. Nascida no Rio de Janeiro em 12 de março de 1893, Gilka Machado (como assim ficou conhecida nas letras brasileiras), publicou seu primeiro livro, Cristais partidos – no qual se encontra o poema cuja leitura aqui será feita –, ainda no ardor da juventude, em 1915 (contando, portanto, com 22 anos). Nessa obra, Gilka já delineia os tons e os temas que atravessarão as demais produções que vieram à luz pela sua pena: as sutilezas da mulher tanto em sua condição carnal quanto espirtual nas fendas de uma estrutura social organizada, sobretudo, a partir de paradigmas patriarcais.
A escrita de Gilka Machado comunica-se expressivamente com suas vivências íntimas e coletivas. Ela teve participação ativa em movimentos sociais defensores dos direitos das mulheres, o que a tornou a primeira secretária do Partido Republicano Feminino – fundado no Brasil em 1910. Dentro desse contexto, Gilka, por meio da sua poética, convocou e avivou (e continua fazendo-o) a expressão do eu feminino, que transgride as posições fossilizadas que lhe foram impingidas não apenas por fatores históricos, como também, e principalmente, culturais.
Feitas essas brevíssimas considerações sobre a poetisa e sua obra poética, passo à leitura do poema “Sensual”:
Quando, longe de ti, solitária, medito
neste afeto pagão que envergonhada oculto,
vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito
que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.
A febril confissão deste afeto infinito
há muito que, medrosa, em seus lábios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
a minha castidade é como um insulto.
Se acaso te achas longe, a colossal barreira
dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.
Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volúpia a escosa e fria lesma
minha carne poluir com repugnante baba…
(Gilka Machado, “Sensual”, Cristais partidos, 2017 [1915]).
O erotismo é traço de relevo no fazer poético de Gilka Machado: o feminina ganha contornos e sutilezas atrelados essencialmente à sua condição de ser desejante. Em “Sensual”, numa construção clássica de soneto, as rimas marcadas dão ao poema o ritmo que envolve e inebria. A voz lírica, em clara solidão, é atravessada com intensidade pelas vontades do corpo, mas contém-se, no espaço poético então criado, tal qual se dá a ver, em razão de sensos moralizantes, como se estes, perseguidores em segundo grau, estivessem sondando essa voz e nela desencadeasse a inquietude que a atordoa e a afasta da ternura insuspeitada.
A presença-ausência do sujeito amado, apreendido nos vãos dos versos, faz sentir-se sinestesicamente em tons de espinhosa rememoração, pois a não presença, ambígua, contrói a mácula e o afeto desvirtuado. A “barreira” (uma das imagens centrais do poema), construída simbolicamente por aquele que não figura explicitamente nos versos e sustentada pela voz poética com uma resignação já esmorecida pela força da volúpia, jamais deve ser ruída (sugere o texto), pois a natureza do desejo aí pulsante é insidiosa e profana.
Na condição solitária, a excitação, ostentada entre o permitido e o proibido, liga-se a uma lembrança olfativa, como se na atmosfera sob a qual a voz lirica está se concentrasse o “perfume esquisito” do outro (que permanece ausente concretamente). O que faz com o encontro da voz lírica com as pulsações do seu próprio corpo venha a provocar sensações de “afeto pagão”. A transgressão se estabelece. O desassossego advindo do assunto de alvoca bifurca a voz poética entre manter-se em êxtase ou dele evadir-se.
Tal volúpia, além da autorrepressão, mostra-se, além de tudo, revestida de recato e impasses, haja vista o contrário, sua expressão, sugerir “um insulto” ao que constitui a “barreira colossal”: o sujeito em falta e os ideais moralizantes. Mas o desejo, a vontade e o prazer protestam pela queda de entrave tão brutal, de tal modo que a voz lírica entrega-se à luta, vencendo, prosperando num gozo que, sem demoras, torna-se repugnância. A perturbação volta ao seu encargo corrosivo.
Tolhida pelo ressentimento e pela culpa, a voz poética confessa ao ser ausente o saciar solitário de uma vontade que se fazia indomável. Tal voz se antecipa em delito, traição e leviandade. Seu corpo, mesmo sobrepujado pelas ânsias mais extremas, em que as forças se esvaem na tarefa ingrata de sustentar sozinha a muralha, sugere-se autorizado para vivenciar e expurgar as ternuras íntimas tão somente perante o “olhar lascivo” da alteridade. Contudo, deu-se a falta e, para arrefecer o peso de culpabilidade, esse outro faz-se presente pela consciência lírica a fim de justificar a queda, o desmoronamento, a liberação do gozo (proibido).
As “barreiras altaneiras” não ficaram de pé, inabaláveis, porque a voz emergindo dos versos, em desamparo, não prospera na sustentação desse entrave. Fruto, certamente, de pensamentos de alerta e autovigilância… E, ainda que os ombros fiquem aliviados e o corpo despojado, o êxtase é feito lesma – impuro e repulsivo. O objeto real de desejo – o legítimo e permitido – não está em inteireza, concretamente, para a “derrota” das sensações e vontades que ameaçam a reverenciada “castidade”… O remorso domina a voz lírica, e o fardo se torna mais pesado. O autotoque do eu feminino converte-se em puro delito e insídia.
Por certo, no poema “Sensual”, em que a voz poética feminina se vê reprimida ante desejos ligados ao corpo, depreende-se que o erotismo avivado por Gilka Machado lida com as paixões humanas mais elementares a partir de estruturas sociais e comportamentos condicionados que deflagram o medo/ o receio, a negação das vontades atreladas à alma e ao sexo, e que propalam – desde que se leve em consideração o contexto sociocultural e religioso em que Cristais partidos foi ecrito – a ideia de distanciamento do divino quando o espírito é eivada pelo que se considera pecaminoso, coibido – em suma, por tudo aquilo que pode ameaçar a condição de ser imaculado e moralmente aceitável.
Contra esses fragmentos de mundo e existências ideais, nossa poetisa transitou entre a singularidade e a marginalidade, entre o singular e o plural. Tanto é que “A implicância [com Gilka Machado] era por ser uma mulher que escrevia sobre o desejo, por ser uma mulher que mexia com o imaginário de homens e de mulheres, usando abertamente em seus versos palavras gozo, cio, beijo, boca, língua, corpo, tara, carne, mordida, volúpia” (Pinheiro, 2019, p. 108).
Mas essas posturas de aversão nunca impediram que Gilka propusesse e aguçasse uma perspectiva de alcance social, cultural e psicológica à volta do feminino, dando relevo à apreciação e à expressão plena da intimidade da mulher numa conjunção de ternura, leveza e perspicácia crítica.
A propósito de conclusão, é oportuno dar a ver certo veio da poesia de Gilka Machado, já matizado no poema “Sensual”: a projeção da imagem evocatória das liberdades femininas, sempre avultando desejos tantos, como se fossem pássaros libérrimos, rasgando o ar com voos de exuberância: “Ser mulher, desejar outra alma pura e alada/ para poder, com ela, o infinito transpor […]” (versos 5 e 6 de “Ser mulher”, em Cristais partidos, 2017 [1915]).
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Referências
MACHADO, Gilka. Cristais partidos. São Paulo: Demônio Negro, 2017 [1915].
PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. Trad. José Bento. Lisboa: Assírio & Alvim, 1995. [Complementar].
PINHEIRO, Maria do Socorro. O imaginário erótico na poesia de Gilka Machado. Téssera, v. 1, n. 2, p. 105-119, 2019. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/ tessera/article/view/48284. Acesso em: 27 ago. 2026.

Eduardo de Lima é Mestre em Estudos Literários. Atua como Pesquisador de Poesia e Dramaturgia e Crítico Literário. Integra Grupos de Pesquisa da UFRPE e da PUC-SP.