
A paz é desejo e repulsa,
Enquanto nos equilibramos entre abismos,
Pisando na estreita faixa que machuca os pés,
E ansiando por aquilo que está além do horizonte,
Admiramos a tranquilidade de uma cadeira,
Plena de si, sem vontades ou dores.
Então a angústia nos empurra,
Passos rápidos e perigosos,
Ouvimos o trovoar dos precipícios,
Tememos tudo o que não seja nós mesmos,
E ainda mais aquilo que suspeitamos ser.
Por isso detestamos a cadeira e outras formas de calmaria.
E o que nos sobra são as feridas nos pés,
O arrependimento da escolha não feita,
E a vontade selvagem de descobrir a próxima esquina.
***
Vivo o instante,
Ele é o cometa riscando a noite,
Ou os sargaços dançando entre água e luz.
Sou os olhos daquilo que não sou,
Atado à presença constante de mim mesmo,
Que espalha suas sombras sobre as imagens encadeadas
Que me formam os dias.
Deixo-me encantar pelas águas do rio a que assisto,
Correnteza que também me conduz.
***
Gotas de luz,
Instantes pingando sobre o rio,
Que é movimento.
Correnteza iluminada
Construindo realidades.
Fundindo-se em contornos
Sem a solidez do espaço
Ou o derretimento dos dias.
Bolhas sem fronteira de onde nem o nada escapa.
***
O roseiral desiste de suas flores:
Chovem cores sobre o cinza.
Olhos atentos percebem o contraste:
O mundo é repartido.
O homem, a vã tentativa de ser um monólito.
***
O passado pesa sobre o chão,
O homem caminha na direção oposta.
A coluna vertebral é a vara da esperança,
Estendendo ossos esguios para capturar a solidez das nuvens.
***
Sobre a cabeça todos os tamanhos de convicção.
Odores arrastam lembranças e certezas.
A fluida sombra nebulosa flutua entre pensamentos e intuição.
Mas há os ares que vem de cima,
E aqueles que brotam como tubérculos doloridos,
Rasgando o ventre das terras.
E há ainda a soma de todas as forças,
A conexão de opostos,
O vento que emenda nuvens para que o pássaro paire em paz.
E dentro de seus olhos avermelhados,
Resplandeçam o horizonte,
E aquilo que por ele é dividido.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
