Olhos vertidos no desamparo extremo: Eduardo de Lima



É bem verdade que a poesia de Orides Fontela se caracteriza pela brevidade e pela concisão, o que não implica dizer que a poeta não tenha se lançado em outras possibilidades de compor versos. Isso, em alguma medida, torna-se patente quando olhamos para sua produção que precede a publicação de seu primeiro livro, Transposição (1969). É possível também que Orides tenha, em algum momento, experimentado, grosso modo, as matrizes de composição vérsica da Geração de 45, a qual procurou retomar o rigor formal de determinadas formas tradicionais da lírica.
 
A partir disso, atenho-me a um soneto publicado pela poeta em 4/2/1965, quatro anos antes da publicação do conjunto de poemas que constituem sua primeira obra (acima mencionada). O poema, cujo incipit é “Olhos vertidos no desamparo extremo”, na Poesia completa (2015) de Orides, está localizado na obra Rosácea, a qual veio a público pela primeira vez em 1986 (a propósito, livro ganhador do Prêmio Jabuti daquele ano). Em linhas gerais, o poema comporta imagens que evocam, com efeito, o desamparo, como a extenuação da alma, a difícil caminhada pela vida, o silêncio, o abismo, as lágrimas advindas dum certo cansaço, o silêncio, a ausência de luz (ou da lucidez).

Isso posto, passo à disposição dos versos e, em seguida, a uma breve análise interpretativa do poema, por meio da qual procuro fazer apontamentos focando, além dos elementos formais, as noções de tragicidade e de desespero humano.

Olhos vertidos no desamparo extremo
 
Olhos vertidos no desamparo extremo
o ser se exaure. Céu de desamparo.
Olhos concisos de ser. Nem mais as lágrimas
mas ser exato, em nítido cansaço
 
vertido, extremo e puro, no silêncio
do maior desamparo se exaurindo.
Chama despida, extremo ser. Nem forma
nem instante o contém. Lúcido abismo.
 
Noite abstrata do desamparo extremo
em que o ser se desnuda, exato, nítido!
Que morte é mais vital, que a extrema chaga
 
do ser: silêncio em desamparo se abrindo?
Céu extremo de ser, a chama exausta
sua própria luz consome, e vai florindo
(Fontela, 2015 [1965], p. 297).

Em “Olhos vertidos no desamparo extremo”, temos um soneto que, embora resgate a forma clássica, apresenta um ritmo de versos oscilante entre decassílabos e hendecassílabos. Seja dito de passagem, não se trata de um único soneto entre um conjunto de textos dispostos de maneira múltipla e sem unidade de conjunto, isto é: no eixo “Antigos” de Rosácea, em que se encontra o poema em questão, há outros poemas que obedecem à mesma estrutura composicional destacada.

Retornando à oscilação, o poema apresenta 7 versos de 11 silabas e 7 versos com 10 sílabas. Essa divisão, por obviedade, alude à própria forma tradicional do soneto: 14 versos. E, apesar de não serem intercalados, a constituição desses versos remete a uma concepção de equilíbrio que se fissura em meio à leitura do poema. E tal contraposição não se manifesta tão somente no aspecto formal, o que aponta, de imediato, para seu espraiamento no eixo da articulação textual. A esse respeito, na última estrofe do soneto, temos que o “Céu extremo de ser”, ao mesmo tempo em que “sua própria luz consome”, realiza em forma contrária o florescer (“vai florindo”).

Assim, o fenecimento do sujeito é, também, movimento de germinação, processo dialético que exprime discursivamente a quebra e a retomada do equilíbrio possibilitado pela forma. Há por parte do eu lírico, em sua forma de encarar a vida, uma “consciência desesperada”. Nela, o sujeito se posta, como propôs Kierkegaard, frente à angústia do existir. E na tentativa de anular a morte, advém a apaziguadora condição de imaginar uma possível germinação posterior. A condição desalentada atrelada ao caminhar em direção à morte se acalma por meio do entendimento de que a “Noite abstrata do desamparo extremo” é o espaço em que “o ser se desnuda, exato, nítido!”.

Sob uma atmosfera trágica, o poema se vai orientando pela ideia de angústia: tragicidade da vida. O jogo entre 10 e 11 sílabas deixa ver uma luta entre o alcance do ser (10 versos) e seu deslimite (11 sílabas) – delineado num sujeito que ultrapassa seus extremos a fim de entender poeticamente o incontornável final desse “ser em desamparo”, que precisa suportar a tortuosa caminhada, a “extrema chaga”.

O embate, representado graficamente pela oscilação de versos e explícito semanticamente pela aura angustiada que se fecha em chave de ouro, é o causador de um conflito – agora interno ao ser – que destroça o humano, colocando-o em um impasse entre entender a vida e aceitar a morte. Impasse exasperado, pois que perene, não passível de resolução. Eis mais um catalisador do estado de angústia.

Assim, se na ideação trágica a angústia era inerente à experiência humana frente às realidades social e psíquica, no poema de Orides, ela agora está vertida para um desamparo nascido dentro do eu, um desespero extremo que divide o sujeito entre entender o viver e aceitar o morrer.

Além dessa expressão trágica promovida pelo entrelaçar de expressão e conteúdo, há, ademais, algumas questões postas que se vão elucidando no processo de leitura. Comecemos a ler as estrofes em modo de inversão: da última estrofe em direção à primeira… Exceto o segundo quarteto, todos os blocos de versos encerram-se com o uso de enjambements. O recurso, para além da continuidade, garante a tensão do poema e sinaliza um processo de transbordamento, ou seja, eleva o aspecto de desolação que permeia o texto e o faz ultrapassar versos que já não são capazes de contê-lo.

A última estrofe apresenta um eu poético erguendo-se, ao que parece, de destroços íntimos, mas caminhando com a lucidez de que, apesar de haver o fluir da vida (tematizada pelo sol), sempre haverá a transfiguração desse brilho para a “chama exausta” (verso 13) – uma vez que o existir estará em contínuo desamparo, desespero, solidão. Embora na estrofe ganhe lugar de destaque imagens relativas à vivacidade, girando à volta do sol, a condição vertida/vergada do sujeito poético coloca em segundo plano a possibilidade de leveza que os tons de claridade possam evocar.

Nos versos da terceira estrofe, organizados em torno da morte, deparamos com uma outra apreensão da voz lírica que ratifica a anterior: o desaparecimento, o fenecimento do eu é o que confere ao ser a nitidez, a exatidão que não se encontra enquanto se permanece vivo. Daí ser dito: “[…] o ser se desnuda, exato, nítido!/ Que morte é mais vital, que a extrema chaga// do ser: silêncio em desamparo se abrindo?” (versos 10-12). Entrevemos, mediante esses versos, que o trágico está intrinsecamente relacionado às faces do humano, pois este é mutável, inacabado em alma e corpo.

Na segunda estrofe, o “lúcido abismo” (verso 8) de que fala a voz lírica está na forma do silêncio. Apresenta-se, portanto, em uma posição de desamparo e morte. A ausência de verbo é um caminho que facilita o aspecto de exatidão e exaustão do ser, como se faz ver em todo o poema. Ou melhor, pelo que a voz poética tenta nos mostrar ao longo da reflexão recalcitrante da qual é alvo. Uma reflexão que desemboca “[…] em nítido cansaço// vertido, extremo e puro, no silêncio/ do maior desamparo se exaurindo” (versos 4-6).

As estrofes, altamente imagéticas e repletas de espaços por completar, ressaltam o valor que o silêncio tem na poesia de Orides Fontela. A respeito disso, em texto intitulado A construção do silêncio: um estudo da obra poética de Orides Fontela (2003), o professor Alexandre Rodrigues da Costa aponta:

Para aquele que escreve, o silêncio surge como desvio da meta programada. Para todo lado que se olhe, lá está ele, oferecendo a liberdade, a opção de não se arriscar no inferno paradisíaco que é a escrita. Ao encarar o silêncio, calamo-nos ou o transformarmos em fala. Mas esse transformar não implica o desaparecimento total do silêncio, pois para que a fala exista, ela precisa de pausas, daquilo que faça com que ela não seja um turbilhão de palavras, algo sem sentido. Dessa forma, o silêncio afirma sua presença na fala, ao apagar cada palavra, cada imagem, deixando um espaço aberto no qual algo logo se projetará. No entanto, esse é o silêncio visto a partir do entendimento comum. No poema, ele adquire um outro significado, talvez mais amplo, que coloca o sujeito frente à sua própria existência. Para Orides Fontela, a palavra cumpre sua existência a partir do silêncio que lhe define os limites, onde a insuficiência é sua própria matéria e a morte torna-se desejo de impessoalidade, fuga da consciência, ato de desumanização (Costa, 2003, p. 68).

A partir do excerto, evidencia-se o espaço que o silêncio reclama para si na obra de Orides. Ao mesmo tempo em que é obstáculo, é ponte que facilita a compreensão de marcas do ser e do que o envolve na temporalidade e na espacialidade. Ele é, portanto, assim como a poesia, ambivalente. Os campos brancos do poema validam o sentido do dito, reinflamam, pela mescla entre nada e palavra, a validação dessa “consciência desesperada” expressa pelo eu lírico – traduzida pela clarividência com que o ser se vê e toma ciência do seu pulsar: “lúcido abismo” (verso 8).

A par disso, a voz do poema, na primeira estrofe, firma e reafirma o desamparo. Essa paixão se faz apreender pelos olhos, pelas lágrimas e pela exaustão (versos 1, 3 e 4). O ser está sem apoio (mas do quê ou de quem?). Ele também compreende que há uma queda desoladora em sua caminhada solitária – como se o sentimento heroico, que guia o humano nas veredas da vida, estivesse esmorecendo a cada instante. Numa gradação que está entre a ascendência e a decadência, ele se estabelece: primeiro exato (se entende), depois nítido (compreende) e, por fim, nu (entra na rota da finitude).

Perscrutados os paradigmas trágicos e desesperados do ser, o poema se sustenta na antinomia que, em síntese, é apreensível tão somente pela poesia. Em outros termos, a poética de Orides Fontela é um espaço habitado pelo ser – espaço no qual o eu lírico se “acomoda” de forma incomodada em sua existência. No entanto, esse habitar poeticamente não é apenas permanecer, mas, antes, indicador da busca por uma compreensão da existência humana de forma angustiante. Catalisado de forma particular, o poema se abre ao universal de modo a expressar as maneiras existenciais de todo ser de maneira disfarçadamente individualizada.

O poema de Orides, enfim, e uma vez ainda, expressa uma atitude na qual “a consciência desesperada lança contra o indivíduo aquilo que nele acredita-se refratário, indestrutível: o eu. Desespera, pois, de si próprio” (Souza, 2020, p. 110). Dentro desse universo, Souza apontará quais as consequências dessa consciência desesperada que, apesar de pensar o universo de Antero de Quental, se encaixam no universo oridiano: “o mal não termina por destruí-lo, é uma tortura sem fim, não pode libertar-se de si. Assim é o desespero, a doença mortal do eu; o desespero é uma doença mortal […] sem jamais chegar a termo” (p. 110). Esses relevos caracterizam-se, portanto, como “uma perturbação, uma inquietação, uma desarmonia, um receio de algo que não sabe bem o que é, alguma coisa desconhecida ou que o próprio sujeito não ousa conhecer” (p. 110). Em suma, o ser caminha em constante desespero por saber-se vivo.

________________________________________________
Referências
 
COSTA, Alexandre Rodrigues da. A construção do silêncio: um estudo da obra poética de Orides Fontela. Dissertação de Mestrado. FALE-UFMG: Belo Horizonte, 2003.
FONTELA, Orides. Olhos vertidos no desamparo extremo. In: FONTELA, Orides. Poesia completa[Rosácea]. Org. Luis Dolhnikoff. São Paulo: Hedra, 2015.
KIERKEGAARD, Søren. O desespero humano: doença até a morte. Trad. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Editora Unesp, 2010. 
SOUZA, Ayanne Larissa Almeida de. Tragicidade dialética na poética de Antero de Quental. Tese de Doutorado. PPGLI-UEPB: Campina Grande/Paraíba, 2020.
SZONDI, Peter. Ensaio sobre o trágico. Trad. Pedro Süsseking. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.




Eduardo de Lima é mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Crítico literário, pesquisador de poesia e dramartugia, revisor e editor de textos de periódicos acadêmicos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *