
Imagem extraída do DepositPhotos
Nada se move na casa.
Nem no quarto minguante
nem no quarto crescente
no corredor da morte
nem no saloon.
Nada se move
além dos peixes vermelhos entre parênteses no aquário.
Mas a nota magrinha faz plim!
a nota oblonga faz blom!
abrem-se as janelas!
Com um tiro azul
dois amarelos
e um último – laranja – dados pelo canhão que defende a cidade
o jardim se torna lilás e os copos-de-leite mais alvos.
O povo se junta à beira do lago
lá fora
para me prestar homenagens pelos poemas que fiz.
Primeiro
de barba verde e sem faca
o marchante me oferece um bezerro
visível dentro da vaca.
Cheia de pólens
corolas
pistilos ( com escaravelhos verdes – ou azuis
conforme as curvas que fazem
na luz)
mulheres me oferecem laranjas
sem destacá-las dos talos dos laranjais!
Marx – deixando de lado a pose de bruto – desce do pedestal e me dedica um
charuto.
Como clímax de um jogo
estala os dedos de pedra e me oferece
o fogo.
O céu então fica lívido e a Terra
outro planeta!
O Sol cruza o espaço
anoitece
amanhece
cruza o espaço
anoitece
amanhece
roxo
lilás!
Giram sombras em tomo de meu corpo como se fossem laços
relinchas ferozes me assustam
e
mais ainda
as ferraduras dos cavalos
que se alternam com seus joelhos
no ar.
Sobem nuvens pegando fogo
do lago
a terra treme e sacode
e é o céu que baixa tumefato
e que explode!
Fujo pra casa e me fecho
mas a escada em caracol desce em piruetas para os porões
sobe em espirais para o sótão
até que
de medo
para.
Olho pela janela o povo que vai correndo na ponte que se estira até o
mistério do cemitério e depois recua
vazia!
Pronto!:
a nota oblonga faz blóm!
a nota magrinha faz plim!
Desperto
e quase que esquecido de tudo
fico deitado
amolecido
em silêncio
vendo que o tempo passa e – pelo silêncio – que nada se move na praça.
Nem no quarto maior
nem no quarto menor
nem dentro de aquário
nem no salão.
Só percebo
com vaga amargura
que nenhuma esperança mais me alimenta.
Suspeito de minha sorte.
Parece-me que mesmo parado me movo
em câmara lenta
no corredor da morte.
Nada se move na casa.
Nem no quarto minguante
nem no quarto crescente
no corredor da morte
nem no saloon.
Nada se move
além dos peixes vermelhos entre parênteses no aquário.
Mas a nota magrinha faz plim!
a nota oblonga faz blom!
abrem-se as janelas!
Com um tiro azul
dois amarelos
e um último – laranja – dados pelo canhão que defende a cidade
o jardim se torna lilás e os copos-de-leite mais alvos.
O povo se junta à beira do lago
lá fora
para me prestar homenagens pelos poemas que fiz.
Primeiro
de barba verde e sem faca
o marchante me oferece um bezerro
visível dentro da vaca.
Cheia de pólens
corolas
pistilos ( com escaravelhos verdes – ou azuis
conforme as curvas que fazem
na luz)
mulheres me oferecem laranjas
sem destacá-las dos talos dos laranjais!
Marx – deixando de lado a pose de bruto – desce do pedestal e me dedica um
charuto.
Como clímax de um jogo
estala os dedos de pedra e me oferece
o fogo.
O céu então fica lívido e a Terra
outro planeta!
O Sol cruza o espaço
anoitece
amanhece
cruza o espaço
anoitece
amanhece
roxo
lilás!
Giram sombras em tomo de meu corpo como se fossem laços
relinchas ferozes me assustam
e
mais ainda
as ferraduras dos cavalos
que se alternam com seus joelhos
no ar.
Sobem nuvens pegando fogo
do lago
a terra treme e sacode
e é o céu que baixa tumefato
e que explode!
Fujo pra casa e me fecho
mas a escada em caracol desce em piruetas para os porões
sobe em espirais para o sótão
até que
de medo
para.
Olho pela janela o povo que vai correndo na ponte que se estira até o
mistério do cemitério e depois recua
vazia!
Pronto!:
a nota oblonga faz blóm!
a nota magrinha faz plim!
Desperto
e quase que esquecido de tudo
fico deitado
amolecido
em silêncio
vendo que o tempo passa e – pelo silêncio – que nada se move na praça.
Nem no quarto maior
nem no quarto menor
nem dentro de aquário
nem no salão.
Só percebo
com vaga amargura
que nenhuma esperança mais me alimenta.
Suspeito de minha sorte.
Parece-me que mesmo parado me movo
em câmara lenta
no corredor da morte.

W. J. Solha (Sorocaba, SP, 1941; vive em João Pessoa) é poeta, romancista, contista, dramaturgo, letrista, artista plástico, pintor e ator. Ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante do Festival de Cinema de Porto Alegre, em 2013, pela atuação em O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. Como escritor, conquistou diversos prêmios, entre eles o Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, em 1974, com sua estreia, o romance Israel Rêmora ou o sacrifício das fêmeas; o João Cabral de Melo Neto, da UBE-Rio, em 2005, com Trigal com corvos, seu primeiro poema longo, fruto de dez anos de trabalho; o Instituto Nacional do Livro (INL), em 1988, com o romance A batalha de Oliveiros, e a Bolsa de Incentivo à Criação Literária da Funarte, em 2007, para escrever Relato de Prócula, depois laureado com o Prêmio Graciliano Ramos. O monumental História Universal da Angústia, contos, foi finalista do Jabuti em 2006.