Do livro ‘Apenas memórias’ – crônica ‘Teresina: década de 1950’, de Cunha e Silva Filho




    Fonte: imagem extraída do pexels-photo




Tinha aproximadamente cinco anos quando entrei por uma velha porta de um corredor assombrado. Entrei correndo e saí da mesma forma correndo quando me choquei com uma mulher de idade difusa. Com o choque, derrubei a mulher que estava no meu caminho.

       Como era pequeno, passei praticamente por entre as pernas dela. Ouvi palavras grosseiras ou, como disse um gramático tradicional, intraduzíveis na linguagem educada. Naquele tempo, morava numa casa que ficava   depois do Liceu Piauiense.
 
       Em tempo muito quente, o chamado   calorão de Teresina, minha mãe costumava visitar uma tia, a Lolosa, que morava numa das ruas   por detrás do Liceu Piauiense, um pouco mais  distante do que a nossa casa. Naquela época, eu, bem pequeno, costumava  voltar para casa sem a roupa,  andando  como vim  ao mundo
 
       Em Teresina, mamãe tinha dado à luz um filho, o Ariosto. Irmão meio calado, moreno, estatura baixa. Licenciado em geografia. Lecionou na rede pública por um tempo –  atividade que largaria para dedicar-se à área de transporte. Não suportou os baixos salários de professor.
 
       Em seguida, nasceria o Emílio Carlos, saudoso irmão, poeta e pintor,  amante das artes, bonito, de estatura  baixa, de rosto meio  quadrado, à Alain Delon.  Sempre que cortava o cabelo  meio curto,  ficava mais  bonito.
 
       Viveu  intensamente e sofreu  muito. Um dia me  ofereceu um  quadro de pintura,  que  perdi. Quanta saudade! Quanta vontade, agora,  de lhe dizer coisas que lhe agradassem  ao corpo e  ao espírito e me restituíssem a paz interior! Quanta mágoa  sinto por não lhe ter sido o irmão ideal! Diria, neste instante, lhe pedindo perdão: Ó, meu irmão Emílio, por que aquele medo meu,  aquele receio sem fundamento?
 
       Com os anos ainda  nasceriam: Maria Cândida,  Nilva,  Astrid, Nélio e  João Ricardo. O primogênito, Lincoln faleceu  bebê, em Amarante. Uma foto dele  morto vi em Amarante. A foto pertence a um álbum  da família do tio Enoch, irmão de papai e do tio Luisinho. Noutra foto do mesmo álbum,  vi mamãe,  muito nova,   com a cabeça inclinada e decerto chorando, sentada junto ao féretro do bebê, que  estava sendo  velado. Morreu ainda bebê minha irmã  Eneida, quando minha família morava na Rua 24 de Janeiro, zona norte de Teresina. Já adultos  faleceram o Emilio, o Nélio e o Evandro, os dois primeiros  bem jovens, o  terceiro já maduro.
     
       Se todos fossem vivos,  seríamos  treze. Evandro era o mais próximo de mim, aquele com  quem mais me identifiquei e com quem  mais  conversava na infância e para ele costumava contar estórias lidas em livros. Ele  as ouvia com  toda  atenção. Houve tempo em que, talvez por influência do Winston, eu gostava de desenhar figuras humanas. Uma, vez desenhei a lápis o  Evandro. O desenho estava bem parecido com ele. Outra vez, desenhei, copiado de um livro de história do Brasil, o retrato de Dom João VI. Havia, entretanto,  um problema. Os meus desenhos melhores foram aqueles onde as pessoas inventadas  estavam de perfil. De frente, me era bem mais  difícil, exceto se o fizesse copiado de um  retrato ou ilustração. 
 
       Quando saí de Teresina, Astrid,  Nélio e João Ricardo eram todos pequenos. Astrid  fez medicina, assim como Nélio. João Ricardo  fez licenciatura em química. Maria Cândida se tornou dona de casa e Nilva fez igualmente  química, porém não seguiu a carreira do magistério. Entrou para  o Tribunal de  Justiça.  
 
       Evandro fez direito. Advogou por algum tempo e, em seguida, foi aprovado em concurso  para fiscal do Ministério do Trabalho. Tinha também a vocação para o jornalismo, poesia, ficção. Deixou artigos, poemas e  crônicas  publicados em jornais de Teresina. Era muito lido e   era dotado de uma inteligência  aguçada, sobretudo para os problemas  políticos, históricos   e sociais. Durante o curso de direito, foi preso pela ditadura. Espírito inquieto,   irônico, ferino,   brincalhão, cético. Fundou revista em Teresina. Se tivesse se dedicado com mais afinco à literatura, poderia ter  tido  sucesso nessa área.
           
       Papai, bem moço ainda,  depois  da árdua jornada  de trabalho nos colégios, ia fazer algumas tarefas  domésticas. Por exemplo,  encher os potes d’água e outros afazeres  mais pesados, uma vez que  não  tinha uma empregada para o  dia todo e que dormisse em casa. Só de dia  havia alguém  para  cuidar  do almoço da família e do preparo da galinha   guisada, de sabor  delicioso, sem tempero e com pirão para a minha  mãe de resguardo. Todos os irmãos  queriam provar um pouco  da galinha e do pirão. Ainda morávamos  perto do Liceu Piauiense.
      
        Estava lá fora de casa, não muito afastado. No momento estava tentando brincar com um jumento de rua. Lhe puxei o rabo uma vez, duas vezes.  Na terceira vez,  de repente levei um coice da alimária que me deixou   tonto,  quase caindo. A dor era aguda e de imediato  voltei  para casa  chorando  e  procurando  por minha mãe.
 
       Era  uma zona rural, onde se podiam ver tratores,  jeeps e pessoas. Estava com meu  pai e dois  irmãos maiores. O lugar era bonito, talvez uma fazenda (como não tenho certeza, vou considerá-la assim) para onde   foram  a passeio   meu  pai  e alguns  amigos. Me  aproximei de um carro  em movimento.  O carro, um jeep americano, de repente parou. Fiquei de olho no carro.
 
       Estava parado no descampado por onde passam  carros e pessoas. Avancei em direção  ao carro. Por ser pequeno,  não pude ser visto pelo  motorista, que resolveu dar uma marcha a  ré logo no momento em que desejei subir por detrás do veículo. Minha testa  levou  uma pancada forte  que me derrubou. Gritos de toda a parte   foram ouvidos. O motorista deu  uma freada, mas eu já estava estendido no chão quente de um calor  tropical.
 
       Um homem me colocou  nos braços e me levou  para dentro da casa da fazenda. Me colocaram  um pedaço de  gelo na testa, que continuava doendo e ficara inchada. Meu pai, meus irmãos  ficaram  atônitos,  preocupados, sem saber o que fazer. Seus colegas   pediam  calma. Não tinha sido  coisa  tão séria a ponto de se verem obrigados a me levarem  a um hospital.
 
       Estava tudo combinado. Meus amiguinhos de infância e eu    iríamos  à Praça Pedro II, no centro de Teresina, pedir esmola só de brincadeira. Assim o fizemos. Ficamos  parados num canto de uma esquina e começamos  a desempenhar  o papel de “mendigos’ pedindo  moedas  por amor de Deus.
 
       Meu pai recebeu uma visita de um conhecido. Apresentou  os filhos  àquele senhor ainda  novo. “Este se chama fulano, este beltrano, este  sicrano e assim  sucessivamente. O visitante ficou  calado olhando para cada uma das crianças e começou a fazer elogios “Esta é bonita,  esta também,” até chegar a vez  em que iria se dirigir a mim: “Esta  é feia.” Sem  vacilar,  na velocidade de um  raio,  dei  um  tapa na cara do visitante,  o qual   nunca –  era de se supor -, esperaria  tal reação. Constrangimento geral. Meu pai não sabia onde meter a cara de tanta vergonha. O visitante, idem.
 
       Uma vez, saindo de casa,  todo bem vestido, com uma camisa  de  jérsei  usada pela primeira vez, encontrei   pela frente um colega  da vizinhança. O fato ocorreu na Rua  24 de Janeiro, onde então  morava.
 
       Com ele  conversei por alguns  instantes e, inopinadamente, o colega acertou-me  um   bofete na cara. O colega,  da mesma idade, ou talvez mais velho um ano do que eu, era bem mais forte e mais alto. Sua mãe era de ascendência alemã ou americana,  não me lembro  direito. Nunca  soube por que  razão aquele colega tinha feito aquilo. Fora um absurdo. Uma covardia, pensei.
 
       Os coleguinhas na vizinhança da Rua 24 de Janeiro e eu (inclusive o que me  deu um murro  na cara),  resolvemos  “brigar” ou “atacar”  os meninos da Rua  Olavo Bilac, justamente a rua onde  então  morava meu  saudoso  tio Luisinho,  marido de minha tia  Lolosa,  pessoas queridas que guardo   no coração.
 
       Não sei bem o motivo de os meninos da zona norte desejarem  “guerrear” com os da zona  sul naquela  faixa  territorial  da Olavo Bilac  esquina com  Arlindo Nogueira. Sei, todavia,  que parte do plano foi  meu e de meu  irmão Winston, parte, a meu  ver,  se deve  à imaginação  infantil  por  influência do cinema americano,   do gênero “soldado contra índios,”  tantos vezes visto nas telas do Theatro  e do Rex. Marcamos o dia da semana para o confronto. Arma de brinquedo não havia, só contávamos com a fantasia  e lá fomos  “atacar” os meninos da Rua  Olavo  Bilac. 
 
       Dessa maneira, acorreram  os meninos da zona  norte em direção  à zona sul. Não sei quantos meninos  havia no grupo deslocado   para aquela rua. Chegamos lá de tardezinha, passamos  pela Olavo Bilac, sobretudo  visando aos meninos moradores  das ruas vizinhas, inclusive achávamos que nem os meus primos, que ali moravam,  se livrariam dos nossos  “ataques.”
 
       A imaginação infantil foi bem superior à realidade, pois nenhum  menino-adversário  encontramos na nossa passagem no dia marcado para o “combate.” A luta dos guerreiros-mirins só existia efetivamente  no universo mágico da infância,  tão bem  definido como a “idade de ouro.” Nesse paraíso  da infância houve, sim, a batalha  campal, o enfrentamentos  do  lutadores,   do herói que havia  em cada um de nós com  os nossos  sonhos e aventuras bélicas  no reino do faz-de-conta, ludismo  puro e  inocente.
    
         
       Estavam armando um  circo improvisado num  terreno baldio, perto da  minha  casa ainda na Rua  24 de Janeiro. Eram todos colegas, um deles era meu primo  Wellington, mais velho do que eu. Dele ainda voltarei a falar outras vezes nestas  relembranças.
 
       Íamos   brincar de circo naquele lugar, bem perto do confortável  prédio de dois andares do menino que  havia  batido em mim sem motivo  algum. Estávamos todos  alegres com o que montávamos.
 
       Wellington, meu primo, procurava  fixar uma estaca alta no chão do  terreno. Eu olhava   para o que  o primo  estava fazendo e,  num dado  momento,  a estaca  caiu e foi  atingir  a parte  posterior da  minha cabeça. Era uma estaca grossa  e pesada. A dor foi  lancinante e da minha  cabeça começou a jorrar sangue, muito sangue.
 
       Voltei correndo para a casa procurando  mamãe. Esta,  aflita diante do sangue,  do jeito que estava,  me levou  a um médico  famoso  da cidade, o Dr. Ayres Neto, aparentado, caso  não esteja enganado, de papai, de uma família  de ilustres  médicos  de Amarante. O doutor cuidou dos ferimentos e prescreveu  uns remédios,  a par  de outras  recomendações feitas a  mamãe, assegurando-lhe que logo me recuperaria. Um grande médico. Hoje, ao colocar os dedos na parte posterior do couro cabeludo,  atingido pela estaca, percebo que essa parte ficou  mais funda.
 
                                    
 
 


Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996); Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional (Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124); Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009); As ideias no tempo (Teresina: APL/Senado Federal, 2010); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica); Contos selecionados de José Ribamar Garcia (Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2017). Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site Entretextos. Assina o Blog As ideias no tempo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União Brasileira de Escritores (UBE, seção Piauí). Cunha, desde 2017, escreve sobre Literatura, especialmente brasileira, também para a Revista Orizont Literar Contemporan, (OLC), Revista romena sediada em Bucareste, Romênia.

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