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Tinha aproximadamente cinco anos quando entrei por uma velha porta de um corredor assombrado. Entrei correndo e saí da mesma forma correndo quando me choquei com uma mulher de idade difusa. Com o choque, derrubei a mulher que estava no meu caminho.
Como era pequeno, passei praticamente por entre as pernas dela. Ouvi palavras grosseiras ou, como disse um gramático tradicional, intraduzíveis na linguagem educada. Naquele tempo, morava numa casa que ficava depois do Liceu Piauiense.
Em tempo muito quente, o chamado calorão de Teresina, minha mãe costumava visitar uma tia, a Lolosa, que morava numa das ruas por detrás do Liceu Piauiense, um pouco mais distante do que a nossa casa. Naquela época, eu, bem pequeno, costumava voltar para casa sem a roupa, andando como vim ao mundo
Em Teresina, mamãe tinha dado à luz um filho, o Ariosto. Irmão meio calado, moreno, estatura baixa. Licenciado em geografia. Lecionou na rede pública por um tempo – atividade que largaria para dedicar-se à área de transporte. Não suportou os baixos salários de professor.
Em seguida, nasceria o Emílio Carlos, saudoso irmão, poeta e pintor, amante das artes, bonito, de estatura baixa, de rosto meio quadrado, à Alain Delon. Sempre que cortava o cabelo meio curto, ficava mais bonito.
Viveu intensamente e sofreu muito. Um dia me ofereceu um quadro de pintura, que perdi. Quanta saudade! Quanta vontade, agora, de lhe dizer coisas que lhe agradassem ao corpo e ao espírito e me restituíssem a paz interior! Quanta mágoa sinto por não lhe ter sido o irmão ideal! Diria, neste instante, lhe pedindo perdão: Ó, meu irmão Emílio, por que aquele medo meu, aquele receio sem fundamento?
Com os anos ainda nasceriam: Maria Cândida, Nilva, Astrid, Nélio e João Ricardo. O primogênito, Lincoln faleceu bebê, em Amarante. Uma foto dele morto vi em Amarante. A foto pertence a um álbum da família do tio Enoch, irmão de papai e do tio Luisinho. Noutra foto do mesmo álbum, vi mamãe, muito nova, com a cabeça inclinada e decerto chorando, sentada junto ao féretro do bebê, que estava sendo velado. Morreu ainda bebê minha irmã Eneida, quando minha família morava na Rua 24 de Janeiro, zona norte de Teresina. Já adultos faleceram o Emilio, o Nélio e o Evandro, os dois primeiros bem jovens, o terceiro já maduro.
Se todos fossem vivos, seríamos treze. Evandro era o mais próximo de mim, aquele com quem mais me identifiquei e com quem mais conversava na infância e para ele costumava contar estórias lidas em livros. Ele as ouvia com toda atenção. Houve tempo em que, talvez por influência do Winston, eu gostava de desenhar figuras humanas. Uma, vez desenhei a lápis o Evandro. O desenho estava bem parecido com ele. Outra vez, desenhei, copiado de um livro de história do Brasil, o retrato de Dom João VI. Havia, entretanto, um problema. Os meus desenhos melhores foram aqueles onde as pessoas inventadas estavam de perfil. De frente, me era bem mais difícil, exceto se o fizesse copiado de um retrato ou ilustração.
Quando saí de Teresina, Astrid, Nélio e João Ricardo eram todos pequenos. Astrid fez medicina, assim como Nélio. João Ricardo fez licenciatura em química. Maria Cândida se tornou dona de casa e Nilva fez igualmente química, porém não seguiu a carreira do magistério. Entrou para o Tribunal de Justiça.
Evandro fez direito. Advogou por algum tempo e, em seguida, foi aprovado em concurso para fiscal do Ministério do Trabalho. Tinha também a vocação para o jornalismo, poesia, ficção. Deixou artigos, poemas e crônicas publicados em jornais de Teresina. Era muito lido e era dotado de uma inteligência aguçada, sobretudo para os problemas políticos, históricos e sociais. Durante o curso de direito, foi preso pela ditadura. Espírito inquieto, irônico, ferino, brincalhão, cético. Fundou revista em Teresina. Se tivesse se dedicado com mais afinco à literatura, poderia ter tido sucesso nessa área.
Papai, bem moço ainda, depois da árdua jornada de trabalho nos colégios, ia fazer algumas tarefas domésticas. Por exemplo, encher os potes d’água e outros afazeres mais pesados, uma vez que não tinha uma empregada para o dia todo e que dormisse em casa. Só de dia havia alguém para cuidar do almoço da família e do preparo da galinha guisada, de sabor delicioso, sem tempero e com pirão para a minha mãe de resguardo. Todos os irmãos queriam provar um pouco da galinha e do pirão. Ainda morávamos perto do Liceu Piauiense.
Estava lá fora de casa, não muito afastado. No momento estava tentando brincar com um jumento de rua. Lhe puxei o rabo uma vez, duas vezes. Na terceira vez, de repente levei um coice da alimária que me deixou tonto, quase caindo. A dor era aguda e de imediato voltei para casa chorando e procurando por minha mãe.
Era uma zona rural, onde se podiam ver tratores, jeeps e pessoas. Estava com meu pai e dois irmãos maiores. O lugar era bonito, talvez uma fazenda (como não tenho certeza, vou considerá-la assim) para onde foram a passeio meu pai e alguns amigos. Me aproximei de um carro em movimento. O carro, um jeep americano, de repente parou. Fiquei de olho no carro.
Estava parado no descampado por onde passam carros e pessoas. Avancei em direção ao carro. Por ser pequeno, não pude ser visto pelo motorista, que resolveu dar uma marcha a ré logo no momento em que desejei subir por detrás do veículo. Minha testa levou uma pancada forte que me derrubou. Gritos de toda a parte foram ouvidos. O motorista deu uma freada, mas eu já estava estendido no chão quente de um calor tropical.
Um homem me colocou nos braços e me levou para dentro da casa da fazenda. Me colocaram um pedaço de gelo na testa, que continuava doendo e ficara inchada. Meu pai, meus irmãos ficaram atônitos, preocupados, sem saber o que fazer. Seus colegas pediam calma. Não tinha sido coisa tão séria a ponto de se verem obrigados a me levarem a um hospital.
Estava tudo combinado. Meus amiguinhos de infância e eu iríamos à Praça Pedro II, no centro de Teresina, pedir esmola só de brincadeira. Assim o fizemos. Ficamos parados num canto de uma esquina e começamos a desempenhar o papel de “mendigos’ pedindo moedas por amor de Deus.
Meu pai recebeu uma visita de um conhecido. Apresentou os filhos àquele senhor ainda novo. “Este se chama fulano, este beltrano, este sicrano e assim sucessivamente. O visitante ficou calado olhando para cada uma das crianças e começou a fazer elogios “Esta é bonita, esta também,” até chegar a vez em que iria se dirigir a mim: “Esta é feia.” Sem vacilar, na velocidade de um raio, dei um tapa na cara do visitante, o qual nunca – era de se supor -, esperaria tal reação. Constrangimento geral. Meu pai não sabia onde meter a cara de tanta vergonha. O visitante, idem.
Uma vez, saindo de casa, todo bem vestido, com uma camisa de jérsei usada pela primeira vez, encontrei pela frente um colega da vizinhança. O fato ocorreu na Rua 24 de Janeiro, onde então morava.
Com ele conversei por alguns instantes e, inopinadamente, o colega acertou-me um bofete na cara. O colega, da mesma idade, ou talvez mais velho um ano do que eu, era bem mais forte e mais alto. Sua mãe era de ascendência alemã ou americana, não me lembro direito. Nunca soube por que razão aquele colega tinha feito aquilo. Fora um absurdo. Uma covardia, pensei.
Os coleguinhas na vizinhança da Rua 24 de Janeiro e eu (inclusive o que me deu um murro na cara), resolvemos “brigar” ou “atacar” os meninos da Rua Olavo Bilac, justamente a rua onde então morava meu saudoso tio Luisinho, marido de minha tia Lolosa, pessoas queridas que guardo no coração.
Não sei bem o motivo de os meninos da zona norte desejarem “guerrear” com os da zona sul naquela faixa territorial da Olavo Bilac esquina com Arlindo Nogueira. Sei, todavia, que parte do plano foi meu e de meu irmão Winston, parte, a meu ver, se deve à imaginação infantil por influência do cinema americano, do gênero “soldado contra índios,” tantos vezes visto nas telas do Theatro e do Rex. Marcamos o dia da semana para o confronto. Arma de brinquedo não havia, só contávamos com a fantasia e lá fomos “atacar” os meninos da Rua Olavo Bilac.
Dessa maneira, acorreram os meninos da zona norte em direção à zona sul. Não sei quantos meninos havia no grupo deslocado para aquela rua. Chegamos lá de tardezinha, passamos pela Olavo Bilac, sobretudo visando aos meninos moradores das ruas vizinhas, inclusive achávamos que nem os meus primos, que ali moravam, se livrariam dos nossos “ataques.”
A imaginação infantil foi bem superior à realidade, pois nenhum menino-adversário encontramos na nossa passagem no dia marcado para o “combate.” A luta dos guerreiros-mirins só existia efetivamente no universo mágico da infância, tão bem definido como a “idade de ouro.” Nesse paraíso da infância houve, sim, a batalha campal, o enfrentamentos do lutadores, do herói que havia em cada um de nós com os nossos sonhos e aventuras bélicas no reino do faz-de-conta, ludismo puro e inocente.
Estavam armando um circo improvisado num terreno baldio, perto da minha casa ainda na Rua 24 de Janeiro. Eram todos colegas, um deles era meu primo Wellington, mais velho do que eu. Dele ainda voltarei a falar outras vezes nestas relembranças.
Íamos brincar de circo naquele lugar, bem perto do confortável prédio de dois andares do menino que havia batido em mim sem motivo algum. Estávamos todos alegres com o que montávamos.
Wellington, meu primo, procurava fixar uma estaca alta no chão do terreno. Eu olhava para o que o primo estava fazendo e, num dado momento, a estaca caiu e foi atingir a parte posterior da minha cabeça. Era uma estaca grossa e pesada. A dor foi lancinante e da minha cabeça começou a jorrar sangue, muito sangue.
Voltei correndo para a casa procurando mamãe. Esta, aflita diante do sangue, do jeito que estava, me levou a um médico famoso da cidade, o Dr. Ayres Neto, aparentado, caso não esteja enganado, de papai, de uma família de ilustres médicos de Amarante. O doutor cuidou dos ferimentos e prescreveu uns remédios, a par de outras recomendações feitas a mamãe, assegurando-lhe que logo me recuperaria. Um grande médico. Hoje, ao colocar os dedos na parte posterior do couro cabeludo, atingido pela estaca, percebo que essa parte ficou mais funda.

Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996); Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional (Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124); Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009); As ideias no tempo (Teresina: APL/Senado Federal, 2010); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica); Contos selecionados de José Ribamar Garcia (Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2017). Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site Entretextos. Assina o Blog As ideias no tempo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União Brasileira de Escritores (UBE, seção Piauí). Cunha, desde 2017, escreve sobre Literatura, especialmente brasileira, também para a Revista Orizont Literar Contemporan, (OLC), Revista romena sediada em Bucareste, Romênia.