Coluna Guido Viaro: A crônica no espelho

Imagem gerada por IA


Essa é a primeira crônica que escrevo, e para homenagear o gênero, e também alguns de seus grandes autores, decidi que o assunto dela será: a crônica. Isso mesmo, um espelho refletindo imagens, senão até o infinito, pelo menos até uma distância suficiente para mostrar nossa pequeneza, e as grandes possibilidades da palavra quando o assunto é falar do imenso que está contido no minúsculo.

No olhar entristecido de um passarinho engaiolado está simbolizada toda a condição humana. Se a gaiola do pássaro estiver pendurada em uma varanda de onde as cores do nascimento e morte do sol, diariamente banham a figura esquálida encerrada em sua prisão, adicionando novas tonalidades ao seu olhar, então podemos dizer que, não apenas a condição humana, mas toda a realidade universal cabe dentro daquela descrição.

Mas será que a crônica é isso? Uma tentativa de resposta? Uma investigação científica destinada a provar que o todo está contido em cada uma de suas ínfimas fatias? A resposta é evidente, e ressoa com a energia nasal dos muito convictos: NÃO. Crônica não é ciência ou filosofia. Ela não existe para que cheguemos à conclusões, e se isso eventualmente acontecer, a culpa não é dela, mas nossa.    
                                               
Talvez a crônica exista justamente para provar que nem tudo cabe em gavetas etiquetadas. A vida faz com que muita coisa nunca se encaixe em nada, e flutue sem função, sobre águas, que não são oceano, rio, lago, poça, ou qualquer outra forma de acumulo de líquidos conhecida e constando em dicionário. E essas coisas que citei, e que flutuam, atendem pelos nomes de situações, animais, pessoas, acontecimentos e também um monte de outros que nunca foram catalogados.

Se podemos então afirmar algo de concreto sobre a crônica, é que ela fundamentalmente se opõe ao concreto. Muitas vezes os pilares que as sustentam são feitos dos matérias mais perecíveis que existem. Assim como moscas, nascidas para durarem setenta e duas horas e depois desaparecerem, as crônicas brotam para então mergulharem dentro do fosso escuro do esquecimento.

Mas como explicar aquelas que, há décadas ou até séculos nos encantam e reconstroem o instante fugaz vivido? Rubem Braga, Cony, Machado, João do Rio, Dumas, e tantos outros. Talvez eles tenham compreendido que a eternidade seja parente do amor, e que quanto mais a buscamos mais distante de nós ela ficará. Eles descobriram as próprias mortalidades, e nada fizeram para tentar revertê-las.

Ou melhor, talvez tenham tentado algo sim: rirem de si mesmos.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *