
Imagem extraída do Pinterest
Contava eu 13 anos de idade. Apesar de ainda caber nas incompreensões de menino, acomodava em mim uma criatura vibrante de nome Vânia, a chefe de turma. Havia nela força nas indefinições, e a forma exclusiva de viver seus também 13 anos emprestava ao rosto um ar de procura. Talvez de tão exaustiva a submissão das colegas ao cogitar o valor de uma “líder de turma” numa escola quase apenas de meninos. Parecia sempre pronta para o livre-arbítrio: seu ser o tempo inteiro, mesmo quando cedia.
Eu escondia com bravura meu apreço por Vânia e ela, com seu gênio de recruta na guarita, me olhava com uma largueza de alma que me desprotegia diante de meus amigos. Uma solidão coletiva nos percorria; nós, os machos sozinhos, quando a mocinha passava sem aderir a nada.
— Vamos passear.
— Agora?!
— Que maçada!
— Desculpa.
— Menos!
Aos poucos, fomos encurtando distâncias entre nossos diferentes mundos. Ela parecia ter tantos mundos. Sua simpatia insubordinada me fazia conceber timidamente a vontade ainda humilhante de ter amigas.
Uma vez, sem ter resolvido nada, passeei com ela no pátio cheio, feito quem se perde por cumprir um alívio. A jovenzinha, que antes não demonstrava esconder segredos, falava de nomes de livros nunca lidos, do horror de sentir-se sozinha quando os professores nada tinham a lhe perguntar, da vontade de experimentar os intervalos entre meninos e meninas. Eu anotava tudo e aproveitava, sem dar por isso, meu ser espreguiçando-se ao infinito de uma adolescência sem apelidos. De repente, os corredores estreitos, os muros carcomidos, as escadas com seus corrimões oxidados, tudo tão claro e difícil. O barulho do pátio trancava as salas vazias.
Era assim encará-la sem nada dar em troca. Por outro lado, a moça não precisava estar ausente quando fugir era bom. Ela vinha até a mim porque procurava, procurava… o quê? Ia saber depois, distraída. A “trama masculina” pouco e pouco foi integrando o seu sentido. Afinal, nós, os pequenos gafanhotos, nos esforçávamos para o que já éramos capazes: os sonhos tornados maiores quando realizados. As ilusões agora resistiam às consumações dos adultos cada vez mais adultos (como retratos na parede) nos jazidos da pedagógica marcha dos dias. A única voz feminina percorria as fendas de uma criancice não alcançada, contida a algum canto negligenciado por nossos responsáveis. Alguns dos colegas já me olhavam traídos e curiosos com minha nova alegria —tentavam a capacidade de recusar qualquer começo evitável, a ênfase no poder da escolha ao ganhar Vânia.
— Uns molecotes, informava ela tentando correr algum perigo.
Caímos a passear por toda a escola, mas ainda me pesava resquícios de medo e de humilhação… A gente se olhava e, nesse momento, os colegas cobiçavam meu perigo de não estar verdadeiramente sozinho. Recuar do mundo de rapazes e de moças pouco representava ter perdido uma palavra de ordem. Aos poucos, nas recreações, eu inaugurava o distanciamento das seculares garantias de casa.
Não saber o que viria depois me fazia urgente, ocasional. A moça não conhecia a fonte em que bebia, e essa ignorância saciava. Éramos quatro molecotes, como dizíamos, “manos”, de um sério piegas, a salvos, e ela desprezava, por um momento, a religião da juventude. O grêmio estudantil, a reunião de pais e mestres, o hino nacional no pátio, as hortas comunitárias, tudo me fazia a salvo e sem chances. “Preciso engrossar mais a voz”, pensava acovardado pelo bigode aparecendo. “Sou mais alto do que ela!” continuava. “Ridícula”, meditava friamente, para sentir-me bem sozinho; a boca fechada em desafio a esmo.
— Mazinho, Edimilson e Adriano, uns criançolas — sentenciava, filosófica e acolhedora.
Não descrevia minha alma; seu olhar luzia entre o neutro e o intimidador. Sem classificação, eu recebia daqueles olhos negros e fortes o involuntário perdão por não haver nada o que fazer por mim. Os companheiros ainda vulgares e… e eu?! Talvez ainda estranhasse o erro, e a estranheza viesse errada e fechasse, assim, o horizonte de não sabê-la. Talvez o inclassificável fosse o fascínio da mocinha tão vítima da generosidade triste das colegas. Quem sabe ela buscasse a falta de opinião, para haver contato de um só trago, afinidade feliz o bastante para um dia deixar de existir.
A amizade foi crescendo como deveria ser. Meu grupinho já não via na idade apenas um cálculo matemático, mas uma longa abertura em que rapazes e moças entranhavam, desajeitados, a adolescência.

G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), os de poesias Depois das horas (2021), Gestos do nada (Litteralux, 2026) e O direito à imagem (no prelo).