3 poemas de Fiore Esaú Ferrari




    Fonte: imagem extraída do Etsy




o caminho dos refugiados

 
colha dos seixos
esse contorno antigo
do oceano
a voz imprecisa
dos que morreram
em naufrágios
o mar abrupto
o mar abrupto
e a gente
se encontra num café
como se fizesse
um tipo de aliança
com o vento de outono
cortando os prédios
do domingo
 
são paulo beira o colapso
faz tempo
 
máscaras esgotam a possibilidade
dos sorrisos
é preciso enxergar os olhos
ver seu aperto ou sua oblonga expressão
 
de memória
resgatar o que foi a distorção da face
quando lágrima
 
lembrar-se de itapetininga
que fez uma cidade na gente
quando a morte não chegava
 
qualquer coisa aqui não anda bem
 
vá até a praia
sempre é possível ir até a praia
pegue uma ou duas conchas
depois
como quem procura um verso
como quem avista o caminho dos refugiados
como quem se engana
diante do imutável
 
ouça o mar
 
 
 
 
a alguém que chega
 
a ferida está aberta
onde se faz sombra
a constituição do terno
seu corte bem definido
a crosta de amores
e desafetos
tudo encerra no peito
franja e fraga
tão Drummond
eu piso nas pedras
e não há coragem nenhuma
em itapetininga
ou qualquer terra
longe ou perto   
canções são decoradas
e repetidas ao longo
das décadas
 
decantar uma lágrima
forjar sua estrutura
 
moldar o aço o cobre
moldar a madeira
 
e nela uma gota
correndo a face do cristo
e pensar na eternidade
como se o mar
arrebentasse dentro de nós
e numa hora qualquer
deste dia
ou de qualquer outro dia
parar o coração
como se para a produção
ou o êxtase
andar livre e nu
como se só pele fosse
e na altura da noite
não se perguntar
o que foi o dia
o que será o dia
a quem pertence o país
 
colocar a lágrima
como um pingente
raro que se dependura
entre os mamilos
e repousa
no tórax
quando dormimos de mãos dadas
quando nos afastamos
 
colocar a lágrima
um passaporte natural
 
entre o processo do sal
e sua completa dissolução
quando mergulhamos no rio
e perdemos
quem amamos
eu ouço o choro
convulso
de uma criança
que acordou agora há pouco
 
separo a épica
da minha estante
coloco a lírica
perto do chão
 
eu caminho debaixo do sol
como se no peito
fosse métrica
que meu coração pulsasse
sei que nada vale
 
a criança ainda chora
você pode plantar flores
na fronteira
ao pé da cerca
mas na volta para casa
ainda guardará
um pouco de semente
 
 
quem sabe
a próxima fronteira
precisará de algum perfume
alguém de outra língua
alguém que chega
assim
em desaviso
em medo
em desespero
deve ter o direito
de sonhar
 
 
 
 
desvio

 
e eu vou voltar
e olhar as folhas que ainda caem
no outono
e sentir o orvalho
e retirar da casca das árvores
o exoesqueleto das cigarras
na primavera
e eu vou voltar
despido da minha vida
com uma única muda
de roupa
poucos livros
nenhum de poemas
e estarei cheio de sol
e de canções
e pedirei uma xícara de café
na casa de barro batido
dos meus irmãos
e me sentarei um pouco
diante
da lenha que queima
e me darão
a narrativa do vento
 
a história das chuvas
a fabulação das sementes
então eu irei
de volta para casa
como se de lá nunca
tivesse saído
e vão me reconhecer pela minha fala
sobretudo pela minha fala
este é da terra
e jamais devia ter
saído daqui
olha o modo como ele olha
olha o jeito de ficar sem as mãos
olha como cruza as pernas
de frente ao infinito
e eu estarei bem
e eu ficarei bem
e ninguém dirá
que eu não pertenço
àquele tempo
àquelas vozes
àquele titubear
manso
que minha gente tem
quando não sabe afirmar
seus direitos
 
itapetininga avançará para o futuro
e me reconhecerão
pela minha boca
 
onde as palavras nascem
pelo encanto de ouvir os sinos
da aparecida
pelo amargo e ceticismo
de me apegar aos quarteirões que se desfazem
às casas que se desfazem
aos pequenos insetos
que nunca desistem
e saberão que se fui poeta
foi apenas por um mero desvio de caráter






Fiori Esaú Ferrari nasceu em Itapetininga. É professor de Língua Portuguesa pelo município de São Paulo e de Literatura pela Uneafro.  Seu livro, O coração do deserto  é azul, ed. Litteralux, foi semifinalista do prêmio Oceanos de 2025. Neste 2026, Fiore lança “Cidade profunda” (Litteralux, poemas).
 

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