Olhos quase cor de amoras: Perce Polegatto

Imagem: Amedeo Modigliani. Retrato de Élisabeth Fuss-Amoré. 1916.

Há quase uma década, eu me recuperava de perigosos questionamentos que foram se diluindo por si mesmos e quase declinaram à condição inofensiva de fantasmas brincalhões quando conheci a Marjorie e passei a conviver com ela. Com ela e com sua praticidade, sua proatividade, sua certeza de conseguir o que queria – como se as questões essenciais que moviam meu pensamento inquieto não tivessem a menor, isso mesmo, a menor importância. E ela me quis.
 
Quando conheci a Marjorie, ela me encantou com sua educação, com seus sorrisos e não sorrisos na hora certa, suas expressões faciais agradáveis e convidativas. Sentados, conversando. As cadeiras de madeira escura daquele café, umas plantas em volta. Cardápios plastificados ali, à toa. Então, ela ergueu lentamente a mão direita, em minha direção.
 
“Olha, um pernilongo aqui, na sua camisa.”
 
Era mesmo. Mal tive tempo de vê-lo: o minúsculo inseto subiu ao ar delicadamente, rapidamente, imprudentemente, e eu nunca me esqueço de como a Marjorie o liquidou certeira, batendo as palmas das mãos uma única vez. E os olhinhos dela, quase arregalados e vesgos, concentrados como os de um felino. Seu rosto todo parecia o de um felino, surpreendentemente. Os lábios presos, as linhas exatas de seu queixo, suas mandíbulas, e aqueles olhos castanhos, escuros, quase cor de amoras, um brilho rápido de êxtase ao dar como certo, num estalo, o assassinato bem-sucedido. Tornou a olhar-me de frente, outra vez mulher. Sorrisinho de boca fechada, como se dissesse: viu só? E algum alívio, um sutil relaxamento. Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta. Encoberta pelas vantagens dos bons modos.
 
“Você trabalha com aulas, não é?”, a Marjorie, curiosa e afável.
 
“É, eu… dou aulas. Leciono.”
 
Franja de fios negros cobrindo-lhe quase toda a testa, partindo de uma linha curva a separar-lhe os cabelos, que caíam mais de um lado que de outro – isso, no momento, me pareceu acidental.
 
“Interessante, admiro professores.”
 
Nós dois compartilhando aquela situação maravilhosa de acreditar que íamos mais bem nos conhecendo, por enquanto não tão bem assim, e ainda bem. E aqueles olhos dela, castanhos, escuros, sensíveis, astutos – como me lembro disso! Para mim, naqueles primeiros encontros, eram olhos potencialmente eróticos, por causa de seus movimentos mínimos, esquadrinhando meu rosto, buscando enquadrar meu rosto como um todo, enquanto eu falava de uma coisa e outra. Uma coisa e outra, mesmo assim o que eu pronunciava quase sorrindo parecia produzir coisas vivas, acesas, nutridas, voluntariosas e quase aromáticas, um pássaro instintivo em sua corte, enfeitiçado pela própria atuação na primavera, reativando em sua vez e em sua voz os ritos ancestrais do acasalamento e a engrenagem do amor. Ela me ouvia, erguia um pouco o queixo, como se farejasse minhas palavras.
 
Uma das primeiras coisas que a Marjorie me disse, quando nos conhecemos, quando conversávamos, quando começávamos a nos imaginar com igual força de vontade, foi que toda relação depende da reciprocidade de nossas intenções, e funciona bem quando é assim. Gostei de ouvir isso. Reciprocidade de intenções. Expressão elegante. A bem da verdade, a essa altura eu já pensava na Marjorie como uma potencial fêmea ao meu dispor. Criava e recriava, como sempre fizera desde que minha soturna adolescência entrara em cena, todas as imagens e falas dessa garota exata, disciplinada e bem cuidada que, misteriosamente, parecia interessada em mim.
 
“Deve ter muitas alunas”, ela brincando com suposta sutileza.
 
“E alunos”, eu me defendia com simplicidade.
 
A Marjorie era agora o foco e o fogo de meu bruto interesse masculino. Minha musa corpórea. Sobrepunha-se às outras, reinava. Dominava-me. Eu lhe despia as roupas e os calçados, o que me levava às portas da polução noturna, algo que eu me esforçava por conter, administrando meu tempo, meu ritmo, meu ritual profano, que é o de todos os homens hormonalmente normais: a sagrada masturbação.

Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agostoA seta de VerenaMarcas de gentis predadoresProjeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedraA conspiração dos felizesLisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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