Coluna Luís Palma Gomes: A escuridão como máquina do tempo

Ilustração: Nicolas Pirson


Lá fora, vejo apenas silhuetas.
 
A escuridão tem essa vantagem: é sempre igual. Transporta-nos para lugares onde, há cinquenta anos, também não víamos quase nada. Podíamos estar no campismo, num pinhal, numa praia — tudo permanece igual. Até os ruídos da noite são quase os mesmos: os grilos, o vento e aquele silêncio absoluto.
 
Era normal chegar à casa de campo depois de uma noite de farra, bem bebida, e, ao deitar-me, sentir tudo a girar à minha volta, como se estivesse suspenso no vácuo.
 
Na escuridão e no silêncio, não há nada que nos alinhe com o espaço. A cabeça roda, ouvimos a própria circulação sanguínea. Somos novos. Amanhã podemos fazer tudo de novo outra vez.
 
Outras escuridões de que me lembro surgiram durante o serviço militar, nos serviços de plantão. Fiz cinco dezenas deles: quatro horas sozinho na escuridão, com a metralhadora às costas, muito frio e tempo para pensar.
 
Uma vez, adormeci no posto. De manhã, acordei estremunhado. A ronda ainda não tinha chegado com o cabo de serviço à frente de oito soldado para fazer a rendição. Tive sorte. Ou talvez o oficial de prevenção tenha passado por mim e pensado que eu vigiava os sonhos e, por empatia ou simples misericórdia, não me tivesse dito nada.

Sinto a falta da escuridão.
 
As cidades são avessas a essa dimensão onde o tempo e o espaço deixam de contar assim tanto.
 
Talvez seja por isso que, na escuridão, ainda seja possível voltar a lugares onde já não podemos voltar.
 

Amadora, 26 de Setembro de 2026 (durante uma insónia)



Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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