‘As aulas no curso primário’, crônica de Cunha e Silva Filho



Imagem extraída da Super Rádio Tupi




Dois irmãos mais velhos e eu estudamos, no primário, por pouco tempo, no Colégio Demóstenes Avelino, e a única lembrança boa que ainda tenho dele era a merenda que mamãe, à hora do recreio, nos levava com aquela boa vontade e cuidados maternos.

       A merenda de mamãe era sempre bem aguardada e ainda me lembro de  que consistia mais de frutas, por exemplo, fatias de deliciosa melancia. Que delícia! Ainda sinto o sabor doce daquelas melancias de mamãe. O tempo é sinestésico.

       Das aulas em si, das professoras, dos colegas,  pouco  me  lembro. Creio que nunca eram  boas as aulas e a criança  ficava ansiosa por  voltar  para casa,  ainda na Rua  24 de Janeiro, a qual ficava pertinho da Praça João Luiz Ferreira, aquela  onde  ficava o único prédio  mais alto na época, conhecido geralmente como  o  Instituto. Suava  para   passar o tempo do turno da manhã na escola primária  Demóstenes  Avelino, cujo diretor era o professor  Felismino  Freitas  Weser (1895-1984).  O sobrenome  do diretor   sempre   me dava   a sensação  de que era um   estrangeiro.

       A parte do primário   ficava numa sala  de lado que dava para  uma  rua meio   íngreme. Quando vinha de casa para aquela escola  com meus irmãos Sonia e Winston,  tinha que  subir por  aquela rua.

       O professor Felismino Freitas Weser teve um filho com grande  vocação poética, o José  Newton  Freitas (1920-1940), autor do livro  Deslumbrado (1940), saído a lume postumamente. Alguns estudiosos piauienses o consideram “…o verdadeiro introdutor do Modernismo no Piauí.” 
   
       Nem mesmo  me lembro  se eu  já  estava sabendo ler. Me vem à  lembrança  o  problema   enfrentado  pelo  grande sociólogo  Gilberto Freyre (1900-1987), um caso quase perdido, em virtude da dificuldade de  aprender a escrever,  nos  primeiros tempos  de  vida escolar.    
        
       Me recordo de aulas de reforço para a aprendizagem de leitura. A professora era dona Eremita, bem idosa, mulata, séria, de cara sempre amarrada.  Além das aulas de leitura, nos ensinava catecismo.

       Da mesma forma, me andou por  um tempo desasnando minha prima Valdineia, falecida há dois anos. filha do tio Enoch, de Amarante. Valdineia, na minha infância em Teresina,  morou um tempo em minha casa na Rua 24 de Janeiro.

       Penso que estava terminando o curso de normalista. Nas minhas fundas   lembranças, ela procurou, sem muita paciência,  me ajudar, mas não me dei por satisfeito na época. Ainda não dera, mutatis mutandis,  o estalo do padre Antônio Vieira (1608-1697).

       Relembro também de outra professora particular que tive. Contudo,  o que me ficou na lembrança foi uma menininha  linda  por quem  fiquei interessado. De todas as escolas por que passei, junto com meus irmãos  Winston e Sônia, em nenhuma  me  senti bem. Nem me prendi a amizade alguma  de colegas do sexo masculino. Em mais de  uma escola  primária  com muitos alunos me sentia  acuado,  com medo da professora, desejando mais era  voltar logo  para casa. Devo assinalar que, por pouco tempo,  andei  estudando num Grupo Escolar que ficava em frente do Karnak.  Contudo, ali  também me senti solitário e  triste. Queria mesmo era ficar em casa.

       Ao contrário  do meu tempo de  ginásio,  nunca fui um estudante   feliz nos primeiros anos  escolares. Era curioso, segundo vimos linhas acima,  como eu e meus irmãos  trocávamos  de escola, até parecendo  uma daquelas advertências  que constavam  no preâmbulo da  minha  primeira versão da  Carteira Profissional,  com data de fevereiro de 1964.

       Aquela  carteira fora   tirada precisamente no  prédio  do Instituto, a qual,  à falta de outra  palavra,  me dava como  profissão  a de comerciário, coisa que jamais  entrou nos meus  planos   ter como  atividade profissional,  porquanto queria mesmo  era ver  preenchida à mão, no espaço de  “profissão,” a de “jornalista.” Imagine, leitor, essa  ousadia de um  jovem  que mal completara  dezoito anos e só porque tinha publicado alguns  artigos  juvenis sobre literatura em jornais   de Teresina.   
  
    Um escritor  piauiense,  J.  Miguel de Matos (1923-2000),  autor  de um     romance que, à época, havia lido chamado  Brás da Santina (1953),  por  sinal,  se encontrava no Instituto e, vendo a minha  pretensão  de que,  na carteira,  fosse  colocado “jornalista,” chegou a falar: “Ele merece.” O burocrata, no entanto,  não o atendeu.

       O “padrão de honra” ou “advertência”  da Carteira  Profissional fala, respectivamente,  de dois  perfis  de profissional: alguém  que, na carteira assinada,  demonstra ter sido  constante  num determinado  emprego e outro que se compararia a uma  “abelha,” i..e., alguém  que  não parava  nas fábricas   por onde andou  trabalhando, daí a  metáfora da “abelha.”

       A conotação que  imprime  o autor do texto, de nome Alexandre  Marcondes Filho, está, portanto, intimamente  ligada à atividade do operário. O tom  burocrático  do  texto é bem  explícito  na sua intenção  de ser a Carteira Profissional  um  instrumento de  identidade e de  recomendação,  boa ou negativa,  a um eventual  patrão ou empregador  privado  ou  público. Tanto é que  a nova Carteira Profissional  que   tirei no Rio de Janeiro, em 1971, passando a ser chamada de Carteira de Trabalho  e Previdência Social, ainda   repete aquele  texto de  título “Carteira  Profissional” assinado por  Alexandre  Marcondes  Filho.

       Retomando o fato de que tive dificuldades no primário, devo  reafirmar   que o meu  período  de  estudos nessa fase  foi  bem confuso,  bem  mutável.  Não  gostava de nenhum lugar  por onde   transitei  como  nômade acompanhado de meus  irmãos  já mencionados.

       Tampouco sei   por que  houve tantas mudanças. Tempos depois, já no ginásio e muito feliz, por sinal, jamais levantei esse assunto com meu  pai, com quem  confidenciava  com muita frequência em seu “quarto-biblioteca”  – quarto  que teve   um relevo  especial   para minha  formação    de adolescente  chegado a leituras  e aos estudos das minhas áreas  preferidas, aliás, passagem de minha vida já  narrada em crônica, tendo como   cenário doméstico  meu  pai sentado na rede e    eu, ao pé dele,  com um pente  passando-lhe  pela parte  superior  da cabeça  que começava a ficar  grisalha. Lhe fazia isso até que caía no sono. Então, cuidadosa e silenciosamente, deixava-o naquele estado e saía do quarto.

       Nas minhas reminiscências da infância,  há esse gap   de entendimento e percepção  sobre  como  se processou  a minha formação de leitura, de domínio  dessa competência.  Creio,  por outro lado,  que ela está  muito   relacionada à dificuldade da leitura, a qual pode ter sido causada por  deficiências  minhas como  provavelmente  pode ter origem na timidez  que,  em  assuntos   de  estudos,  tanto me atrapalhou no primário. Ou, por outra, a minha inicial  dificuldade de leitura pode bem  estar  no receio de  que  em geral  tinha  pelas professoras no  início dessa fase escolar.

       Infiro que talvez tenha sido  ainda por falta  de  tato pedagógico-didático  de professoras  que cuidaram  de mim, das quais não  tenho  boas lembranças do tipo   que a maioria das pessoas    definem, com justiça,  com muito  carinho e afeto: “Oh, minha  querida  professora primária!” Comigo não houve isso, o que me sobrou de relembrança  me  remete a certas passagens de Infância (1945), romance de Graciliano Ramos (1892-1953)  com  respeito  aos seus  pais e, assim,  não  relacionadas a questões de aprendizagem.

       De outra parte, a dúvida sobre  o período  obscuro  e  infeliz do primário continua  a me  martelar  a cabeça,  na procura das razões  primeiras,   dos motivos  mais   fundos,  para  os quais,  quiçá, só  a psicanálise me possa indicar  alguns  caminhos de entendimento daquela quadra  de deambulações passageiras, por escolas,  do medo  de professoras,  de ausência de alegrias  e  de    sentimento    de  prazer  em   lidar com os meus  primeiros anos  de vida escolar.
 
 




Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996); Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional (Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124); Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009); As ideias no tempo (Teresina: APL/Senado Federal, 2010); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica); Contos selecionados de José Ribamar Garcia (Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2017). Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site Entretextos. Assina o Blog As ideias no tempo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União Brasileira de Escritores (UBE, seção Piauí). Cunha, desde 2017, escreve sobre Literatura, especialmente brasileira, também para a Revista Orizont Literar Contemporan, (OLC), Revista romena sediada em Bucareste, Romênia.


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