
A modernidade se instaura a partir da noção de subjetividade. Ao humano então é cedido lugar central na maneira como o mundo passa a ser concebido e compreendido. A questão parece simples, mas é preciso dizer que talvez nunca venhamos a dar soluções definitivas para as tantas problemáticas advindas do princípio da subjetividade. Não são poucos os filósofos (para limitarmo-nos à Filosofia) que se dedicaram e que continuam a dedicar-se aos impasses desse período histórico. Eis um dos mais espinhosos com os quais andam às voltas desde há muito: o tempo. É sobre ele que, de um modo ou de outro, entraremos em contato ao falarmos do romance O deserto dos Tártaros, do escritor italiano Dino Buzzati.
Antes de nos envolvermos com a trama, algumas digressões…
Refletir sobre o tempo é uma tarefa ao mesmo tempo inelutável e excruciante, sobretudo para aqueles que se debruçam sobre ele com a sede de trazer à luz o que lhe subjaz. Através dos séculos, muitos foram os que se ativeram a essa “entidade” com o fim de compreender suas dinâmicas mais íntimas. Esquemas de compreensão foram forjados; máquinas para medir a sucessão dos instantes, inventadas; a linguagem, enfim, articulou suas próprias maneiras de enunciar e de fazer sentir a temporalidade[1]. Desse esquematismo, muito familiar nos é o tempo físico, que, apesar de parecer palpável por se fazer notar e se deixar controlar seja numa ampulheta, seja pelos ponteiros dum relógio, não nos permite capturar seu âmago, a centelha mesma que o aviva. Muito perto de nós também está o tempo psicológico (ou interior, como querem alguns), o qual, embora possa ser sentido, não cede ao nosso interesse de compreensão como tanto se deseja em relação ao mecânico, pois a nada se verga, não se deixa perceber senão por afecções. Ele está, portanto, na posição de ordenar e submeter, não o contrário. Nesse contexto, se é árduo pensar sobre o tempo ainda que por diletantismo ou algo parecido, mais ainda o é para dar-lhe materialidade/concretude. Materialização essa agora não mais confundida com a areia que passa por um delicado e delgado orifício, tampouco pelo tiquetaquear do marcador cadenciadamente contando as horas, os minutos e os segundos, a gerenciar, a propósito, a nossa vida em todos os aspectos possíveis.
Mas estamos a entrar no campo da literatura, no qual inquietudes tantas são apaziguadas em dada proporção (talvez pela suspensão da descrença, ou pelos mais diversos expedientes que nos envolvem na trama dum romance ou na tessitura de certa poesia) e o que é tomado por impossível, uma vez inserido no literário, ganha os contornos da viabilidade. É nela igualmente que o tempo se faz apreender de um modo completamente diferente daquele tomado pela racionalidade que opera a duros golpes, pelo extremo do pensamento lógico e relacional. Um tanto distante da experimentação, digamos, das engrenagens científicas, tal categoria, como apontamos, inerente ao soar da poesia épica e das narrativas, permite-nos um vislumbre de si quando se plasma em personagens, objetos, seres, entes os mais variados. Por si só, nada diz, nada de si deixa ver essencialmente, quase nada denuncia de sua severa natureza, mas indicia o modo como opera, especialmente, sobre a humanidade e os feitos e vivências dela.
Isso posto, passemos a algumas nuanças do romance que reclama nossa atenção!
O romance O deserto dos Tártaros foi publicado em 1940. Do ponto de vista do enredo, desde as primeiras páginas do livro, passamos a ter contato com a história de Giovanni Drogo, tenente recém-formado convocado para exercer seu ofício na Fortaleza Bastianni, distante da pequena cidade em que vivera e formara-se como oficial militar. Conduzido pelas forças de seu dever, Drogo então segue viagem, passando por vales, caminhos tortuosos e desconhecidos, deixando-se guiar pelos cumes das montanhas e pelos ventos que se encaminham na mesma direção que a sua. Cansado da caminhada, põe em questão objetivos de vida; esgotado e atravessado pelas sensações do desconhecido, cogita retornar à casa e viver o amor ao lado de Maria. Mas esperanças o tomam de assalto, as possibilidades de fazer valer sua carreira como tenente conduzem o seu pensar, em suma, um sentir todo alardeado de heroicidade invade seu peito.
No entanto, ao chegar ao Forte, Drogo sente o peso da atmosfera de desolação que paira sobre o lugar, a qual se avulta também pela sua decrepitude; toma conta de que o torpor e a letargia são a constância de onde agora está; é participado ainda do fato de que há muito nenhuma batalha ali era travada. Contudo, no horizonte constantemente vigiado e guarnecido (a paisagem desértica), repousa a esperança de que os Tártaros hão de declarar confronto a qualquer momento. E aqui repousa a ambiguidade da figuração do deserto: a um só tempo, algo viceja nele (a ameaça da luta, o tudo de todos) e o nada (pois nada se dá, nada se efetiva). Conflito não iminente concretamente, ele se derrama no corpo e na alma de cada militar cerrado na Fortaleza. Eis a espera, a expectativa, a confiança no pulsar heroico de que uma refrega ocorrerá numa hora qualquer.
O tempo segue seu fluxo, o qual afeta Drogo da forma mais corrosiva. Considera que está a perder sua vida sem nada dela fazer; leva à alma que tudo por que passou para ali estar não valeu a pena; diz a si mesmo que fracassou nos seus empreendimentos. Arrasado, procura meios legítimos de deixar Bastianni; precisa, pois, esperar algum tempo para alegar debilidades na saúde para ser dispensado das tarefas às quais foi incumbido no Forte, o que acarretaria num remanejamento para seus exercícios de oficial numa localidade mais próxima da família. Por ser jovem, crê que o tempo está ao seu lado e que ainda pode muito fazer; por ainda ter o viço do corpo e do espírito, conta viver as benesses da existência; dispensado da espera aterradora, as preocupações comuns à vida se tornariam menos ásperas e dolorosas.
Enfim, depois de quatro meses exercendo suas tarefas, vai encontrar-se com o médico para fazer ver que não está apto para permanecer no Forte. Quer Giovanni Drogo falar das debilidades físicas e da fraqueza das fibras de sua alma; quer também dizer da necessidade de estar mais próximo de sua família por motivos os mais variegados (todos louváveis, diga-se de passagem). Entretanto, em meio a uma conversa mecânica e entrecortada com o médico, e enquanto este está debruçado sobre as anotações, Drogo põe-se a mirar a planície inóspita, como quem quer descobrir o que seu limite oculta; coloca-se na observação particular das formações rochosas em torno da Fortaleza; novamente, reconsidera os motivos pelos quais ali está. Feito gota d’água caindo numa superfície metálica superaquecida, o anseio por deixar o lugar esfacela-se. Dando fim à consulta e ao desejo de deixar Bastianni, começa o processo de integração total à Fortaleza.
Definitivamente envolvido com aquele espaço, Drogo então passa a introjetar os hábitos e os expedientes de convivência comuns dali. O senso de espera, assim como o dos demais militares, firma-se como parte trivial do ambiente. Mas há sobressaltos e desassossegos vindos do deserto, os quais, na maioria das vezes, não passam de ecos de andarilhos, de ventanias quase arrasadoras, da perambulação de animais que habitam no mar de areia. Tudo, enfim, assoma como um alerta. Os Tártaros, afinal, podem erguer-se em luta quando menos se esperar. Em meio ao que aí está, Giovanni Drogo transita por memórias, revê o que planejou para sua condição entre os demais homens, rememora afetos, a relação delicada com a mãe e com Maria, um amor que não vingou.
A questão temporal ecoa no romance do começo ao fim, pois é por meio dela que Drogo passa a limpo sua existência, lutando para, de algum modo, vencê-la para acabar de viver o que ainda lhe resta. Mas o tempo o consome, sobre ele exerce a atrocidade de sua passagem, faz ver que a espera, apesar do sentimento heroico que em todos pulsa, é implacável e a todos devora. Sonhos vão sendo apagados; outras formas de viver e sobreviver passam a não mais fazer sentido para além das paredes rochosas de Bastianni; o existir de cada um soçobra na decrepitude e na agonia.
O deslocamento nos lastros temporais se dá sobretudo nas malhas do futuro, pois, como vimos, há o feixe de expectativas e o sentimento de esperança. E aqui se faz ver o conflito entre a objetividade e a subjetividade. De um lado, engendram-se os enunciados da voz narrativa; de outro, os do próprio Drogo. Veja-se o que se coloca na materialidade do texto: “[…] Aquele era o primeiro laço, e depois viriam muitos outros, de toda espécie, que o trancariam lá dentro” (p. 12); “[…] oh, se o soubesse, talvez não tivesse vontade de dormir –, justamente aquela noite iria começar para ele a irreparável fuga do tempo” (p. 38) e “Drogo porém não sabia, não suspeitava que a partida lhe daria trabalho, nem que a vida do Forte engolia os dias um após o outro, […] numa velocidade vertiginosa” (p. 57)[2].
Nos fragmentos ora destacados, o narrador enuncia acontecimentos em linhas de subjetividade a partir de contextos distintos. No primeiro, Giovanni Drogo está deixando a cidade em direção ao Forte Bastianni, momento em que também se despede do seu amigo de infância Francesco Vescovi. Os laivos de intimidade aí entrevistos evocam a angústia e o saudosismo; trata-se de afecções que o narrador fará com que permaneçam na superfície da memória do militar. Disso, também irrompe nele a percepção extremamente atormentadora da fragilidade e da efemeridade da vida e das coisas que nela se dão. Ao que se segue, em uma das passagens em que está a entrar no âmbito do sono, Giovanni, inusitadamente, dá-se a um tipo de solilóquio num estado de consciência intrigante, dando a ver nisso algo de sua desagregação psicológica. Por fim, no terceiro excerto, apreendem-se o declínio físico e psíquico do oficial. Não há mais retorno, ele se confunde com o espaço todo tramado em desolação e expectação. Tentando romper com formas de convivências, vê-se incapaz de deixá-las de lado ou de suplantá-las totalmente; procurando reconstruir aspectos de sua vida, percebe que o tempo do vigor se expirou; uma vez mais, querendo reanimar a centelha da heroicidade, não mais aí enxerga o esplendor e a exuberância da força.
Como se pode perceber a partir daqui, o tempo se ancora na configuração do espaço: a Fortaleza Bastianni. É também por meio dela que vemos o transcorrer do tempo e da decadência de Drogo. Então aí a questão temporal se plasma, possibilitando-nos um vislumbre de sua natureza movediça. Acerca disso, vale mencionar uma passagem que, em alguma medida, comporta-se como espécie de metonímia da narrativa de Buzzati.
[…] Passarão alguns dias antes que Drogo entenda o que aconteceu. Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro. Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. […] E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. […] Até Drogo ficar completamente sozinho e no horizonte surgir a estria de um imensurável mar parado, cor de chumbo. Então já estará cansado, as casas, ao longo da rua, terão quase todas as janelas fechadas, e as raras pessoas visíveis lhe responderão com um gesto desolador: o que era bom ficou para trás, muito para trás, e ele passou adiante, sem dar por isso. […] São as últimas vezes que chegarão até ele, na noite, as suaves imagens de um mundo completamente feliz (2017: 39-40)
No fragmento, o narrador imprime a ação do tempo sobre as coisas que direta ou indiretamente permeiam a vida de Giovanni Drogo, como já sabemos. Mas essas coisas tornam-se simbólicas, meramente coisas, sem a possibilidade da formação de signos que lhe reativem sentimentos realmente nobres, brandos e alentados. Em determinado ponto, o tempo terá modificado tudo, sobretudo o espaço/a ambientação onde ele se encontra há mais de duas décadas, o que lhe fará querer ser domado pela inércia e pelo alheamento ao que se dá à sua volta. Não mais quererá mudar, alterar o estado em que se encontra. Aqui, a propósito, atinge-se um grau mais exacerbado de angústia. O fato de Drogo passar a narrativa inteira sem conseguir desvencilhar-se do Forte implica a coisificação de sua própria vida. O tempo se perde no espaço, dando-se a ver em unidade espaço-tempo ou tempo-espaço. Em um outro momento da narrativa, temos, enfim:
Não teve a mais remota dúvida de que aquela noite seria muito triste para ele, que naqueles degraus, exatamente naquela hora, estaria terminando sua juventude, que no dia seguinte, por nenhuma razão especial, não voltaria mais ao velho sistema, nem mesmo no outro dia, nem mais tarde, nem nunca (2017: 163).
Pelo excerto, vemo-nos diante de um Drogo mais velho, que se põe a ansiar pela morte, pois não há mais nada que dignifique sua existência. Já não há mais espaço a ser protegido, pois sua força e seu saber tornaram-se insignificantes; nem mesmo há mais o inimigo, porque suas esperanças minguaram, perderam o sentido. Mas há a última luta, que, a bem da verdade, é a única que Giovanni Drogo precisará travar em termos reais: lutar com a morte, que, apesar de ser “a mais nobre das batalhas”[3], é uma luta vã. Vã porque sai ela vencedora, triunfando sobre a vida.
Trinta anos se passam e, então, os Tártaros atacam a Fortaleza Bastianni. O deserto, finalmente, torna-se campo de batalha. Não há mais espera, mas também não há prazeres ou heroísmo por parte de Drogo. Restam-lhe tão somente a compleição física e a condição psicológica um tanto erodidas. Ele não mais exercerá o seu papel e o dever de tenente, tampouco alcançará os méritos advindos da glória contra os Tártaros, visto que o anseio por vencer a batalha imperava em seu ser. E, ao perder sua estadia na Fortaleza, porque não mais serviria aos propósitos da instituição militar, é transferido para uma casa de repouso, onde, numa excentricidade familiar e árida, uma parede nua torna-se a última paisagem sobre a qual recai o seu olhar – quiçá – resignado. Sem mais que fazer, sem viço para continuar a caminhada por outras veredas, espera silenciosamente a morte, que o ceifa toda revestida de lirismo, leveza e compaixão.
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Notas:
[1] Cf. NUNES, Benedito (2013); BRANDÃO, Luis Alberto; OLIVEIRA, Silvana Pessoa de (2001); FIORIN, José Luiz (1996).
[2] Todas as citações retiradas do romance são desta versão: BUZZATI, Dino. O deserto dos Tártaros. Trad. Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. 6. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
[3] CANDIDO, Antonio. As quatros esperas. Novos Estudos, São Paulo, n. 26, p. 49-76, 1990. Disponível em: https://novosestudos.com.br/produto/edicao-26/#58db446f7152c. Acesso em: 18 set. de 2026. Para Candido, no ensaio ora mencionado, o Forte representa uma experiência de vida, “um modo de ser e viver, que prende os que têm a mesma natureza idealista e ansiosa de Drogo; os que traduzem a própria situação como longa espera do momento glorioso e único, onde tudo se justifica e o tempo é redimido” (p. 58).

Eduardo de Lima é Mestre em Estudos Literários. Atua como Pesquisador de Poesia e Dramaturgia e Crítico Literário. Integra Grupos de Pesquisa da UFRPE e da PUC-SP.