Letcha, o impiedoso: Perce Polegatto

Imagem: Álbum em chamas (gerada por IA)

Entre o declínio da infância e a ascensão da pré-adolescência, era comum que muitos de nós colecionassem figurinhas (também conhecidas por cromos), vendidas em bares e armazéns próximos, acondicionadas em pequenos envelopes retangulares, pontos onde também se vendia o álbum em que seriam coladas – um álbum da moda, do momento, da falação geral, capa em cores fortes, fascinantes, que magnetizava nossos olhos, atiçava a ânsia de possuí-lo, mais tarde gravando-se na memória singela de um futuro distante.
 
Em quase todos esses álbuns, havia uma página com pássaros do Brasil, outra com borboletas, outra com animais silvestres, outra com trajes típicos de diversas etnias, personagens históricas, atores e atrizes da TV, enfim, o que pudesse chamar nossa atenção naquela contemporaneidade, tudo muito colorido e atraente. Contudo, não era fácil conseguir todas as figurinhas e completar um desses álbuns – as editoras retinham por algum tempo determinadas unidades (as chamadas figurinhas difíceis), por isso, quando alguém realizava, por mera sorte, essa admirável façanha, todos, nos quarteirões próximos, ficavam sabendo.
 
Um desses vizinhos era um menino mais velho, de 13 anos, conhecido por Letcha, enquanto oscilávamos entre os 9 e os 11 anos. Ele comprava muitos envelopes, cada um com cinco cromos cada, e várias vezes acontecia de ser o primeiro a completar um desses álbuns que tanto nos entusiasmavam. Então ele pedia que avisássemos o máximo de pessoas para um encontro à noite, na esquina próxima de sua casa, quando nos mostraria o álbum completo, com as figurinhas raras que tantos de nós perseguiam. Depois disso, para surpresa e estupefação de todos, Letcha tirava um isqueiro do bolso e incendiava o álbum à vista de todos, começando por uma das quinas, segurando-o enquanto pudesse, à altura de nossos olhos, até que precisasse soltá-lo para que ele se acabasse por si mesmo, já quase todo cinzas retorcidas.
 
Alguns o xingavam: “Egoísta, filha da puta!”.
 
Letcha sorria. Tinha dentes incisivos grandes e arcadas proeminentes, o que fazia de seu sorriso algo singular, os dentes expostos insinuando involuntariamente algum sarcasmo, como se não coubessem na boca.
 
“Não pensa nos outros, palhaço?!”
 
Ele fez o mesmo em outras ocasiões, com novos álbuns, agora sem o elemento surpresa. Sabíamos o que iria acontecer, um pequeno espetáculo que sempre nos horrorizava. Alguns tentavam negociar, oferecendo-lhe algum valor pelo álbum completo; outros argumentavam que, se ele iria incinerar tudo definitivamente, que ao menos nos desse as páginas com as figurinhas raras – já se supondo que tentaríamos descolar essas joias e negociá-las entre nós. Letcha sorria com todos os dentes ao ouvir cada uma dessas propostas inúteis. Afastava uns passos para que ninguém tentasse impedi-lo e rapidamente tocava fogo nas páginas plastificadas, facilmente inflamáveis. Em pouco menos de um minuto, não restava nada além de cinzas esbranquiçadas. Então Letcha pisava os restos mortais daquela linda coletânea extinta, esfregando a sola do sapato com energia, menos do que era usada para apagar de vez uma bituca de cigarro, certificando-se de que não houvesse ficado cromo sobre cromo.
 
“Babaca!”
 
“Teu pai não devia te dar mais dinheiro!”
 
A atitude de Letcha me fazia pensar no que estávamos estudando sobre civilizações antigas, em como tudo havia desaparecido, exceto as ruínas: o que esse vizinho fazia, como um mago com poderes desconhecidos por nós, era acelerar o tempo, transmudando milênios, séculos, décadas em segundos. Talvez nem todos atinassem que nossos próprios álbuns iriam um dia desaparecer também. Assim como nossos pais, nós mesmos e o impiedoso Letcha. Nosso bairro inteiro.
 
Um menino menor chorou ao ver um álbum retorcendo-se desde as margens, colapsando sobre si mesmo.
 
“Deus vai te castigar!”, praguejou, meio gago, entre lágrimas.
 
Letcha sorria, sem se defender.


Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agosto, A seta de Verena, Marcas de gentis predadores, Projeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedra, A conspiração dos felizes, Lisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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