3 poemas de “Nós no céu” de Felipe Duarte de Paula




Sim, sou eu
 
Quando a luz da tarde engana
os sentidos desarmados,
a sombra ao pé da porta
pode ser vulto ou aparição.
 
Pode ser também lembrança ou fantasma,
visita não anunciada
que escapa ao abrigo dos viventes.
 
Sem corpo, sem voz,
a presença é apenas intuída
no arrepio que mordisca
a ponta do pelo, a capa da pele.
 
Quem surge onde sobra o vazio?
O que ondula a água reta do silêncio?
Vai embora no sopro da pergunta,
reaparece antes que o fôlego regresse.
 
No bater das portas,
um piscar de olhos
balança a dança das horas e,
na sobra da cortina,
um toque breve devolve ao sono
o sonho interrompido.
 
 
O sabor dos ventos
 
nuvens cor de mar
nelas posso navegar
sem barco nem remo
só com as mãos e a coragem
 
quem cai, não se afoga
quem se perde, não teme
que nas águas desse lugar
as ondas embalam sem engolir
 
longe da praia, longe de lá
mais perto do céu, onde eu quero estar
brisa em que o corpo flutua, sem náusea,
entregue, convicto, ao ritmo do ar
 
nuvens cor de mar
uma só não bastará
num oceano de sentidos,
quantos destinos pode
um marinheiro encontrar?
 
 
Espelho à espreita
 
Confesso: cavalos me amedrontam.
Mas se deles sou chamado o amigo…
Hesito antes de estender a mão.
Crina, pescoço e olhos à carícia
curvados: só eu e meus animais.
 
Encontram no titubeio do pulso
perigo ao equilíbrio do trote.
São dóceis, porém, feitos da mansa
malícia das feras e dos poetas.
Desiguais entre si e entre nós.
 
Avulso, um toque desencadeia
pinote desvairado, que feito
dança, descreve no espaço curvas
inquietas sobre um eixo precário:
veloz revés na raiz do acidente.
 
Teia de enganos cuja extensão meço,
sujeito ao susto que o tombo trás.
Turvas claridades do infinito
imaginário: vê-las fascina,
oriente oculto, esquivo, sem lados.



Felipe Duarte de Paula nasceu em 1987. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, é promotor de justiça, com atuação no enfrentamento à violência doméstica contra a mulher. Mora com a família em São Paulo. Publicou os livros de poemas Vida selvagem (2024) e Nós no céu (2026), ambos pela editora Patuá. Além disso, participou das obras coletivas Ministério Público e Literatura (MP/PA-CEAF, 2023) e Antologia de poesia latino-americana contemporânea (editora Peabiru, 2025). Tem poemas publicados em periódicos e sites como Revista Athena, Ruído Manifesto, Mirada Janela Cultural, Revista Mosaico Cultural II, Portal Crônicas Cariocas, Amaité poesia & cia, e Revista LiteraLivre.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *