
Créditos: Le jeu lugubre / El juego lúgubre, Salvador Dalí, 1929
Quando viajei para o Rio, trazia o endereço do secretário do deputado Manoel de Sousa Santos. Ele e outros irmãos tinham um escritório de construção civil na Rua do Carmo, centro. Esqueci o nome da firma. Ao secretário entreguei uma carta de meu pai, dando informações sobre mim e lhe pedindo que me arranjasse uma colocação. O secretário do deputado federal era maranhense, um senhor de meia idade, muito inteligente, escrevia bem. Era quem cuidava dos discursos do deputado Sousa Santos e de outras tarefas correlatas ao cargo. Seu escritório ficava no belo Edifício Central.
A primeira vez que fui ao seu escritório, que ficava num dos andares mais altos, fui acompanhado do tio Zequinha, visto que ainda não sabia andar bem na cidade. Tive boa impressão do Olavo, pois, a par de ser inteligente, era um bom causer que aliava a essa qualidade uma ironia às vezes ácida.
Fui ao escritório muitas vezes e me dava bem com o Olavo, principalmente porque possuía cultura literária, um espírito crítico e muito franco, às vezes em demasia. Olavo recebia sempre exemplares do jornal Estado do Piauí, no qual meu pai colaborou por muito tempo, tanto com artigos assinados quanto com artigos de fundo. Nesse jornal, e em outros, publiquei, ainda em Teresina e, no Rio de Janeiro, como estudante universitário e mesmo depois de formado, muitos artigos sobre literatura, ensino, temas educacionais, crônicas.
Certa vez, Olavo confessou algo que não me agradou. Falara que meu pai era um bom jornalista, mas não era bom poeta. Ele se referia a alguns poemas, sobretudo, sonetos, que papai estampava naquele jornal. Meu pai começou a escrever poesia aos sessenta anos, um ano depois que saí de Teresina.
Segundo me relatou em carta, se tornara poeta sessentão em face das “agruras da vida.” Quanto ao meus artigos, o secretário do deputado julgava que tinham algum mérito. Olavo não era de elogiar muito ninguém. Ao contrário, tinha uma língua afiada para fofocas literárias. Ou seja, para falar mal de grandes escritores. Creio, todavia, que, em literatura, era um espírito mais conservador, porquanto não me citava nunca escritores brasileiros mais novos.
O Olavo era useiro e vezeiro em enviar cartas, de resto, muito bem escritas, solicitando emprego a gerentes de bancos para jovens que lhe iam ao escritório à procura de emprego, naturalmente encaminhados pelo deputado Sousa Santos, a fim de ficar bem com as suas bases eleitorais no Piauí. Uma vez, fui instrumento de suas cartas a gerentes, visto que estava em fase de arranjar algum emprego.
Fui, então, procurar o gerente de um banco recomendado pelo Olavo, localizado no centro (grandes emoções de minha vida me ligam a esta parte da cidade). Ao sentar-me diante da mesa do gerente, um homem circunspecto, lhe entreguei a carta do Olavo. O gerente abriu o envelope, que não estava lacrado e, sem rebuços, me olhando fixamente, soltou esta: “Eu já estou cansado de receber carta desse senhor me apresentado a jovens candidatos a uma vaga neste banco. O que pensa ele? Que sou uma agência de emprego?! Tenha santa paciência…” Me levantei da cadeira, cumprimentei-o e, num átimo, caí fora. Na rua, senti uma só falta, a do ar condicionado…
Sempre que ia ao Olavo, o encontrava em conversa com um homem ainda novo, um tanto alto, bem vestido, branco e de cabelos louros. Quem o visse, logo pensava ser um alemão. E, na verdade era. O alemão, soube pelo Olavo, casou-se com um brasileira. Falava fluentemente português, todavia, com sotaque ainda germânico.
Gostava de bater papo com esse secretário maranhense, pessoa muito lida e, como acentuei atrás, às vezes sarcástica. Num dia em que me encontrava no escritório, comentou comigo que, pouco minutos antes, tinha estado com um rapaz, por sinal, piauiense.
O jovem estava também à cata de emprego e não sei como conheceu o Olavo. Este me confidenciou: “Esse rapaz já veio aqui várias vezes e já lhe fiz várias cartas recomendando-o a empresas e a bancos. O problema é que não se veste bem e, por cima de tudo, é muito feio. Não é como você, Francisco, que tem uma aparência ‘mais ou menos’ ”.
Com os meus botões, lhe reprovei a expressão “mais ou menos,” posto que me achasse, modéstia à parte, um jovem de boa aparência, assim me diziam as namoradas. Outro dia em que estive no escritório, o Olavo me apresentou ao moço piauiense, sobre a feiura do qual me falara de outra vez que estive lá: ”Francisco, este é o rapaz piauiense de que lhe falei.”
Então, fiquei reparando no olhar do secretário e logo associei a presença daquele piauiense ao que me dissera o secretário sobre a aparência dele que, no meu juízo estético, não correspondia à opinião do Olavo.
Anos depois, me deparei com aquele piauiense, numa galeria da Rua Treze de Maio, onde funcionava o prédio do antigo INPS. Ele se me apresentara triste e preocupado e, não se contendo, me pediu uma ajuda financeira.
Lhe dei, sem mesquinharia, uma quantia razoável, ao contrário de certo personagem machadiano. Seu olhar, tão suplicante era que, a meu ver, nenhum cristão verdadeiro deixaria de atendê-lo. Me beijou as mãos, me desejando muitas felicidades e saúde. Nunca mais o vi. E lá se vão muitos anos desse encontro casual. São os acasos shakespearianos da vida.

Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996); Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional (Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124); Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009); As ideias no tempo (Teresina: APL/Senado Federal, 2010); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica); Contos selecionados de José Ribamar Garcia (Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2017). Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site Entretextos. Assina o Blog As ideias no tempo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União Brasileira de Escritores (UBE, seção Piauí). Cunha, desde 2017, escreve sobre Literatura, especialmente brasileira, também para a Revista Orizont Literar Contemporan, (OLC), Revista romena sediada em Bucareste, Romênia.