Coluna Guido Viaro: O embate entre o ser e o anti-ser

Ilustração: Tommy Ingberg


Ao homem são postadas duas grandes questões, comecemos pela segunda delas: Por que? Essa pergunta busca significar tudo o que a consciência abarca, e se ramifica em infindáveis bifurcações, por que existimos, qual o significado, e se de fato ele existe, da vida? Essa pergunta ativa, sustenta boa parte da filosofia, ela é a expressão máxima do ser, aquele que se reconhece separado do todo e diferente do nada, e tenta de alguma maneira encontrar e significar suas origens.   
                                
O ser vive para existir e existe para viver. Durante toda a fatia temporal a que tem direito, todas suas atitudes são no sentido de imprimir um significado à própria existência. Para isso é preciso descobrir-se, quem é, como funciona e qual o sentido do mundo que nos circunda. O ser é feito por e para o movimento, portanto sua busca jamais cessará. Se isso acontecer e a estagnação comprometer seu movimento, esse ser estará se afastando daquilo que realmente é, e se transformará em algo diferente. Essa transformação ocorrerá sem que possa escolher destinos ou formas. O ser será moldado conforme forças alheias a ele mesmo.  
                  
As poças de água podre costumam assumir diversas formas físicas, e são tanto causas quanto consequências da falta de movimento. Os dogmas são os maiores inimigos do ser, transformam movimento em imobilidade e afastam o ser da possibilidade de crescimento.   
                                      
Voltemos agora à primeira das questões, que ao contrário da segunda, é passiva: Não chega mesmo a ser uma pergunta, talvez mais se pareça com uma constatação: Existo. A primeira e mais importante das percepções. Há nessa constatação a maior das forças criativas. Mas, ao contrário daquilo que acontece, e que em razão disso espalha consequências e opostos por onde nada havia, a constatação primeira, o reconhecer-se existência, não se refere ao ser, mas sim ao seu oposto, o anti-ser.  
                                                                                                                                         
Em oposição ao ser. O anti-ser não busca suas origens ou outras descobertas. Ele não está sujeito à lei do movimento, apenas mergulha dentro de si mesmo sem direção ou velocidade, algo que talvez pudesse ser descrito como anti-movimento. O anti-ser também possui seu caminho natural, é sujeito a acontecimentos e corre o risco de empossar-se em dogmas, talvez anti-dogmas. 
                                                                                                  
O caminho do anti-ser é sempre na direção oposta a tudo que possui uma existência concreta. Se para o ser o verbo mais adequado seria construir, para o anti-ser, o que mais combina é derreter. O anti-ser  usa o movimento para se aproximar, não da existência, mas do contrário dela, a anti-existência.  
                                                                                                                          
O ente, aquele receptáculo que abriga ser e anti-ser, e que possui rígido controle temporal, passa também a ser campo de batalha entre as duas forças antagônicas, e a terceira força, o tempo, que limita a ação das outras duas.    
                                                                                                                               
De um lado o ser busca descobrir, revelar, demonstrar tonalidades escondidas, por outro o anti-ser caminha na direção da dissolução da existência no infinito oceano universal. Enquanto a batalha acontece, soa o relógio informando que tudo possui um segundo a menos para acontecer. 
                                                                                                                                 
O ente é esticado de todas as maneiras possíveis, seus tendões rompem-se e são substituídos por outros que britam daqueles que foram destruídos. A dor se espalha por olhos e bocas, e escorre, formando poças que servem de espelho e nas quais o ente reconhece sua imagem e, após muito refletir, inventa um nome que a tenta definir: Ser Humano.    



 

Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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