Cinco poemas de Evilásio Júnior




Imagem do ateliê de Sueli Dabus, secção abstracionismo





A TERCEIRA MARGEM DE MIM

 
Há um rio
sorrindo
sob a aridez
em meus olhos.
 
Quando a felicidade
transborda pelos poros,
ele dorme sereno;
quando choro
ele acorda
dilúvios e enchentes.
 
Ao entardecer,
quando o meu ser
submerge
nas águas calmas
do mistério,
algo em mim emerge
enquanto
peixes bailam
nas profundezas da alma
e abalam
a solidão
que tenta
me afogar.
 
Um cambo de inquietações
atravessa
minhas margens,
entre areias e miragens
mães-de-água cantam,
encantam a paisagem.
 
No fundo do peito,
redes arrastam
um cardume de saudades,
não acredito em estiagens,
quando revejo antigas imagens
meus olhos teimam em desaguar.
 
Não posso parar
uma correnteza de lembranças,
canoas me singram
desde que eu era criança.
 
Hoje eu sei.
 
Há um rio
chorando
em meus olhos,
 
desaguando
além dos desertos
em mim.



 PÉTALAS DE PEDRA

 
é necessário renascer nesta coivara de agonias
ser semente selvagem
rasgar a aridez do solo
 
mesmo com a carne lambida por mil sóis
fazer das unhas garras
arranhar o fundo da terra
 
é preciso remendar as arranhaduras do tempo
assobiar preces aos pássaros
antes do último voo
 
semear as asas esvaídas no verão
ver o renascimento das coisas
neste caminho de cinzas
 
nos lábios ressecados aparecem pétalas defloradas
flor de carne que pulsa a palavra dura feito pedra
linguagem de lâmina amolada na dureza da garganta
 
dentes afiados retalham o silêncio farpado
olhos recolhem ausências deixadas pela estiagem
mãos acolhem as feridas que germinam nos calos.


 
RUBRA
 

bebo a incerteza de seu corpo
meus olhos tocam a solidão
cheiro a cor de sua pele, rubra.


 
CREPÚSCULO

 
sob minha pele
há um lado escuro
que brilha
sou homem e sou bicho
arranhando a dialética
na carne das horas
 
a superfície dos meus olhos
não mostra a profundidade
do abismo castanho
 
o que se esconde em mim
ainda não tem nome
pulsa em forma de febre
é fera que fere o sossego
 
quando amanhece
escondo o rosto
na outra face do espelho
 
quando anoitece
algo em mim desperta
como a insônia
desenhada na retina
 
sou luz negra dançando
no crepúsculo
do horizonte indefinido.


A REDE QUE MEU FILHO DORME

 
a rede que meu filho dorme
foi tecida com ilusões
e angústias de algum trabalhador
que desconheço os sonhos
 
as cordas que a amarram
talvez tenham servido de laço
que lançado laçou o pescoço
de alguém como se fosse gado
 
enquanto meu filho dorme
sem ouvir os gemidos do mundo
em algum lugar
redes prendem homens como feras
 
enquanto as escapas gritam
rasgando a calmaria da casa
lá fora, na penumbra
homens gemem
morrem.
 




Evilásio Júnior, nascido em Santa Inês/MA, em 1984, é ativista cultural, escritor e poeta. Graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão, especialista em Literatura e Ensino pela Universidade Estadual do Maranhão, Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira pela Faculdade Integrada Instituto Souza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *