Verão em Leningrado, Crônica de Eneas Barros




Ilustração: IA sob prompt do autor



Acompanhando o noticiário sobre o conflito na Ucrânia, veio-me à mente a música “Noites de Moscou”, que tanto emocionou minha juventude. Corri para o YouTube e danei-me a ouvi-la. A nostalgia tomou conta de mim, logo eu, um sentimental por natureza.

O fato é que a música me transportou não apenas para os tempos passados, mas também para as belas paisagens russas, tão bem retratadas em filmes como Doutor Jivago, estrelado por Omar Sharif e Julie Christie, com seu inesquecível Tema de Lara, composto por Maurice Jarre, ou Os Girassóis da Rússia, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni e um tema musical sublime, capaz de transcender a alma, escrito pelo inigualável Henry Mancini.

A Rússia é um país lindo, assim como a Ucrânia, com sua cultura eslava e sua história no Leste Europeu. Durante muitos anos, antes da guerra, a Ucrânia esteve entre os países mais visitados da Europa, chegando a ocupar a oitava posição nesse ranking. Kiev, a capital ucraniana, exibe-se em edifícios grandiosos, muitos deles adornados com ouro, enquanto o interior do país revela paisagens naturais singulares, com suas colinas verdejantes, montanhas nevadas, belos rios e montes pitorescos.

O problema, na verdade, são os homens, em suas lutas insanas pelo poder econômico, social e territorial. Digladiam-se tendo como cenário histórico os monumentos que eles próprios estraçalham, sem se dar conta de que ali pulsa a memória de milênios da humanidade. Foi assim também no Iraque, onde o patrimônio histórico sofreu saques e destruição durante a guerra de 2003. E é assim, em nossos dias, diante de episódios como o incêndio criminoso que destruiu parte da histórica prefeitura de Limoges, na França, em outubro de 2026.

Saqueiam museus, destroem em minutos aquilo que levou séculos para ser construído e que representa civilizações inteiras. Enfim, conseguem esgueirar-se da responsabilidade pela preservação da memória e, ao contrário de protegê-la, lutam para apagá-la, eliminá-la sem deixar vestígios, provavelmente por desconhecimento do que representam para a história.

Em outras épocas, uma música como Noites de Moscou talvez fosse capaz de acalmar os corações e unir o mundo em torno do bom gosto, da beleza e da solidariedade, como aconteceu em sua trajetória internacional na segunda metade da década de 1950. Seus autores, Vasily Solovyov-Sedoy, responsável pela música, e Mikhail Matusovsky, autor da letra, jamais poderiam imaginar que aquela composição alcançaria tamanha repercussão. Criada originalmente com o título Noites de Leningrado, a canção foi posteriormente transformada em Noites de Moscou, a pedido do Ministério da Cultura soviético.

A música reflete a paz e a tranquilidade romântica de uma noite em uma casa de veraneio nos arredores de Leningrado (atual São Petersburgo). Em 1956, ganhou sua gravação mais conhecida, na voz de Vladimir Troshin, e, no ano seguinte, conquistou projeção internacional ao vencer o concurso de canções do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, realizado em Moscou.

Os dois compositores deram origem a uma canção cuja delicadeza contrastava profundamente com o ambiente político de seu tempo. E talvez seja justamente essa a sua maior força: uma melodia capaz de atravessar fronteiras, idiomas e ideologias, chegando a lugares onde a política jamais conseguiria chegar.

Pena que, hoje, Noites de Moscou seja apenas uma lembrança, retirada ao acaso das imagens de um conflito que não faz bem a ninguém: nem à natureza, nem à cultura, nem à história e, muito menos, ao futuro.

Para apreciação sonora, segue o link do vídeo: Vladimir Trochin – Moscow nights (1956):




Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

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