
Imagem selecionada do espaço digital Intricate Explorer (05.01.2026)
Sentiu na boca saliva intragável, nos olhos um torpor avermelhado, cansado. Correu de um canto a outro à vila fugidia, inóspita e se lançou nos paquetes de ouro que, velozmente, ganhavam porão num grito sem fim.
Esboçou ideias no pavilhão da cadeia esmaltada de bosta e mijo. Depois chorou como Judas esfolado na corda, a cabeça bamba, caída, densa de imaginações frias. Não tinha mais santo que o curasse daquela dor.
Ora, aqueles homens que batiam enxada perto do seu barraco certamente viram os berros, algo estranho. Não eram uns trouxas não. A mulher amortalhada no chão de vinhedos e lágrimas; na unha-de-gato um pássaro saliente arengando: bem-te-vi, sim, meu velho, se agora chovessem pedras e larvas trepidantes talvez o espírito se expiasse da culpa, certamente voltaria da sacada do inferno sem fossa nem arrepios, a coisa mudaria de panorama.
A justiça de Deus era pequena, não apagaria o elenco manchado da vingança, a mulher amortalhada arriba do seu nariz, sim, meu velho.
O Brasil enorme tão grande que entrava em caminhos e mais caminhos, o coitado só via as batidas da lei o escorraçando, alguém a imprimir gestos sufocados e lamurientos, as portas escancaradas para vê-lo andando cabisbaixo com as mãos amarradas, os milicos armados até os dentes, e o inverno a sufocar o casebre, a mulher trimilicando na cama de varas, a necessidade dando suas rondas, ninguém dava a mínima. E para completar o polegar – a caneta, o estudo e a tragédia. Não sabia ler nem morrer, riu risos de sonhos quebrados e pingados de lama. Saiu da janela. Escurecia. Foi até o interior da casa: a casa, meu velho, estava submersa no infinito das suas dores, além do escuro a bafejar ondas elétricas, sinto-me lascado, falou pelas ventas da alma. A lembrança com Joaquim veio à tona: compadre, não se fie nela, caso sério, é triste de contar, vi com esses dois olhos. Mas compadre Joaquim… Sim, compadre, atente bem, atente, não minto, quando mentir já sabe, juro me mato. O rapaz tava lá todo afrescurado, feito um diabo, um rei, eu vi, sim, meu velho, era noitinha, compadre tava ausente, aí se amaram, tá contado tudo, não me peça mais, Maria, vou acolá, não tardo muito.
Pedro saiu cantando com uma espingarda na mão, um cigarro de palha na boca, uma patrona escanchada ao ombro, remendando um samba ao vento. No Cacimbão soubera do fato, a falação ganhara as vigas da maldade e nos rostos e olhares a poeira dos risinhos atravessados. Ainda vou te dar chance, Maria. Ouviu? A mulher passeando olho no chão, muda. Não sei se há verdade nisso, não sei. Ela descontraída, amarela, a voz sumida, aterrada na garganta, Pedro ia e vinha com gestos desatinados, a casa não lhe cabia os movimentos ásperos e angustiados. Outra lembrança: Maria foi à cozinha e preparou café. Veio rapadura e tigela. Tome home, vou buscar farinha, trago já, fique aí. Depois começou a resmungar que vivia cansada, que aquele bucho ia ser coisa a dar fraqueza e tontura. Pedro pensou na criança que viria, o algodão na vazante perdido, o aviamento cortado sem nenhuma maneira, além do mais o povoado botando maldade e unhas de fora, era uma merda, aquilo precisava ter fim, evidente, noite, a casinha se balançava no seu ventre; a mulher, na memória de louco e no vazio das coisas. Pedro ajeitava a respiração gordurosa, a morder unhas e língua como sestro. Num tamborete, sentado, tinha a impressão de que o candeeiro obscurecia em pontas de ouro o corpo da companheira, fazendo castelo de unguentos, festas, sons confusos e magros.
Afinal, o vestido espatifado em tirinhas, a mostrar horrivelmente os peitos em bicadas de nódoas brancas e os olhos tesos ganhando as vigas encardidas do casebre. Deitada no chão se escondia entre fumaça e névoa, do mato recendia aroma do inverno chegado, os trinados arrepiantes das corujas assaltando, atordoado Pedro se levantou.
Línguas de frio vasculham o corpo, apagando, de vez, a chama crepitante da lamparina. Abraçou a mulher sem inibições. Lá na cozinha escutou barulhos de coisas tristes, beijou-a longamente e sentiu estranheza por dentro a cavar o cérebro doentio. Botou um molho de cordas nas costas, deixou a porta do casebre sem ânimo de olhar para trás e um enxame de mutucas castigava-lhe impiedosamente os membros.
Ganhou uma vereda enxovalhada e tortuosa. Os grilos mexiam a goela como que arrastando sacos de vidro esfarelado. Pedro corria adoidado.
Gritando, os gritos invadiam os remansos adiante do rio, tornando-se ecos e pontos negros na noite. Pés e corpo se rasgando nos espinhos e tocos, afundando-se nas poças lamacentas Ê-Ô-Ê-Ó-Ê-Ó-Ê-Ô-Ê-Ó!!!

João Pinto é natural de Luzilândia (PI), radicado no Amazonas, onde foi professor por quase 40 anos. É autor de três livros de contos: Luzes esvaídas (PI, projeto Petrônio Portela), O ditador da terra do sol e Contos de uma aula em vermelho, ambos editados pela Editora Valer. Sua obra mais recente é o romance As Pedras doentes da rua do fio, alcançando duas edições; a primeira pela Caravana Editorial e a segunda pela Valer. João Pinto escreve com frequência crônicas e contos postados nas mídias digitais, especialmente em sites literários. Seus livros são, não raramente, ambientados em três paisagens: Luzilândia, Teresina e Amazonas.