
A cabeça de cerâmica tinha os olhos arregalados e a boca aberta. Na expressão daquele rosto a dor era menor que o medo, e ambos inferiores a uma sutil sensação de estranhamento, diante de cada e de todos os fatos da vida. A figura estava incrustada em uma parede ocre desbotada, que possuía oito janelas cobertas por pequenos toldos que já tiveram tonalidades mais vivas de vermelho. Nos dois cantos superiores da fachada, arabescos esculpidos em pedra-pomes tentavam emprestar nobreza à parte mais alta do prédio, da mesma forma que as rugas enchem um rosto de dignidade. As telhas cor de terra transformavam-se em um chapéu que encobria, sobretudo, dúvidas.
A porta de entrada era uma boca escancarada envolvida por cornijas que davam sustentação a todo o rosto e eram tão imponentes como dois maxilares vigorosos. No alto da porta, discretos como os primeiros sinais de um bigode no rosto de um moço, lia-se, entalhada em pedra sólida, a palavra “Hotel”.
A cabeça de cerâmica era resquício de uma época em que o proprietário da casa propagandeava sua profissão na fachada para atrair clientes. O medo daquele rosto poderia advir de um grande alicate enferrujado pronto para arrancar os dentes que doíam.
Os toldos, a pintura, as inscrições em pedra eram sobras de outra época. A personalidade do prédio aceitava águas vindas de várias civilizações, além de escutar o murmúrio de riachos próximos.
Quando o sol se inclinava derramava sobre as tábuas escuras do assoalho da recepção, uma massa de vida dourada, que parecia possuir a capacidade de rejuvenescer o prédio soturno. Os amarelos permaneciam por duas horas até serem engolidos por sombras, que se perpetuavam por todo o salão. No fundo dele havia um balcão de madeira escura envernizada, atrás dele escaninhos com as chaves numeradas dos quartos. Sobre o balcão havia ainda um livro de registros, e uma placa de mármore onde se lia em letras douradas “Senhores hóspedes, escrevam seus nomes no livro de registro, peguem a chave do quarto que desejam e quando forem encerrar suas estadias, coloquem o dinheiro em uma caixa de prata que está na segunda gaveta desse móvel. Agradecemos a preferência”. Quem assinava era apenas “Hotel”.
O sol esparramava seu fardo de calores e luzes pelos cantos esquecidos da sala de recepção, bolas de fogo estavam disponíveis aos hóspedes que, por passatempo ou curiosidade decidissem examiná-las, as camadas de coloração, a maneira como se moviam pelo chão, e principalmente seus brilhos. Para um observador solitário não é difícil descobrir analogias entre essas luzes excessivas, ou a falta completa delas, e episódios de sua vida.
Apesar dos esforços das bolas de sol, a sala de recepção permanecia um ambiente sombrio, aquela luz poderia ser tanto a das cinco da manhã quanto a das sete da noite.
O único som que se ouvia na recepção era o barulho do motor do balcão refrigerado trabalhando, além do ruído distante de carros passando ao longe. O velho elevador com porta trançada por losangos de metal, e que acomoda no máximo uma pessoa e sua mala, permanece desligado e só é ativado se houver um pedido do cliente.
Dos vinte e quatro quartos apenas um está ocupado. Há três dias o hóspede não sai do quarto. Mantém todas as luzes acesas durante a noite, ruminando sua insônia sem emitir qualquer barulho além dos passos lentos e sem direção que atacam o chão de madeira. Entre dez horas da manhã e meio-dia, o ruído é de um discreto ronco, depois disso, escuta-se o chuveiro ligado, algum barulho que deve estar ligado ao preparo das refeições, e então o vazio completo, o nada, até que anoiteça e os passos indecisos recomecem.
Antes disso, enquanto a ausência é a única presença sólida, o tempo âmbar entra pela janela que há em frente a seu quarto. O presente engole suas duas consequências, o chão endurecido e amarelado encena o que já perdeu suas formas, as tábuas envernizadas cheiram árvores molhadas, o corredor inteiro é salpicado por uma chuva seca, que ao longo dos séculos só acontece quando não há testemunhas.
Dentro do quarto, a luz artificial refletida no espelho revela as caminhadas do tempo pelo rosto do homem. Ele estica com as mãos a pele, seus olhos parecem pertencer a outra pessoa, estão tão ausentes que de hoje em diante não receberão os mesmos cuidados e afeto que ele sempre lhes dedicara. De seu rosto ainda sobraram alguns traços másculos ao redor dos olhos e das bochechas, mas a destruição avançava: pálpebras caídas que dificultavam a visão, a perda de três ou quatro dentes que atrapalhava a mastigação. O que o deixou mais chateado com seus olhos, era que ele esperava encontrar neles um pouco de tristeza, o que descobriu foi desdém.
Mas o homem decidiu não brigar com nenhuma parte de seu corpo. Sua indecisão deveria partir de um corpo unido, e não de um que buscasse a guerra civil, para depois da vitória, eliminar os derrotados. Esse homem frágil observava cada canto de seu rosto, tentava descobrir as estratégias do tempo para criar riachos de rugas que sempre conduziam a lagoas de pele sem brilho.
Depois de algumas horas ocupando-se com assuntos fúteis, resolveu encontrar outros mais profundos, que pudesse debater consigo mesmo. A volta do relógio foi vã, o vazio espalhou-se como um gás volátil. Isso começou a irritá-lo, fez nova busca e voltou de mãos vazias. Ele precisava se conformar, era um homem superficial cujo corpo estava prestes a declarar guerra civil.
Sentado em sua insignificância olhava para o espelho, depois de experimentar raiva, sentiu-a cicatrizando-se. Uma espécie estranha de paz espalhou-se por seu estômago, era um lindo canteiro de flores, que encobria uma sepultura coletiva. Um covarde, muitos dizem, um sábio, afirmam outros, por ter ao mesmo tempo conseguido se livrar de todas as alegrias e tristezas. Foram-se os anéis, os dedos, a mão, o braço, o corpo, a esperança, a memória, o símbolo…
Os ouvidos, entretanto, mantiveram-se sempre muito atentos, percebia a água dentro das paredes preparando-se para jorrar assim que pensasse em abrir as torneiras, as tábuas do assoalho estalando sob o peso das décadas úmidas, o ruído do cheiro da palha seca que vazava por um rasgo no colchão. Mas nenhum barulho era humano.
O silêncio também rangia, vindo de todos os lados tinha a profundidade que ele não encontrava em si mesmo. Talvez não fosse tão ruim permanecer na superfície. Deitou-se na cama, sonhava ser surpreendido pela incoerência do sono, ser conduzido pelos doces caminhos coloridos repletos de medos inventados.
A madrugada espalhava seu cheiro de realidade pelo quarto, a cadeira e as cortinas continuavam sendo cadeira e cortinas. Seus desejos nadavam no fundo de um poço com paredes escorregadias. Os pulmões expeliam com violência as sobras de ar inútil. A lâmina da vida não conseguia atravessar a carapaça do tempo, e o que sobrava eram gotas de um sangue que coagulou antes de existir.
O silêncio é estilhaçado por passos longos e pesados vindos do corredor, o exato intervalo entre um e outro e a uniformidade do ruído, transformam aqueles barulhos em uma caricatura. A primeira reação foi uma agulhada de alegria, precisava do contato humano, a solidariedade da dúvida e do suspiro. Um instante depois se questionou sobre a utilidade dessa convivência. No segundo seguinte percebeu que mesmo se essa relação se provasse saudável, havia algo de apodrecido naqueles passos. A imagem de um porco devorando comida estragada revirou-lhe o estômago. O hóspede cobriu a cabeça com o travesseiro, enfiou os dedos nos ouvidos, mas continuou sentindo a suave vibração do chão de madeira. Uma interrupção. Segundos depois os passos recomeçam, ciclos perfeitos, ruído, silêncio, ruído, indo e vindo pelo corredor. Talvez abrir a porta e pedir que pare?
A mão não chegou a encostar na maçaneta, ele voltou para a cama, esperar, tudo desaparece, costumava mesmo passar as noites acordado. Os intervalos sem ruído aumentaram, mas quando os passos recomeçavam, a duração e a consistência das pisadas permaneceram imutáveis. Percebeu que por trás do barulho dos pés batendo na madeira havia um outro, muito sutil, que se parecia com o ruído do mecanismo de um relógio à corda. Tentou lembrar-se se havia algum no corredor, enxergou a tabuleta na recepção, a escuridão, o silêncio absoluto, mais nada. A procura mental emendou situações e arrastou para perto de si a figura do porco devorando imundícies, agora parecia que além do ruído, um cheiro insuportável vinha do outro lado da porta. Caminhou em círculos cheirando um vidro de perfume, seus passos cobririam o ruído vindo do corredor.
Aos poucos foi sendo arrastado para dentro de uma poça gelatinosa, perdeu o contato dos pés com o chão do quarto, batia as pernas tentando sustentar-se, mas sempre afundava um pouco mais, a luta durou horas, durante várias vezes preparou-se para aceitar o que vem logo após o afogamento, crispou os dedos esticando as mãos na busca da solidariedade atrasada. Não gritou.
Sufocava. Os travesseiros cobriam sua cabeça. Uma luz baça entrava pela janela. Demorou a localizar-se, onde estava, qual era sua história? Camadas de realidade eram cuidadosamente envolvidas em retalhos mágicos cujas cores vivas transformavam em sonhos a dureza cotidiana.
O silêncio vencera. O hóspede permaneceu mergulhado na manjedoura de prazeres, sentia o movimento involuntário dos músculos de suas pernas, o corpo recebia o merecido descanso, o espírito, embebido em licores etéreos que durante algumas horas afastam de nós todas as dores, dúvidas e alegrias, pedia para que os olhos fossem semicerrados em sinal de deleite.
As pálpebras abriram-se quando encontraram seus sapatos jogados no chão. O polegar esfregou o indicador, os lábios apertaram-se. Teve vergonha do prazer que sentira há poucos instantes. Precisava de mais luz. Abriu a janela do quarto e encontrou uma paisagem que poderia pertencer a três séculos diferentes, rua de paralelepípedos e uma fonte em bronze onde figuras mitológicas eram encobertas por jatos d’água. O dia estava cinzento, camadas de nuvens escolhiam maneiras diferentes de bloquear a luz, alguns fachos conseguiam escapar e brilhavam sobre a cabeça esverdeada de Juno. Àquela hora da manhã ele temia ter ideias, mas essa foi inevitável, olhou para as nuvens, para o seu quarto, para a fachada do hotel e para a fonte, tudo aquilo era construído com invisíveis placas de história, que eram as responsáveis por dar solidez a uma parede ou a uma vida. Mas essa descoberta era apenas parte de sua ideia, a vida como a conhecemos é uma mistura de história, desejos e frustrações.
Depois de decifrar como funciona a vida, o planeta e tudo o que há nele, o hóspede resolveu preparar um sanduíche de queijo. Contornou os sapatos caídos, deles queria distância. A primeira mordida espalhou um gosto estranho por sua boca. No espelho verificou se não mordera a língua. Sem encontrar ferimentos assustou-se com a tonalidade pálida que prosseguia por suas gengivas e só mudava para o amarelo quando se transformava em dentes. Continuou comendo o sanduíche, que a cada mordida trazia novos sabores inesperados. A simples fatia de queijo colocada entre dois pedaços de pão tinha um gosto parecido com o de um bife cru, levemente deteriorado. Aquela refeição, apesar de desastrosa, pareceu-lhe inevitável como a história. Aquela era sua história.
Deitou-se na cama esperando a chegada dos efeitos deletérios causados pela refeição. Sentiu uma leve sonolência e mais nada, os olhos semicerrados contemplavam a lenta mudança de luzes, o meio-dia foi-se embora e as manchas douradas espalhavam-se pelo chão do quarto, era agradável perceber mudanças. Ele não falou nada, não se mexeu, apenas contemplou mais um dia, visto inteiramente da cama do hotel. Sentiu-se feliz.
A noite chegou, e pela expressão do rosto do hóspede ele perdeu sua alegria, parecia preocupado, vestiu os sapatos e recomeçou a andar em círculos pelo chão do quarto. Fez isso durante horas, o suor escorria por seu rosto, e seus passos começaram a ficar arrastados. Quando deitou na cama tinha a camisa grudada ao corpo pelo suor, estava ofegante e não demorou a adormecer.
Os grandes pés marcharam sobre suas preocupações, que latejaram como nervos pinçados. Mergulhou para fugir dos ruídos, procurou flores, perfumes, o sorriso de crianças, encontrou o próprio quarto e seus olhos crivados de veias amarelas, olhando para o espelho. Antes de qualquer conclusão, trovoaram os passos.
Ecoavam pelo chão do quarto, mantendo o mesmo ritmo, mas soando com mais força. No fundo escutava-se nitidamente o som de algo parecido com a máquina de um relógio. Enfiou-se embaixo da cama e tentou cobrir a cabeça com o colchão. Inútil, as vibrações espalhavam-se por todos os objetos. Sua própria imagem vibrava quando se olhava no espelho. De repente o silêncio.
A alegria desconfiada do hóspede foi suficiente para que ele abrisse a janela e recebesse uma lufada de ar quente da madrugada, sentiu o cheiro que costuma anteceder a chuva, desejou que ela viesse logo e trouxesse o ruído dos pingos se chocando contra as telhas de barro. De repente um barulho que a princípio não conseguiu identificar, mas que depois percebeu serem os mesmos passos alternando ritmos. Os pés agora pisavam na madeira três vezes a cada segundo, e com cada vez mais força. O hóspede entendeu que quem estivesse do outro lado da porta, queria infernizá-lo.
Mais passos. Agora eram muito altos e rápidos e aconteciam somente em frente à porta do quarto. Por baixo dela ele conseguia ver os sapatos pretos e lustrosos se movendo. Decidiu escrever um bilhete pedindo ao homem que parasse. Enfiou o pedaço de papel embaixo da porta e logo uma mão enluvada o apanhou. Durante alguns segundos o homem misterioso leu o pedido do hóspede, depois o jogou no chão. Silenciou por alguns instantes. Só o que se ouvia era o barulho do relógio.
Chutou a porta do quarto com toda a força, depois começou a sapatear o mais rápido que podia. Com a ponta do sapato empurrou para dentro do quarto o bilhete que o hóspede lhe mandara.
O barulho contaminava tudo ao seu redor, a doença escorria pelas cortinas cinzentas, espalhava-se pelos cantos, por suas roupas, sua comida, pela flor seca que flutuava em um vaso, para finalmente invadir-lhe cada célula, ribombar dentro de seu estômago e pulmões até explodir dentro da cabeça, explosão cheia de ecos. A dignidade do hóspede estava sendo destruída.
Pareciam várias pessoas sapateando em frente a sua porta. As pausas eram estrategicamente estudadas para causar-lhe um dano psicológico ainda maior.O hóspede gritou com toda sua força, até perder o fôlego e ter um acesso de tosse. Quando melhorou tomou um gole de água, vestiu seus sapatos, urrava e andava em círculos tentando fazer o maior barulho possível. Mas a situação só piorava, os barulhos que vinham de fora eram sempre superiores aos seus. Ele desistiu, sentado na cama percebeu a janela aberta, aquele poderia ser um caminho, terceiro andar, talvez morresse ou ficasse paralítico, mas terminariam os barulhos.
Bem em frente à janela estava a porta. Abri-la e encarar o problema de frente. Sua coragem era suficiente apenas para a janela. Se tivesse certeza de que se abrisse a porta, seria agredido ou até morto, não recearia. Mas o problema era outro, não sabia por que, mas desconfiava que a força que produzia aqueles barulhos, era uma espécie de espírito de todas as guerras. Esse ser era construído por pesadelos, más notícias, choros desesperados, sofrimentos, dor, sujeira, fedores, fome, ódio, esperanças naufragadas, orgulhos, atrás da porta do quarto do hóspede escondiam-se as dores das guerras, e cabia a ele fugir delas, ou tentar lutar contra, para que elas não conseguissem escapar, já que pareciam bastante desconfortáveis onde estavam.
Essa inteligência maléfica diminuía-o. Se escutasse sua voz, obedeceria a qualquer ordem. O barulho dos pés era um grito: DeSeSpErO, e ele o acatava, o vento morno balançava a cortina da janela, o chão de pedras pedia pernas retorcidas e um rosto desfigurado. Os passos silenciaram, talvez para que todos pudessem ouvir o impacto de seu corpo. O hóspede olhou para o pão e o queijo que estavam sobre a mesa, sentiu pena de si mesmo. As últimas refeições de um homem sempre foram comoventes. Uma lágrima seca tentou, em vão, escorrer. A brisa cessou, as cortinas imóveis bloqueavam luzes, as cores perderam o viço e o espelho refletia sombras. O hóspede desistira de sua condição, queria abandonar o hotel. Havia escolhido a janela. Desamarrou os cordões dos sapatos, retirou as meias e, descalço, deu o primeiro passo, quase silencioso. A palma do pé sentindo a textura fria da madeira envernizada, nenhuma recordação, medo ou expectativa, apenas o desejo de pela última vez obedecer à vontade violenta dos sapatos do corredor.
O primeiro passo foi interrompido, o homem agora chutava sua porta, dez, vinte vezes, com toda a força. Ela começava a ceder, o sapato abrira um rombo na madeira,o caixilho perdia a fixação na parede, a fechadura não resistiria a mais alguns golpes.
Os estrondos, que tudo arrebentavam, acabaram rasgando indeterminações, inflaram vontades, mudaram a cor de veias oculares, que passaram do amarelo pálido para o vermelho sanguíneo, o hóspede recuou sobre os próprios passos e voltou a vestir os sapatos. As marretadas não soavam mais como ordens.
O destruidor devia estar descansando para reiniciar os ataques. O hóspede encosta o ouvido na porta e escuta, muito baixo, o ruído do relógio, nenhuma respiração ofegante, nem o peso de ossos estalando. Depois os passos recomeçam, lentos, sem convicção. Os chutes fracos soam como batidas de advertência.
O hóspede gira a chave e destranca a porta. Silêncio completo. Antes de sair do quarto ele tem a impressão de sentir o cheiro de matéria deteriorada. Na penumbra do corredor distingue a figura de um homem alto de paletó preto, que está imóvel e de costas, o que dá ao hóspede a impressão de alguém arrependido por suas atitudes.
Os restos dourados daquilo que fora um dia, arrastavam-se pelas tábuas escuras do chão, deixando a vista alguns pedaços quebrados de alguma coisa difícil de identificar. O hóspede dá dois passos na direção do homem, que permanece imóvel. Olha para os lados para ver se encontra algum relógio de parede, não descobre nem relógio nem seu barulho. Mais dois passos e o hóspede está atrás do homem, nota que por baixo do paletó ele tem uma espécie de calombo bem no meio das costas. Depois de refletir decide colocar uma de suas mãos sobre o ombro do estranho. Não há qualquer reação. A rigidez e a frieza assustam-no.
O homem de preto mexe lentamente um dos braços, um movimento desprovido de sentido, ergue o dorso da mão e encosta na própria testa. Um leve ruído de relógio parece vir de dentro do paletó. As luzes agora criam um halo dourado em torno dele. O hóspede espera uma palavra. O homem parece estar perdendo o equilíbrio, tem dificuldades para permanecer de pé. Encosta-se na parede, deixando de ser um anteparo para a luz que agora incomoda os olhos do hóspede. Ele cobre a testa com uma mão aberta e começa a identificar o que são os destroços espalhados pelo chão do corredor. Para sua surpresa descobre que são pedaços de sapatos de cerâmica, que se quebraram quando ele chutou a porta. Olha para os pés do homem de preto e percebe que vários dedos do agressor estão faltando, e devem estar dentro dos cacos de sapatos.
O corredor agora estava completamente iluminado por uma tonalidade de amarelo que só se encontra nas páginas envelhecidas de livros. O homem de preto apoia-se nas paredes com as mãos espalmadas, mas elas escorregam. Ele cai de rosto no chão. O ruído de louça quebrando-se, depois o silêncio. O hóspede sente apunhaladas suas vontades e esperanças. Um desespero seco faz com que ele junte do chão novos pedaços de cerâmica, e identifique o contorno de um queixo e uma boca sorridente. Depois descobre outro caco, onde dentro de dois olhos perfeitamente azuis, enxerga o reflexo dos seus, que apesar de parecerem envolvidos em uma bruma desesperada, começam a soprar para longe a fumaça escura, e tentam se transformar em um simples par de olhos.
A inércia do corpo caído lhe desperta fascínio. Precisa compreender a arquitetura daquela derrota. Tenta virá-lo para descobrir o que há por trás do rosto destroçado. O peso morto cimentou-o ao chão. O esforço é vão. A noite espalha-se pelo corredor. As cores se confundem e ele já não tem mais tanta certeza se o que tem nas mãos são os restos de um rosto. Mesmo assim sabe que não pode esmorecer. Se não consegue mover o corpo, decide despi-lo. Com a destreza de um agente funerário retira o paletó negro.
As sombras fazem com que desconfie de seus olhos. Com as pontas dos dedos percebe a saliência metálica em forma de “T”, que sai das costas do homem. A haste precisa ser girada para que aquela alma exista. Uma meia volta é suficiente para iniciar o ciclo, os ruídos frágeis e ritmados não conseguem animar nenhuma parte do corpo. A máquina amarga gira em falso como um relógio sem ponteiros, até perder o fôlego e ganhar silêncio.
O hóspede dá corda novamente, encosta o ouvido nas costas do homem, quer sugar todo o barulho. As engrenagens soam seus encaixes. O alívio espalha-se por seu rosto e só vai embora quando o ruído cessa. A escuridão parece aproximar do teto as paredes.
Os dois corpos são engolidos pela sombra única. Um deles sorri. Ama os instantes repetidos. Os ciclos que dão alma aos autômatos.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
