
Imagem selecionada do espaço digital WeMystic Brasil
O tempo passou rápido, mas ainda revia em suas retinas, momentos que vivera e sobrevivera em meados dos anos setenta. A verdade, a grande verdade, é que não sobrevivemos incólumes, nesta terra tão saudada e cantada em loas mil, como um verdadeiro paraíso terrestre, passara fome mas conseguira juntar alguns trocados com uns certos e incertos consertos de eletrodomésticos. E com a roupa do corpo, munido de muita coragem e esperança, embarcara rumo ao Maranhão. A viagem foi longa e penosa, de instante em instante lhe batia uma saudade danada de seu torrão e dos seus entes queridos que deixara sofridos e aflitos, sofrendo quem sabe pelo o abandono ou perda. Mas estava decidido, seu destino, era outras terras, outros ares, bares, lares e mares. E assim, um tanto atabalhoado, chegou a uma cidade de nome imperial, onde se encontrou com um conterrâneo, na época já chegado a pequenos trambiques corriqueiros. Era um indivíduo de baixa estatura, com um jeito engraçado de andar e falar, tão logo lhe avistou, aproximou-se e lhe saudou cortês:
— Como vais, Zé? Há quanto tempo! Como vai a terrinha?
— Tudo bem! Mas nossa cidade inclusive, acha-se cada vez mais quente e teima em crescer feito rabo de cavalo…
— Que pensas em fazer aqui? Perguntou.
— Ainda não sei! Vim atrás de oportunidade, emprego, serviço, sei lá o que. Estou numa pior, diz aí uma ideia!
— Acho que poderíamos abrir um terreiro…
— Que é isso! Não sou macumbeiro e não entendo disso e se for criação de galinha…
— Calma Zé, o caso é o seguinte…. E continuou a falar em interminável narração, contando as vantagens fantasiosas numa bela aquarela fictícia de celestiais cores. Zé foi deixando se levar pelo entusiasmo e em pouco tempo estava já instalado e personificando o “Grande Professor Vasconcelos “, de túnica branca, turbante de seda azul, enfeitado de penachos multicoloridos, colares de búzios e um mocassim delicado de pelica de couro suave, macio e leve. Estava com uma pisada levíssima, seu ambiente de trabalho, uma humilde tapera rústica e acanhada, com seus honoráveis despachos , de tão eficazes, fizeram fama e lhe trouxeram parcos e poucos cobres que transformou numa confortável chácara. Conseguiu com rapidez apreender e aprender os mistérios rentáveis do trambique. Nessa ocasião pode reconhecer todo seu talento artístico, interpretando divinamente o papel de Professor Vasconcelos, um profundo conhecedor das “ciências ocultas”. E ao som de embriagante dos atabaques, ao cheiro de incenso e fumaça de velas acesas de todas cores e nuances, jogava cartas, realizava passes sagrados em rituais brancos e negros e previa fatos olhando numa bola de cristal. Fazia tudo e muito mais no intuito de inebriar e de certo modo enganar os incautos. Possuía uma ética rígida de não receber pagamentos pelos “trabalhos”, apenas e somente aceitava algum agrado em caso de satisfação completa do cliente, afinal, ele sempre tinha razão! Durante uma boa temporada, conheceu a ribalta e uma certa notoriedade na pequena cidade, de professor esotérico, exótico, sério e competente. Porém, sempre tem um porém, uma vez encontrava-se muito cansado e exausto, quando lhe surgiu abruptamente, uma senhora elegante, aflita e nervosa e, na ânsia de livrar-se rapidamente, indagou:
— Minha senhora, o que a aflige tanto?
— Professor, eu pensei que já soubesses! Acusou.
— É um costume cordial que sempre faço. Por favor aproxime-se.
Ofereceu-lhe uma cadeira confortável diante a mesa onde se encontrava e falou-lhe ríspido:
— Estás vendo este baralho em tua frente?
— Sim… Respondeu temerosa.
— Embaralha e tira uma carta! Ordenou.
A senhora, lentamente e de mãos trêmulas embaralhou e tirou uma carta.
— Por favor, desvire a carta. Falou.
O ambiente ficou pesado e tenso. A mulher tremia e temia ver a carta! Também pensou, estava todo paramentado, com um olhar firme, fixo, sisudo e misterioso, talvez até aterrorizante. De repente num movimento brusco, a mulher desvirou a carta! Imediatamente, como convinha, o professor tomou uma atitude de assombro e estupefação!
— Dama de espadas! Exclamou.
— E aí, professor, fale!
— Há uma mulher!… Uma mulher misteriosa!… Traição… Mal balbuciou esta última palavra e a mulher levantou-se bruscamente exclamando em plenos pulmões:
— Aquele desgraçado me paga! Já está com rapariga de novo! Ele vai ver o que vou fazer…!
E retirou-se sem dar tempo ao grande, eclético e esotérico professor, apaziguar o feito. No mesmo instante, Zé sentiu um formigamento na espinha e um arrepio na nuca e pensou: Vou me encrencar. Acho que fiz uma grande besteira!
Dia seguinte percebeu a extensão da bobeira. A mulher era esposa do delegado, um homem de “maus bofes”, acostumado resolver seus problemas pessoais com a violência sádica e habitual de combate aos “subversivos”. Conseguia ver em todos que não se enquadrassem aos padrões normais, ações terroristas. Foi recolhido ao xadrez, torturado, conheceu eufórico, xenófobo e apavorado o “pau de arara”, uma técnica refinada de tortura criada por nossas “forças de repressão”. Teve sorte, o homem estava de bom humor e o liberou uma semana depois, após muita peia, com algumas articulações rompidas, uma costela quebrada e o corpo todo arroxeado. Tão logo se viu livre, juntou o que pode, e veio embora.
Hoje de volta a esta terra, vez por outra, lembra-se desta aventura no Maranhão. Foi uma alegre e divertida temporada, fala sempre, mas quando se relembra a surra, esquece, esquece tudo! E se alguém pergunta se ele quer passear no Maranhão, ele responde rápido:
— Não sou doido não!

José Lucídio Castro de Mesquita, natural de Reriutaba-Ce, residente em Sobral-Ce é engenheiro civil, advogado, professor universitário, amante e cultor da última flor do Lácio, como diria Bilac. Autor do livro de crônicas: Luzídios, Lúcidos e loucos.