
COTIDIANO
Eu também penso num tigre, mas acostumo, amanso.
Coloco tudo no espelho, silêncio e chuva caindo.
Solidão no rádio de pilha.
O prazer de quem escolhe caminhos deixando pistas.
Não ser trágica nem doce
porque o louco em mim não para nunca.
FILHA
Volto à casa, curada.
Os crimes cometidos foram de amor.
A mãe não dobra mais o lençol cor-de-rosa.
O pai, dimensão de achados e perdidos que conforta.
Tem sentido permanecer calada.
Ser ilha ou Lila?
Armadilhas e água.
Histórias não secam
nós é que fechamos os olhos de repente.
MORANGOS E SOLIDÃO
Na meia luz da varanda uma noite não dorme.
A mulher fala ao telefone serena de solidão.
O vizinho devassa seu escuro.
Tenho saudade de pirilampos e da mesa farta
de vestígios e bem-querer.
Agora há uma cadeira vazia
e sobras de morangos na geladeira.
Retiro da boca o batom.
O ar com pena de mim abre seu guarda-chuva.
CANTO GRITADO
Não falo do rouxinol nem da forma de amalgamar a falta.
Mas desse barulho de existir que tem apito e chora.
E desejos não passam feito trem.
O corpo continua aqui:
duelo de tempo, nome.
Esquecer?
Mata.
RENÚNCIA
Ainda é rútilo o cais que espero.
Por momentos nado.
O exercício de adormecer com as águas.
Daquele mar nenhum peixe a mais.

LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.