Coluna Luís Palma Gomes: Duzentos metros



A cidade reanima-nos, sobretudo pela possibilidade do anonimato.
 
Viramos a esquina, andamos duzentos metros e já ninguém nos conhece. Acontecemos ali com a possibilidade de nos reconstruirmos sem passado ou qualquer espécie de fama.
 
Mas, se quiseres continuar a tua história em vez de a inaugurares, podes sempre ir ao café do teu prédio. Esse lugar onde basta pedir: “É o costume, senhor Fernando.”

 
Amadora, 07 de novembro de 2026



Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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