A SENTINELA QUE FICA: Milton Rezende

Ilustração: Lilian Barac


Numa noite de chuva fria
eu havia saído para as minhas
pesquisas quando o encontrei.
 
O vento ventava forte
nas vigas velhas do casarão
e meus cabelos e minhas mãos
se emplastavam de teias de aranha.
 
Existe uma imensa solidão em mim
que me transborda e me faz percorrer
roteiros de silêncio e sem volta.
 
Meu encontro com a criatura proscrita
foi algo meio profético e enigmático
e na noite infestada de miasmas um
vulto cinza me falou em meio a sombras:
 
“Nada me prende a este cemitério
a não ser as dificuldades reais
de se transpor um corpo da sepultura.
Não me agrada nada esta arquitetura
mas há em mim esta herança maldita
que persegue minha família como uma sina.
  
As grades do muro e do portão de saída
são um limite e uma prisão fictícia e
nada me diferencia de você a não ser
a natureza das nossas dificuldades.
E o que mais nos aproxima é o estado
permanente da solitária decomposição
de nossas almas”.
 
E finalmente disse, já estertorando:
“O único elemento que nos distingue
é o estado de conservação da madeira,
nas tábuas já podres do meu caixão
e nas envernizadas que te aguardam”.
 
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências



Milton Rezendepoeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, reside em Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados, cinco e-books e tem um blog e um site.
Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).
www.miltoncarlosrezende.com.br
estantedopoetaedoescritor.blogspot.com

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