
Escolhi publicar, desta vez, algo diverso do que tenho apresentado neste espaço: um poema inédito. Foi, para mim, difícil escrevê-lo, porque o tema me afeta: o recente caso do menino assassinado pelo próprio pai (em Palmas, Tocantins), que me condoeu profundamente, assim como outros episódios semelhantes. Meu modo de lidar com o sentimento pessoal e com o propósito de criação foi compô-lo num registro elevado, em versos decassílabos heroicos, em diálogo com uma tradição que tudo já mostrou de violência, sofrimento e condição humana.
AO MENINO MORTO
Em sonho visitei o Hades profundo:
um recurso, que a mim se fez fecundo,
para encarar a dor estranha, alheia,
fincada no meu peito como ideia
fixa de um vão tormento pelo ser
que sofreu muito além do merecer.
Eis que veio, então, a alma do menino
de só três anos muito mal vividos,
que mal tinha palavras a dizer,
e de tanto chorar, sem responder,
mantinha a boca aberta, e nem ouvia
o que eu dissesse nesse avesso dia.
Como pôde seu pai bater-lhe tanto,
deixando-o morrer só, naquele canto,
ferido pelo que não entendia,
como não saberia que existia?
É isso que ele iria perguntar
só com lágrimas, sem nada falar,
porque tão pouco vira desta vida,
que só tinha agonia em voz contida
nos soluços que soavam mais convulsos
na tenra criança, tão mínimo vulto;
mas do espectro assustado se agiganta
o pranto agudo de uma dor tamanha
que fundo cala em minha alma assombrada
por todo o mal que assim se faz por nada;
e nas trevas não vejo que luz possa
vir a ser a palavra que o consola,
o gesto que compense a dor que sente:
nada há, nenhum dom que se consente.
Almejaria um sonho iluminado,
paraíso de luzes adornado,
para receber a alma padecida
de selvagem tortura infanticida;
mas falho em projetá-la no ar celeste:
desço com ela aonde o humano desce.
(Marcelo Tápia, agosto de 2026)

Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.