“CADA ANCIÃO QUE MORRE É UMA BIBLIOTECA QUE SE QUEIMA”, crônica de Eneas Barros

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Essa frase é atribuída ao africano Amadou Hampâté Bâ e acabou por se transformar em um provérbio. Para mim, seu uso é exponencial, atingindo ensinamentos que desde pequeno aprendi, sobre a importância do respeito aos mais velhos e de que devemos sempre ouvir os seus conselhos. Hoje, eu acrescentaria que, além de ouvi-los, devemos gravá-los! Insisto: gravar suas lembranças, arquivar suas histórias para que um mundo de informações não vire pó.

Quando uma pessoa morre, não se vai apenas um corpo, mas todas as informações acumuladas durante sua vida e que estavam guardadas em algum lugar do cérebro, captadas pelos cinco sentidos. Muitas famílias assistem à velhice de seus entes queridos sem lembrar de perpetuar suas memórias. Lá estão os dados que poderão enriquecer os livros de história ou de crônicas de uma época que não volta mais, a não ser pelas lembranças que necessitam de um pouco mais de atenção. Vou dar um exemplo.

Durante uma apresentação da orquestra Johann Strauss, do maestro holandês André Rieu, em São Paulo, exibida pela Sky, assisti a uma cena que me comoveu bastante. As sopranos brasileiras Carla Maffioletti e Carmen Monarcha e a sul-africana Kimmy Skota cantavam “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá, imortalizada no filme Orpheu Negro, de 1959. Vou relembrá-los os versos:

Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás.
Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus.
Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor.

A câmera passeava pela plateia, destacando a emoção das pessoas, o choro e o ar de extremo prazer diante de uma música magnífica e uma interpretação impecável. Um close foi dado em um senhor de idade, que exibia um choro contido, levando as mãos ao rosto, como se a música de Luiz Bonfá tivesse descoberto o esconderijo de uma grande lembrança.

Aquele momento, aquela forte emoção sentida por aquele senhor traduziu uma vida inteira, um retrospecto, uma impossibilidade de voltar no tempo, atingindo em cheio as suas mais belas memórias. Talvez um grande amor, quem sabe. Aquele pequeno gesto, olhos avermelhados, lacrimejando, o movimento das mãos e o olhar fixo no passado me tocou bastante. E só os saudosistas, como eu, entendem o quanto uma música, um perfume, o cheiro no ar são capazes de nos transportar diretamente para um certo momento que não volta mais, por isso dói muito.

Quantos mais estão mergulhados em lembranças que ninguém se importa, mas apenas eles mesmos? Manuel da Fonseca, em seu poema “Noite” — parte do livro “Rosa-dos-Ventos” — foi mais incisivo:

Noite
(Manuel da Fonseca)
 
Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite!
As velas rasgadas de todos os ventos
os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo na vaga
tocando nas rochas!
E quantos e quantos naufragando…
Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!



Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

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