
Fonte:: https://diariodoengenho.com.br/os-bons-tempos-correio/
Ficou célere na história literária o gênero epistolar, o da correspondência entre escritores. No exemplo brasileiro, ficaram conhecidas as cartas de Mário de Andrade (1893-1983) trocadas com vários escritores que se tornaram também famosos. Mário era um grande epistológrafo. E sua correspondência se dirigia tanto a contemporâneos dele quanto a jovens aspirantes, caso de Fernando Sabino(1923–2004) e outros mais ao atrativo e ao mesmo tempo movediço e escorregadio mundo das letras.
Ao lado, porém, de cartas permutadas entre escritores, há que considerar as cartas familiares, esse tipo de correspondência que, nas mãos de um bom escritor, torna um texto literário sedutor. No Brasil, ficou famosa a correspondência diária entre Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde, 1893-1983) e sua filha, uma freira, uma troca íntima de conversa impressa entre pai e filha, um raro exemplo de constância epistolar.
Sem ser um escritor famoso, quero registrar também um belo caso de correspondência entre pai e filho que se prolongou durante praticamente 26 anos nos quais meu pai, o jornalista Cunha e Silva e eu trocamos uma soma considerável de missivas entre o Piauí e o Rio de Janeiro. Assim que cheguei ao Rio, papai logo deu início a um longo percurso epistolográfico, enviando regiamente suas bem-aguardadas cartas a um jovem piauiense de 18 anos vivendo os primeiros dias de experiência de vida carioca. De início, posso ressaltar uma característica epistolar paterna: a regularidade com que me mandava correspondência. Em troca, eu me atrasava nas respostas, o que o deixava muito preocupado e às vezes aflito mesmo com o meu silêncio, que para ele era sinônimo no mínimo de doença ou outra situação grave. Papai sustentou essa pontualidade britânica até à morte, em 1990, já muito doente e bem acabado para a idade.
Não sei o que foi feito da correspondência que lhe remeti durante quase três décadas. Não sei tampouco se papai a guardou em seus arquivos particulares. Não me tenho na conta de muito organizado com papéis que mereciam toda a minha deferência e meus cuidados, mas guardo ainda parte daquilo que ele me escreveu. Muita coisa se perdeu, visto que cá no Rio mudei muito de residência e, em tal circunstância, muita coisa se perde por mais cuidado que se tenha. Um dia, vou a Amarante saber se lá existe parte das minhas cartas a papai.
Há alguma importância cultural nelas? Para mim, julgo que há, porque a correspondência que mantive com ele extrapolava sempre o mero relato do meu dia a dia carioca, quer dizer, a parte íntima e pessoal de minha vida durante o longo período da nossa correspondência. Ambos comentávamos sobre o país, a vida política, a vida literária, o custo de vida, os nossos planos, os nossos ideais e esperanças. Isso tudo me parece relevante, já que marca o modo dos tempos e das grandes mudanças por que o país atravessava.
Entretanto, as nossas ideias trocadas juntos inapelavelmente se voltavam para o terreno cultural, para a apreciação e comentário que eu fazia sobre a produção jornalística dele. E é nesse ponto que vejo a utilidade literária de nossa reciprocidade epistolar. Recortes ou mesmo jornais inteiros com artigos dele saídos em jornais de Teresina, sobretudo da fase longa e fecunda de sua atividade de colunista no jornal Estado do Piauí, de Josípio Lustosa. Algumas matérias dele não eram assinadas, valiam como editoriais, ou, para usar um termo daquela época, artigos de fundo. Eram muito deles escritos com notável precisão analítica e bom gosto. Sabíamos os seus leitores cativos que eram de sua autoria pelos traços estilísticos que os sinalizavam.
Outra característica dele, além do artigo em geral de cunho político, era que de quando em vez publicava apreciações críticas de livros de escritores da terra ou de fora que, no meu juízo, revelavam um pendor para a crítica literária. É óbvio que, ao longo de 26 anos de correspondência comigo, ele publicara artigos em outros jornais de Teresina. Papai escrevia freneticamente. Lia muito, e costumava ler deitado em sua rede. Tinha uma extraordinária facilidade no manejo da pena, da qual saíam artigos fluentemente concatenados, prontinhos, quase sem rasura, o mais da vezes, para serem levados às redações dos jornais. E ele era rigoroso na revisão de provas. Disso sou testemunha desde menino quando lhe ia buscar a saudosa “prova do artigo” no jornal O Dia, do Mundico Santilho (ou Santilo, não sei ao certo) no início da década de cinquenta.
Quando, porém, passei a escrever também ainda adolescente no Piauí e, depois, já no Rio de Janeiro, recebi dele o incentivo constante. Quando, durante um bom tempo passei sem escrever para o jornal, ele me recriminava argumentando que eu não podia continuar inativo intelectualmente. “— Cultura engarrafada’, meu filho, não serve pra nada” Dou-lhe razão até hoje.
Nós nos admirávamos e talvez até deixávamos escapar os comentários tendentes a alguma crítica negativa de ambos os lados. Parte de minhas cartas se transformava em pequenas resenhas sobre os artigos dele. O tom geral das minhas ponderações críticas era mais para o aplauso e o entusiasmo do filho que lia o pai. Sempre o estimulei e ele a mim. Não podia ser de outra forma. A admiração nos cegava a ambos. Isso era um defeito nosso? Não do ponto de vista filial-amoroso. As cartas, como se sabe, foram escritas durante todo o período da ditadura militar, e depois, com a volta à normalidade democrática no país.
Acredito mesmo que os comentários que lhe dirigia aos artigos foram muito proveitosos à minha produção futura. Aquilo foi um aprendizado da escrita e por isso é bem provável até que o meu estilo literário, reforçado no dia a dia da leitura de jornal, nunca tenha se contaminado de uma forma hermética de comunicação das ideais, ainda que sejam expostas no gênero ensaístico ou da crítica. O grande crítico Antônio Candido (1918-2017) uma vez recomendou a quem escreve que não descure de ler jornais e olhe que o crítico da Formação da literatura brasileira é modelo de clareza e ao mesmo tempo profundidade de pensamento. A minha convivência com a leitura do texto jornalístico e principalmente vendo o modelo paterno talvez explique o meu modo de escrever atual.
Contudo, estranha e curiosamente, há leitores que não valorizam o escritor claro, leve, fluente e objetivo. Põe-no na conta de superficial dado que seu estilo não se pauta pela complexidade na formulação do pensamento. Ser difícil ganha status especialmente na visão do leitor acadêmico. Ou seja, o valorizado passa a ser o ininteligível, a escrita cifrada tão comum em textos de muitos intelectuais de hoje. Para ser respeitado cumpre escrever com estilo apenas acessível a alguns iniciados.
Longe disso, leitor, construímos e consolidamos a nossa correspondência, na qual certamente se relatam ou se narram não só a afetividade mútua de pai e filho, mas também o registro histórico-biográfico de duas pessoas que se estimavam acima, muito acima da rigidez incolor do pensamento de alguns letrados.

Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996); Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional (Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124); Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009); As ideias no tempo (Teresina: APL/Senado Federal, 2010); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica); Contos selecionados de José Ribamar Garcia (Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2017). Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site Entretextos. Assina o Blog As ideias no tempo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União Brasileira de Escritores (UBE, seção Piauí). Cunha, desde 2017, escreve sobre Literatura, especialmente brasileira, também para a Revista Orizont Literar Contemporan, (OLC), Revista romena sediada em Bucareste, Romênia.