Coluna Guido Viaro: 10 poemas

Ilustração: Roza



A sujeira no chão ou as espinhas no rosto nos ensinam algo.
O espelho desnuda um retrato vazio,
Olhos apagados e um nariz pronto para desaparecer.
Mas essa imagem também é ensinamento,
Assim como os retângulos coloridos nascidos quando fechamos os olhos.
 
Não há um único instante em que o homem não possa aprender.
Mas isso só acontecerá se encontrar em sua figura,
Os reflexos dos próprios olhos.
 
***
 
Sobre o roseiral do tempo
Flutuam nuvens, sóis e luas.
As noites são manhãs iluminadas,
Que mancham com dourados os botões,
Flores que se abrem como relógios sem ponteiros,
Cujos mostradores circulares refletem o malva.
Cor indecisa que mistura odores, luzes e tempos.  
 
***
 
Nos olhos ariscos da ave encontrou a vida,
Em sua manifestação mais evidente.
O bico agudo transformava essa força em som.
Então percebe também homens, orquídeas, mosquitos,
E uma miríade de outras formas vitais gritando suas existências.
 
Ninguém suspeitava que o céu silencioso
Pudesse ser a origem dessa força,
Que se opunha ao nada, desafiava o eterno,
Para então render-se.
 
Do alto desciam escuros que se fundiam com todas as formas de esperança,
Com cada nível de consciência, com manifestações invisíveis,
Sem consistência, com o que ainda vai existir,
E todas as gerações que a elas antecederam.
 
O arco íris noturno atravessou outras barreiras,
Cuja descrição ultrapassa o poder das palavras.
A testemunha silenciosa desistiu da busca por sínteses ou sentidos.
 
Escutou a noite em toda sua grandeza.
 
***
 
A grota pinga luzes sobre os dias esquecidos,
Transformando ruídos em colunas.
A massa compacta de ar expulsa o tempo,
Criando uma ilha de existir.
Bolsão de cores sem testemunha,
Desafiando os milênios dramáticos,
Que não cansam de serem encenados uns poucos metros acima.
 
***
 
Abro o dia,
Por meus olhos entram os acontecimentos,
Entrelaçados como elos de uma corrente.
As horas arrastam paisagens,
Nas margens do rio está tudo o que enxergo,
Aquilo que significa. O que sou.
 
Sou o que vejo, as cenas que escuto.
Mas tudo está separado de mim pelas águas do rio.
Percebo então, que aquilo que vejo, e o que julgo ser,
São parentes distantes de mim mesmo.
Há o céu com suas luzes, nuvens e noites,
Um novo mundo que parece funcionar de outro jeito.
 
A corrente se rompe.
Aspiro ar puro e percebo que nada mais me separa das margens do rio,
Ao meu lado, além daquele que acredito ser,
Há planetas iluminados e animais extintos,
Vejo todos os tempos acontecendo simultaneamente,
Contemplo nascimentos e o esplendoroso fim do universo.
 
O barco em que navegava jaz sobre o leito seco do rio.  
 
***
 
Assim como as águas evaporam para chover sobre o mundo,
As esperanças e o vazio fazem o mesmo.
Exalam de homens, sobem aos céus para então molhar outras pessoas,
Que dependendo dos líquidos, enchem ou esvaziam pulmões.
 
Há também olhos passivos, que miram o horizonte sem entusiasmo,
Mas que após receberem algumas gotas vindas do alto,
Brilham como faróis iluminados, poços coloridos sem fundo.
 
Isso porque o que os molhou foram gotas de amor.
 
***
 
Há muitas décadas, em uma noite de verão,
Uma lâmpada iluminava a rua deserta.
A pequena cidade silenciosa dormia,
A luz pouco podia contra a noite,
Mas desenhava formas geométricas no chão,
Traços que a manhã derretia.
 
Os habitantes da cidade ignoravam o fato,
De caminharem sobre um cemitério de sombras.
 
***
 
Nos trilhos do tempo, os vagões das antigas gerações
São puxados pela locomotiva do indivíduo.
É ele quem desbrava o instante,
E mantém acesa a chama do eterno.
 
***
 
Diante dos impérios e verdades
Encobertos por camadas de terra e tempo,
Ergue-se um sorriso irônico,
Que encontra no ritmo do vento e na disciplina das ondas,
A perenidade que não enferruja.
 
***
 
No fundo dos olhos do semelhante,
Um observador arguto reconhecerá camadas do mundo.
Descobrirá a folha seca sendo arrastada pelo rio,
E os papéis coloridos que embrulharam os presentes da infância.
Encontrará o instante em que a esperança seca,
E o segredo intrincado da costura dos tapetes persas.
Reconhecerá misturas de todos os tamanhos e consistências,
Para só então perceber os olhos e o homem,
E finalmente se solidarizar com cada um de seus pedaços,
E com o conjunto misterioso que eles formam.





Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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