Coluna Guido Viaro: A Laranja Verde/Capítulo 10

Ilustração: Owen Gent


A laranja madura desprendeu-se do galho e encerrou o sonho do jovem. Ele demorou um tempo até entender o que havia acontecido. A fruta havia rolado alguns metros, e foi só quando a pegou na mão e a olhou contra o sol que conseguiu se lembrar do que estava sonhando há alguns instantes        
                                      
Entristeceu-se, e durante algum tempo tentou adormecer novamente para retomar o sonho de onde havia parado. Logo percebeu que isso seria impossível. Talvez pudesse continuar os mesmos raciocínios acordado. Mas aquilo não eram apenas raciocínios, eram sensações. A plenitude não pode ser descrita em palavras e ideias, ela é a sequência de muitas palavras mentais.             
 
Aquilo acabaria se transformando em memória e depois seria jogado dentro do imenso fardo mental que carregava e que parecia, além de pesado, constituído por alguma substância corrosiva que lhe queimava o dorso da alma.    
                                                                       
Talvez as coisas fossem assim mesmo, e o destino humano se resumisse a carregar pesos, até que os músculos enfraquecessem e o fardo nos esmagasse. Depois de um silêncio reflexivo que só pareceu aumentar o peso que carregava, decidiu que dessa vez precisava de gente. Voltou para o centro da aldeia, que a essa hora do dia estava cheio. Algumas mulheres cozinhavam e os homens estavam sentados ao redor do relógio de sol.                                                  
 
Não demoraram a puxar conversa e ele se entregou, a pesca, as chuvas, as novidades do grupo dos rochedos. Depois do almoço, continuou conversando com quem passasse. Evitou seus companheiros de experimentos com os sonhos, queria a sensação, o instante corriqueiro, a pequena esperança. Nutriu-se de sorrisos sem responsabilidades, engoliu pedaços de sardinha mergulhados em azeite de oliva, e as marcas do sol no prato branco e amarelo pareceram gotas de alegria caídas do céu. Com um pedaço de pão duro como madeira limpou a camada viscosa que cobria o prato e mastigou tudo acreditando que, assim como seus ombros tinham se acostumado a carregar fardos imaginários, seus dentes também possuiriam a mesma valentia.                                                                       
A beleza de uma das jovens da aldeia foi a próxima chibatada que os sentidos fizeram estalar sobre seu lombo. Ele percorreu o corpo dela em busca de algum defeito. Era um louco procurando o sol à meia-noite. Nada encontrou. Ela foi embora, mas carregou-o junto, entretanto seu corpo permaneceu onde estava, até que o próximo prazer esquentasse sua pele ou temperasse suas papilas gustativas. 
                                                                                                              
Foi quando o jovem abriu um parênteses no mundo sensorial e mergulhou em águas reflexivas: Assim como os sonhos também possuem vários níveis de profundidade, na vigília acontece algo parecido. Mas a profundidade, ou a falta dela, não representam por si só uma qualidade intrínseca, ambas, e também todo o resto, só têm algum valor absoluto quando relacionadas a outros valores. E isso vale para tudo o que existe. Quem não compreende isso, acaba tentando a todo custo descobrir um veio de riquezas que tentará transformar em fonte de prazeres. Conseguirá, por algum tempo, mas depois o prazer se tornará repetição, e ela, a repetição, se transformará, primeiro em obsessão, depois em dor. Se havia muitos caminhos bifurcados, alguns que deveriam ser percorridos no escuro, outros cujas curvas não permitiam que se descobrisse o futuro imediato, esse caminho, o da busca incansável pelo prazer, era claro e direto, e sempre levava a um abismo em cujo leito uma imensa boca escancarada feita de rochas afiadas, esperava por aqueles que, sem se importar com o próprio destino, marchavam a passos certeiros para o desastre.   
                                                                       
O mistério parecia muito mais interessante do que a dor. E ele era tanto, escondia-se dentro dos musgos tímidos que decoravam pedras distantes, amarrava-se a terceiras pedras que, junto com outras duas, cada qual espelhada por um canto, formavam um símbolo que precisaria ser decifrado. O mistério estava na cor e no amargo, era a pedra no sapato e a luz que mergulha entre as densas copas das árvores e desenha sobre o verde da relva o amarelo que vem de cima. E também era mistério a dor, que para outros podia ser certeza, mas que também escondia suas sombras e segredos.   
            
O dia estava frio, e as brasas vermelhas aqueceram suas mãos. Assoprou-as e nasceram duas pequenas chamas que transformaram seus pés em matéria feliz. Dois gravetos fizeram a chama rejuvenescer e o calor espalhou-se por seu corpo, a luz do dia completou a plenitude e a juventude que, assim como grandes peixes vermelhos, subia à tona para respirar, parecia não temer que as águas secassem, pois era tão robusta que, assim que os peixes se debatessem sobre a lama, imediatamente ganhariam pernas e pulmões e continuariam suas vidas como se assim sempre tivessem vivido.   
                                                                                              
Foi com essa força e certeza que percorreu o caminho imaginário até a mais bela jovem do vilarejo, que avistara fazia pouco. Encontrou-a banhando-se nua na lagoa. Nenhuma palavra foi necessária. Mergulhou nas águas que se tornaram suas e dela. Um novo universo poderia ter nascido ali mesmo. As cores se misturaram, o branco manchou a rosa vermelha e então a paz teve o tamanho da plenitude das laranjas.   
                                                        
Depois voltou para o lugar de onde nunca saíra, molhando as mãos no calor das chamas e percebendo como, mesmo durante um dia sem nuvens, as cores do fogo dançam suas sombras sobre um chão que parece não preparado para essa poesia, e que não grita para os outros a beleza que acontece sobre seu ventre. O jovem sorriu por conseguir contemplar aquele espetáculo. Aquela era uma das surpresas que as curvas sobre o precipício proporcionavam. A juventude tinha a capacidade de tornar cada tonalidade mais brilhante e viva. Ele não sabia que as coisas não seriam sempre assim, portanto apesar de já carregar consigo um peso considerável, esse fardo ainda não fazia parte de sua carga.                   
 
Muitos outros seriam adicionados ao longo dos anos, mas também haveria peso abandonado, que logo mais seria dispensado, isso fazia parte da vida. Mas essa é uma informação fornecida pelo narrador, e mesmo ele, não tem certeza de nada. De toda forma, apesar de não serem necessariamente seres espelhados, narrador e personagens carregam muitos pesos que desconhecem, caminham por trilhas escuras, caem, se levantam, desistem e depois desistem das desistências, até finalmente, não desistirem mais, pois se conhecemos suas histórias é porque, pelo menos até o final de alguma das trilhas, conseguiram chegar.   
                                            
A vida lambia seu rosto e o jovem sentia sobre a testa o gelado assopro do vento. Seu sangue inquieto fervia, e seus pés sonhavam em pisar todas as pedras do mundo. Encheu seu prato de sopa e antes da primeira colherada ficou contemplando a fumaça que subia lenta. Depois encontrou nuvens que talvez pudessem ser a mesma fumaça acumulada no céu. Não queria perguntar, apenas viver. Mas não é sempre que temos aquilo que desejamos. Não seria a vida aquela fumaça da sopa, que enquanto o prato (ou o corpo) estão quentes, escapa, e a esse inútil fluxo sem direção conhecida, chamamos de vida? E depois, talvez, aquela fumaça que, abandonou sua fonte de calor, rumará em uma determinada direção, onde encontrará muitas outras, e juntas formarão uma nuvem, ou consciência, que não apenas será a soma de muitas delas, mas possuirá sua própria individualidade.  
                                          
Sentiu o calor em sua língua, o sabor dos vegetais e da carne. Depois experimentou a saciedade, e seu corpo recebendo a energia enviada pelo alimento. As nuvens e a mata, o mar e os rochedos, todos os animais, as pessoas e as plantas, tudo pertence ao jovem. Não especificamente a ele, mas à juventude de que ele usufrui nesse instante. O tempo, que um dia será seu inimigo, agora, o cobre de elogios e presentes. Portanto, não são apenas todas as pedras do mundo que devem conhecer seus pés, cada teto, útero, lago e sorriso devem conhecer seu reflexo. Ele deve ser como a lua espalhada por poças d’água após a chuva. Não haverá segredo por demais escondido ou rocha por demais pesada, tudo conseguirá mover com a força de seu espírito.                                                                     
E cada novo passo servirá de aprendizado, outros rochedos servirão de lições e nada evitará que conquiste o que nenhum outro conseguiu. Aos desânimos combaterá com a luz vinda dos céus e com as estranhas cores que os lagos assumem em determinadas horas. Essa matéria abundante e gratuita servirá de combustível para suas vontades. Nada ou ninguém terá a capacidade de atrapalhar a sua evolução.  
                                                                                      
Quando a sopa terminou ele olhou por um instante o prato. Duvidou de seu prévio entusiasmo. Cada colherada um pouco menos de viço e vontades, até terminar com um prato vazio, que só serve para ser lavado para que outra refeição possa ser servida. Não deveria confiar na amizade demonstrada por alguém tão pouco confiável quanto o tempo. Mesmo assim, sentia a mão quente dele sobre seus ombros e não tinha coragem de retirá-la dali e pronunciar palavras rudes para aquele que, durante toda sua curta vida, só lhe fizera o bem.  
                                                                                                
Antes de se levantar, porque suas pernas pediam movimento, teve de suportar mais uma hipótese, ele e todo seu entusiasmo, seus prazeres e desejos, suas memórias e sonhos, tudo aquilo que considerava realidade, poderiam não passar dos sentidos experimentados por alguém que estaria sendo sonhado. Isso mesmo, ele poderia não ser nada além de um personagem no sonho de alguém. As opções aumentavam, as estradas se bifurcavam, não havia apenas o mundo da vigília e o dos sonhos, esse segundo poderia possuir muitos personagens e nada impedia que ele mesmo, fosse uma figura secundária. A maior prova contrária a essa teoria era que ele, reconhecia-se como o centro, como o principal, astro ao redor do qual os outros orbitavam. Mas o mesmo não aconteceria com cada pessoa?                                                                       
 
Haveria alguém que, para si mesmo, fosse um personagem secundário? Se existisse, essa eventual pessoa também conseguiria se eximir das dores mais agudas e das felicidades instantâneas. E caso essa teoria fosse confirmada, e ele realmente descobrisse que tudo o que entende por si mesmo, não passava de um sonho alheio, quem seria essa pessoa?    
                                                                          
O jovem sabia que a abertura de muitas frentes de pensamento acaba sempre gerando imobilidade. E isso era a única coisa que não queria naquele momento. Depois dos primeiros passos sentia uma energia tamanha que achou que o cansaço jamais poderia alcançá-lo. O sol, apesar de não conseguir vencer o frio, espalhava sobre sua pele um gentil acolhimento, o suficiente para que nenhuma força do universo perturbasse suas certezas, mesmo que sua mente, que também funcionava com a mesma energia e rapidez, o informasse que tudo poderia mudar de um instante para o outro, e que nada possuía qualquer solidez.                                                                              
As águas do lago tinham a temperatura que o universo julgou adequada para um homem, ao mesmo tempo tão forte e frágil. O frio endureceu seus músculos, mas não o suficiente para que não conseguisse nadar, e descobrisse odores e cores que pairavam sobre aquele mundo. O céu era a tampa da panela onde fervia o grande ensopado de vida. A pedra escura absorveu calor suficiente para aquecer seu corpo, depois veio a paz e em seguida o que costuma sucedê-la. Isso mesmo, desde que nascemos nunca conseguimos interromper nossos fluxos de pensamento. Uma coisa leva a outra e quando menos percebemos estamos perdidos dentro de um labirinto e nos esquecemos do que estávamos procurando no início. Nem ao menos nos lembramos de que todo labirinto possui uma saída.                                                                                                     
 
A vida o conduziu à morte, o sonho à vigília, depois de volta à vida e aos sonhos. Quem garantia que aqueles sonhos imensos, que tivera sob o laranjal, não eram apenas uma minúscula semente de uma única laranja de um bosque sem fim de laranjeiras? E nesse exato instante, deitado nu à beira do lago, quem lhe garante que esse acontecimento não pertencia a alguém que, de olhos fechados estava criando uma realidade que ele, ali, sentindo calores e cheiros, erroneamente, acreditava ser sua?
                                                 
Não havia garantias de nenhum dos lados. Todos estavam sujeitos a tudo e nada era absurdo o suficiente para não poder acontecer. Sorriu. Muitos quilos escorreram de suas costas e afundaram nas águas do lago. O universo, ou eles, os muitos universos, eram lugares absolutamente seguros, as tragédias se transformariam em festas e vice-versa, todos conheceriam glórias e derrotas. Tudo e todos brotariam e secariam, para voltarem a secar e brotar indefinidamente. Viveria os sonhos quando estivesse dormindo, mas, da mesma forma e com a mesma intensidade, se apegaria ao cotidiano, aos seus contornos ocultos e sombras açucaradas, enquanto estivesse acordado. 
                                                      
As respostas procurariam suas perguntas, as perguntas pescariam no fundo de mares escuros suas respostas sem olhos. Nenhuma delas conheceria a plenitude, porque tudo, sempre, emenda-se a outra realidade, tudo continua, as formas se modificam, os verbos tornam-se substantivos, a lua derrete sua imagem em pontos luminosos flutuando sobre gotas esquecidas pela tempestade sobre a relva. E era isso. O peso que não mais pesava sobre seus ombros não estava livre da regra da transformação. E agora, que sentia os ventos da liberdade assoprando ao seu redor, eles substituíram o peso que havia jogado fora. A liberdade pesa tanto quando a servidão. O jogo era perfeito e não deixava nenhuma ação sem a respectiva reação. O que faria de sua vida, já que, em teoria, poderia fazer tudo o que quisesse?                                                 
 
Por um instante pensou em voltar atrás e deixar a liberdade de lado. De nada adiantaria. Precisava suportar aquele peso até que suas vértebras se tornassem frágeis demais para carregá-lo e ele fosse arrastado para o chão e só o que poderia fazer seria assistir ao inexorável movimento dos astros celestes. Vestiu suas roupas e com o pesado fardo nas costas, orgulhou-se do vigor de seus músculos, que mesmo carregados, não o impediram de caminhar com razoável

Voltou para a aldeia, que lhe pareceu mais acanhada e provinciana do que nunca. O relógio de sol indicava que sobre aqueles pobres telhados pairavam forças muito maiores. Seria ao lado delas que desejaria estar? Ou se contentaria em ser um prisioneiro que possui a chave de sua cela, e mesmo assim aceita permanecer dentro dela?                                                                                
 
Talvez a vida consistisse em um permanente  adiar, as grandes perguntas seriam sempre substituídas por coisas sem importância, então, assim como frutos sem sementes, apenas derreteriam. As próximas gerações precisariam novamente sentir incômodos na alma, perguntar para o universo, para então, mais uma vez, substituir a dúvida pela pequena certeza.
                                                
Enquanto refletia sobre esses assuntos o jovem acreditou que, talvez ele mesmo pudesse ser uma exceção, e que por nada no mundo substituiria em sua vida o fundamental pelo desnecessário. Não importava as penas que isso acarretasse, ou as falsas glórias que o outro lado oferecesse. Um instante depois sorriu, continuava jovem, e essa condição mantinha intacta a certeza do caminho escolhido. As dúvidas e fraquezas não têm origem em uma decisão racional. As coisas acontecem de maneira sorrateira, uma dificuldade ali, umas dores aqui, aos desgastes são somados os suores e em um momento de desânimo, surge a vontade de desistir. É nesse exato instante que alguém deixa de ser jovem.
                                         
Mas, como esse ainda não era seu caso, ele sentiu que o único caminho era o movimento. Caminhou até que a aldeia se transformasse em um filete de fumaça que se erguia na direção do céu. Não tinha planos, mas dois pés vigorosos que escolheram uma direção e por ela seguiram. Acompanhava as areias da praia, percebendo a sutil mudança na coloração do mar e na vegetação que envolvia as areias.   
                                                                                
Nenhum sinal de outro ser humano. Mas isso não fazia falta, pois sentia que a sua porção de humanidade era suficiente. Talvez fosse até excessiva. Aceitaria se tornar menos humano se conseguisse ser um pouco mais mar ou vento. Mas esse era um longo percurso, muita praia ainda precisaria ser percorrida. Sentado e de olhos fechados sentiu. A brisa e o ruído das ondas, o cheiro, a consistência das areias e o calor do sol sobre a pele. Se havia nascido no mundo da vigília, então isso poderia ser um forte indicativo de onde deveria permanecer. Mas não quis julgar ou decidir.   
                                                                                                                 
Suas pernas tremiam pelo esforço da caminhada. Permitiu que seus músculos se acalmassem e percebeu que tudo ao redor era calma. Talvez aquele fosse o ritmo real do mundo. Contemplou por mais algum tempo. Precisou partir. Não havia ordens ou horários, apenas uma necessidade que diagnosticou como: humana. Ainda não havia se transformado em vento ou mar. Percebeu que o tempo estava por toda a parte e que talvez fosse ele quem lhe assoprava nos ouvidos a necessidade de dar o primeiro passo.                                    
 
Obedeceu. Não tinha escolha. Entre o primeiro e o segundo passo uma flecha em forma de ideia: precisava cumprir seu destino. Uma curta pausa: não queria obedecer a nada nem a ninguém. O terceiro passo e depois uma longa sequência, destinos e rebeldias deixados para trás. À frente o mundo todo, um ou muitos universos e a força sem fim daqueles que são jovens.  




Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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