
Acordei sob as laranjeiras. O imenso sonho ainda pesava sobre mim. O céu azul acontecia entre as folhas verdes e as laranjas quase vermelhas. A mão dela tocou a minha. Antes de responder ao seu afago, uma dúvida. Compartilharia com os outros o que havia sonhado? E com ela? A simples menção de parte daquele sonho poderia formar vínculos que não tenho certeza se queria sustentá-los. Sem me decidir, respondi como havia dormido e que havia sonhado bastante. Ela disse que sonhara que eu e ela havíamos decidido abandonar o vilarejo e nos embrenharmos na mata em busca de novos mundos.
Nos despedimos e fui viver meu novo dia. Tento não pensar naquilo que vivi durante a noite. Preciso mudar. Mas não sei por onde começo. Depois do sonho da noite passada, essas reuniões sob o laranjal não têm mais sentido. A maior razão é que não há palavras suficientes para descrever o que vivi. E sinto que, talvez, aquilo possa ser apenas o começo. O mar pode ter a mesma profundidade do céu que nele reflete.
A primeira questão que preciso responder é: como será essa mudança? Depois, mesmo sem conseguir responder, o que acontece é o que sempre costuma acontecer: reprodução. As perguntas se dividem como os tentáculos das raízes. Mudarei dentro da comunidade? Invadirei a mata em busca de novos horizontes? Se fizer isso, estarei acompanhado? Gosto de sua companhia, mas ela me conduz a uma bifurcação, por um lado o conforto. Poder dividir minhas dúvidas com alguém, contar as glórias dos dias. Por outro, temo que o conforto não me permita mergulhar tão fundo quanto poderia. Mas haverá limites para um homem, a partir do qual nem a mente ou os pulmões suportam, e tentar ir adiante é finalmente escolher não ir a lugar algum?
A juventude me empurra sempre na direção dos gritos selvagens e da mata mais escura. É no mar mais fundo onde dormem as mais belas pérolas e… não sei mesmo se sou corajoso o suficiente, não conheço o tamanho de meu desejo ou a profundidade de meus medos. Sinto que não posso perder tempo, mas ele, o tempo, o que é? Desconheço aquele a quem devo obedecer e as razões pelas quais devo obediência.
Há ainda a linha reta construída pelos acontecimentos cotidianos e toda uma série de consequências que se amarram umas às outras. Sei que são justamente elas que devem ser arrebentadas para que algo de novo aconteça. Mas o corte não pode acontecer de qualquer maneira. O cordão umbilical deve ser cortado com uma lâmina afiada e não com uma pedra sem fio.
A cor da laranja não tinha importância. A vida é um mistério sem fim. Nada sei, e se não contar a ninguém esse segredo, poderei usufruí-lo por completo. Enquanto isso vou fingindo que concordo ou discordo (tanto faz), que desejo, planejo, que procuro, pesquiso, que estou aberto ao novo ou busco caminhos tradicionais, que me contento com a vida na aldeia (qualquer uma delas) ou que busco descobertas fora dela. Finjo sim e também não, sol e lua, porque no fundo só eu sei o que vi naquele sonho, só eu sei o que fui e como é possível ser, e também não ser. De agora em diante poderei sorrir com escárnio dos grandes sábios e também dos corações apaixonados, o que conhecem é apenas a mínima fração do que existe, um grão de areia da praia que visitei.
Mas reconheço nessa riqueza o risco da soberba e a possibilidade de passar o resto de minha vida carregando a pesada arca do tesouro, sem jamais conseguir abri-la. Sonhos são mentiras, mas não sabia que mentiras poderiam ter aquele tamanho. Por outro lado poderia simplesmente esquecer tudo. Voltar a tentar descobrir o segredo das laranjas verdes ou então viver uma vida simples, regida pela rotina e pelo espírito comunitário. Esperar ser recompensado com a eventual e rara aparição de pequenas pérolas escondidas entre as sombras dos dias.
Não sei, decidir é difícil, cada caminho são mil outros não tomados, e mil, sempre parece mais interessante do que um. Mas isso é outra mentira, e verdade. Não sei, se pudesse tentaria escolher entre laranjas verdes e outras da cor do pôr do sol, essa seria minha maior dúvida. Por outro lado devo sentir-me orgulhoso por tamanho peso haver sido depositado sobre meus ombros. Deve haver, nesse misterioso mundo, que é só mais um entre muitos outros (é o que suspeito), uma razão para que determinados pesos sejam depositados sobre certos ombros, e isso deve ter a ver com equilíbrio. O mesmo equilíbrio que faz com que as estrelas não caiam do céu.
Mas sei que ninguém, de fato, toma decisões. Apenas observamos as próximas ondas, que nos conduzem junto com todos os outros acontecimentos. Observamo-las sem distinguir se há sentido em seus movimentos. Elas apenas acontecem, e nos distraem. Quando menos percebemos estamos nas areias, boca aberta, olhos vidrados, já não mais esperam por cores ou distinguem luzes.
As ondas são senhoras de nossas vidas. E elas, as vidas que vivemos, ou ela, a única vida que é vivida, mas experimentada por muitas consciências, e que por isso ganha a aparência múltipla, talvez sejam, ou seja, uma mera demonstração do movimento. O das ondas, mas também o que anima o mundo e o universo. A consciência, e por consequência, a vida, são materializações da força-mistério nascida quando nasceram todas as coisas.
Sonhos são gritos do mistério, rasgando o eterno e descendo até nós, procurando uma maneira para serem entendidos, inventando enredos, misturando com realidades e perguntando se, de fato, algo pode ser considerado completamente real. A mulher que também é complemento, e eu dela, pode se tornar obstáculo assim como eu. No fundo mesmo, só o que desejamos é compreender todas as coisas. Mas elas não se mostram, são tímidas e mentirosas, nos conduzem a estradas sem saída e, depois de muitas delas oferecerem retorno e a possibilidade de recomeço, sempre terminamos encerrando nossas energias e esperanças em um beco onde não é possível avançar.
Não tenho saída, preciso sonhar. Mesmo que conheça, ou suspeite como terminará essa história. Se não sonhar, alguém me sonhará, e mesmo se continuar sonhando, não deixarei de pertencer a outros sonhos. Pedras e laranjas são apenas duas manifestações diferentes da mesma substância, da mesma forma como são sonho e vigília. A mentira chama-se diferença. Aos olhos que compreendem a unidade, estão destinadas as mais ácidas dúvidas, seguidas por engulhos de arrependimentos e a melancolia da testemunha que vê nascer o último dia.
Enquanto eles, os dias, insistem em continuar acontecendo, é preciso que algo continue sendo tentado. Essa poderia ser a definição da aventura humana. Tentamos, mesmo sabendo que, em última instância, todo o esforço é inútil, tudo será engolido pelas muitas noites e sóis que acontecem sem que prestemos atenção. Guardamos escondido no peito amarga flecha envenenada que derrama gotas de um veneno que nos mata e deleita.
Uma dessas flechas chama-se instinto, e é ele que me empurra na direção da mulher. Que me faz derreter a certeza que tenho de mergulhar no oceano escuro dos sonhos e descobrir mundos muitas vezes mais fantásticos do que os que já enxerguei. Colocar tudo em risco para apenas arrastá-la até águas rasas e lá refletir sobre como poderia ter sido diferente. Desfrutar de sua companhia e tentar acreditar que os prazeres da carne são maiores do que os do espírito. Na verdade isso é uma mentira, não há divisão de prazeres, em realidade, eles nem ao menos existem. São instantes de ilusão, mesmo o desfrute espiritual, que aparenta maior refinamento e perenidade, não passa de uma imagem impressa pelo sol nas areias escaldantes.
Mesmo assim, não há homem sem ilusão. Ela é a lenha que faz o fogo humano arder. E com a luz que dela emana, iluminamos nossas fêmeas. É assim que as coisas funcionam, talvez elas façam o mesmo, não sei, mas os dois lados são rasos e movidos a imagens. Razão que os distancia das essências. Um belo dia seremos todos essa luz que se desprende do fogo e avança sobre a noite e depois desaparece sem haver alcançado as estrelas. Seremos essência. Enquanto isso, precisamos perder o tempo que nos pressiona as vértebras. Talvez seja a maneira secreta que descobrirmos para nos vingar daquele que nos encolhe a pele e faz com que percamos a velocidade. Nós o desperdiçamos em grandes quantidades, mesmo que para isso seja necessário nos desperdiçarmos junto.
Minha decisão já está tomada. Escolho a agradável mentira, o som sibilado que antecede ao desastre, as justificativas e lamentos, os arrependimentos e a gula. Escolho a humanidade. Mas ainda não decidi de que maneira desperdiçarei meu tempo. Há muitas possibilidades. Algumas indicam aos outros que agimos justamente no sentido contrário do que, de fato, fazemos. Desse tipo de mentira, que costuma aparentar verdade, prefiro manter distância. Mas não sei, a vida é muito complicada e inclui imbricações que nos conduzem a lugares inusitados e geram consequências que jamais suspeitamos. Se escolho a mentira, estou sujeito a ser escolhido por ela, e é ela quem decidirá qual de seus tentáculos se enrolarão a meu pescoço.
A mulher me parece o caminho mais evidente, afinal é o que todos fazem. A única possibilidade que descobriram para fugir da morte. Uma mentira óbvia, mas e daí? Se não temos verdade para colocar em seu lugar? O gênero humano parece destinado à fraqueza. Mas não seria chegada a hora de aprendermos a sermos fortes?
Viver com ela, chamar novas vidas para esse mundo sem respostas. Se não tenho respostas, então, o que faço? Outras vozes para repetirem as mesmas perguntas. Parece algo sem sentido. Mas até agora só buscamos aquilo que parece fazer sentido. Não seria a hora de deixá-lo de lado?
Convido-a para morarmos em alguma cabana ou nos embrenharmos na mata em busca de novos mundos? Posso convidá-la para formarmos um grupo de dois, e explorarmos a imensidão dos sonhos. Mas se é seu corpo o que me atrai e desperta em mim instintos, porque deveria ignorá-lo e contar apenas com seu espírito como companhia?
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
