
Aqui nova interrupção. Talvez a última. Nesse ponto a estrada bifurca-se, a percorrida pelo jovem, mas também a do escritor. As opções são: o jovem pode iniciar um monólogo em forma de fluxo de consciência (a primeira pessoa, a essa altura, pode gerar uma empatia com o leitor, que normalmente sente prazer porque o livro está em suas últimas páginas, e adicionaria a esse prazer o fato de escutar uma voz interna, que eventualmente pode se parecer com a sua). Nesse monólogo o escritor incluiria, de maneira disfarçada, todos os assuntos abordados até aquele ponto. Entrariam os sonhos e seus cenários mirabolantes, as dúvidas, a vida na aldeia, a filosofia do alto do rochedo. Tudo misturado, batido em um grande liquidificador. Para um efeito maior, ele deverá alternar ingredientes, uma pitada de sonho, outra de dúvida, algumas perguntas, para então, preparar o arremate final com alguma frase que, se não conseguir aparentar eternidade, pelo menos que possa ser um resumo de tudo o que o jovem viveu durante o livro.
A segunda opção é mais simples, após as últimas palavras do capítulo anterior, ele embrenha-se na mata e desaparece. O pôr do sol lança manchas amareladas sobre a cena e finalmente a noite engole suas pegadas na areia. Ele some, mas não morre, permanece vivo dentro de uma noite escura, como uma semente enterrada que continua produzindo nova planta. Tanto o primeiro quanto o segundo são finais bastante doutrinários, indicam que a missão, carregada de honra, foi ou está em vias de ser cumprida.
Há uma terceira via, aliás, há incontáveis caminhos, mas comecemos pela terceira estrada. O jovem, que passou o livro inteiro fugindo do contato humano, encontra outra aldeia e passa a levar nela, a vida da qual fugiu em sua aldeia de nascença. Transforma-se em um conformista, que se contenta com a pequena mudança de endereço e julga ser ela, suficiente para saciar sua sede de inovação. Esse é um final bem mais pessimista. Todas suas ideias acabaram derrotadas pelas necessidades de seu corpo. O homem social derrotou o homem espiritual.
Antes do quarto caminho, se ele existir de fato, o escritor abre um parênteses dentro do parênteses: a derrota acima descrita pode ser resumida em uma palavra: civilização. Ela consiste nisso, a vitória do homem social sobre o homem espiritual. O que é uma cidade senão a maneira de organizar essa vitória ou derrota? Encerro esse parênteses com uma pergunta: Será que de tanto perder, quase nunca observando resultados de seus esforços, será que o homem espiritual, não estaria secretamente se organizando para um ataque devastador contra o homem social?
Fique-se entendido aqui, que esse espírito mencionado, não é o religioso, e que o homem espiritual pode ou não crer em um ser supremo, isso pouco importa. O espírito a que me refiro é o desejo obsessivo de não se transformar em massa, de guardar sua originalidade em meio à destruição do indivíduo, de gritar quando todos estão quietos e de manter a calma e o silêncio quando o desespero coletivo toma conta da humanidade.
Voltemos à quarta possibilidade, que poderá imediatamente abrir caminho ou conectar-se com uma quinta, sexta e assim por diante. Vamos lá, a quarta possibilidade é simbólica, algo aparece, pode ser uma mulher, um caminho na mata, um peixe estirado sobre as areias, e esse objeto ou pessoa, forma um vínculo, mesmo que não muito claro, com nosso jovem. Então somos forçados a nos lembrarmos de todo o material já disponibilizado previamente sobre o jovem, e tudo o que envolve sua história, para tentarmos amarrar aquele objeto ou pessoa que subitamente apareceu, com o nosso personagem central. Ao escritor cabe construir bem o personagem e oferecer subsídios suficientes para que essa união não seja gratuita. Não quero aqui saltar para a quinta possibilidade. Na verdade o número delas é quase infinito. Muitas delas, a maioria, nunca foram experimentadas literariamente, mas isso não as torna melhores ou piores do que as mais usadas. O fato é que um livro, um filme, um quadro, ou uma vida, precisam de um final, mesmo que esse final seja uma página em branco.
Voltemos ao jovem, que nesse instante, caminha por uma praia de areias brancas, rodeada por mata densa. Percebam que disse que ele caminha nesse instante. Isso não é por acaso, mas não vou dar mais pistas. Ele começa a sentir sede, e por um instante, julga que a água do mar pode saciá-lo. Agora, já decepcionado, senta-se. Ele está sentado, mas nós, eu e você também estamos (mesmo que alguns de nós, nesse instante, possamos estar deitados). Então se deita, e percebe a força do sol exercendo seu peso sobre aquilo que considera seu ser. O mundo tornou-se seu oponente. Não seria desde sempre, e só agora percebia?
As nuvens desenhavam mensagens cifradas. Tentou ler as respostas que precisava. Seus olhos recusaram, invadidos por lágrimas que se originaram pela ação do sol, e terminaram brotando no vasto terreno vago onde pés serpenteantes de angústia manchavam de verde pálido a cor pesada de terra.
O tempo, que está ao lado dele e ao nosso, nos observando e tentando descobrir orifícios por onde será mais fácil escavar nossa pele, secou suas lágrimas e as substituiu por um vazio disposto a aceitar qualquer coisa que possa encerrá-lo. As nuvens ariscas desenharam mais símbolos, depois tentaram palavras, ele nada compreendeu. Apenas sentiu, quando uma gota d’água desceu do céu. Foi seguida por muitas outras. Ele formou uma concha com as mãos e bebeu o quanto pode. Depois encontrou uma casca quebrada de coco onde a água se acumulara. A sede foi embora e a tristeza salgada de seus olhos foi lavada.
Novamente o mundo pedia sua presença, a extensa praia de areias brancas refletia a luz do sol, que depois de curta ausência, agora prometia secar as gotas que cobriam seu corpo. Ele deu o primeiro passo movido por um impulso automático, desprovido de razão. Poderia ter ficado parado. Nada seria diferente. Essa dúvida, aos poucos, foi sendo pulverizada pela marcha rítmica de seu corpo. Olhando para trás descobriu sua trilha marcada na areia. Aquilo talvez significasse alguma coisa.
Sentiu o peso amarelo do sol sobre sua cabeça. O mundo doía, ardia e suava, mas o mar, o céu e a mata, pareciam incólumes a esse sofrimento. Ele era outro, separado do resto, o rival de tudo aquilo que, não sendo ele, também existia. Então o universo era assim, a dor de um lado, a paz do outro. O tempo era o vento que, originado do lado de tudo o que existia, soprava na direção do jovem.
Ele percebera que era inútil evitar essa brisa, que por mais que se escondesse, não poderia fugir do ar que respirava. Sua pele começou a descascar. O sol, que a essa altura já deveria ter ido embora, continuava animado, como aqueles que acabaram de chegar e reconhecem nos outros traços de si mesmo. Apalpou as partes em suas costas que doíam, percebeu que ali havia duas forças, uma que se opunha a ele e outra da qual fazia parte. Ele era, em sua humilde medida, um pedaço do sol.
Esse é um ponto perigoso para o escritor, a poesia em romances deve funcionar como o sal, qualquer quantidade em excesso é prejudicial a saúde. Mas sua ausência completa, também deve ser evitada.
O jovem então percebe… (sintam o calor que ele está sentindo, a dor das queimaduras, a falta de certeza a cada passo, algumas coisas precisam ser ditas diretamente pelo escritor, sem usar a voz do personagem ou a terceira pessoa) que caminha simultaneamente em duas direções, sensação que não experimentava pela primeira vez, mas que sempre o perturbara, pois lhe parecia um desperdício de tempo.
Dessa vez foi diferente, as coisas podiam acontecer em paralelo, e o tempo, não poderia ser economizado ou gasto. Uma brisa vinda do mar aliviou as dores na pele. Os passos foram, e continuam sendo, inevitáveis.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
