
Depois das trovoadas noturnas as poças d’água ainda refletiam nuvens cinzentas. Molhei o chinelo tentando afastá-las. Então fui tomar o café da manhã, queria descobrir que horas eram pela quantidade de luz que invadia o chão da sala. O relógio de parede soou. Bem mais tarde do que eu imaginava. O dia parecia não ter saído da cama.
O suco de laranja e a omelete estão sobre a mesa, faltam as torradas. Escuto barulhos de louça vindos da cozinha. Minha mulher a essa hora? Deveria estar trabalhando. Tão nervosa esses dias, será que brigou e foi demitida? Só o que faltava, dois desempregados. Aos cinqüenta e três anos isso pode representar uma condenação à fome. Ela misturou os ovos com pedaços de presunto e cheiro verde, que delícia, qual a razão desse capricho? Aí vem bomba.
Tenho de encerrar o luto empregatício, onze anos no mesmo lugar, e daí? Se continuasse lá, minha vida… vou recomeçar, mesmo sendo quase uma velha máquina de escrever, essas novas gerações X, Y, Z, nascem sabendo tudo, superficiais como chuva sobre o concreto, é verdade, mas e o mundo o quê é? Tenho um bom currículo, experiência, cabelos grisalhos, isso deve valer alguma coisa.
Que susto. Quem é essa velha? Será que a Alba ia ser tão irresponsável a ponto de contratar uma empregada na situação em que estamos? E ainda por cima uma que esteja beirando os oitenta.
“Bom dia. Desculpe pelo susto. Trouxe suas torradas e um pouco de geléia de pêra.”
“Obrigado. A senhora…”
“Acabei de chegar. Quer mais alguma coisa, posso te fritar uns sapinhos…”
“O que? Não, obrigado, estou satisfeito. Desculpe… a Alba… a senhora é conhecida dela, ela pediu para que viesse ajudar?”
“Alba?”
“Sim, minha esposa, ela contratou a senhora?”
“Não fui contratada por ninguém.”
“Como assim? Não conhece a Alba?”
“Não.”
“Então o que está fazendo aqui? Como entrou?”
“As portas estavam abertas.”
“Entrou sem pedir licença e foi para a cozinha preparar meu café da manhã?”
“Isso mesmo.”
“Mas essa história é um absurdo, não tem mais nada a dizer?”
“Não se preocupe, antes do final do dia vou embora e não volto mais.”
“Vou cozinhar seu almoço, do que gosta?”
“Eu… vou comer fora, mas a senhora vai ter de sair.”
“Ah… meu amigo, não faça isso comigo. Tenho tão pouco tempo que queria aproveitar ao máximo essa casa e a convivência com o senhor. Olhe para o meu rosto, ele não te parece familiar?”
“Não.”
“Estou falando de tua infância, mais de quarenta anos atrás.”
“Parece… não sei… alguma coisa, o nariz, um pouco dos olhos, mas esses cabelos brancos espetados não conheço. Quem é você?”
“Depois de tantos anos as coisas se modificam, acho que fazem quarenta e cinco anos a última vez que saí por aquela porta, você chorou, agarrou no meu vestido e não queria mais largar.”
“Você é a Clara?”
“Meu menino, vem me dar um abraço gostoso.”
“Teu cheiro Clara, minha infância…”
“Continua chorão… calma meu menino, vamos passar o dia inteiro juntos. Me conte como foi tua vida…”
“Não sei… uma vida normal, engenheiro, troquei duas vezes de emprego, fui demitido faz um mês. Casamento sem filhos, as coisas vão acontecendo, meus pais morreram, sinto saudades, a gente tem de se conformar. As pequenas alegrias distraem a gente, mas nunca fui tão feliz quanto na infância.
“Criança é uma palavra que falo com gosto, mas também me dá uma tristezinha. E você me conte da tua.”
“Eu trabalhei até o fim, casa de família, limpeza, cozinha, não tinha medo do batente. Nunca casei, até que não era feia, mas era muito enjoada e turrona, acho que assustava os homens. Não vou mentir, além de você tive mais uns três amores, só que eles eu vi crescer e sempre foi de ti que senti mais saudades.”
“E agora o que está fazendo?”
“Estou matando as saudades, isso não é suficiente?”
“E o resto, aposentou-se, a saúde…”
“Gostaria de conhecer sua esposa, vou cozinhar um almoço delicioso para vocês.”
“Ela trabalha, chega às sete, um jantar então…”
“Que pena, tenho de ir embora antes.”
“Amanhã, ou semana que vem…”
“Querido, estamos perdendo tempo, o que você está com vontade de comer.”
“Nada, não se preocupe com isso, eu que deveria cozinhar para você. É estranho, parece que tua presença liberou um riacho de recordações que estavam represadas. Eu tentei dar um salto mortal no sofá e atravessei o vidro da janela com a cabeça, fiquei mais assustado com os teus gritos do que com o sangue. Lembrei do cheiro do tapete lá de casa, e de como eu detestava que as visitas me apertassem e beijassem, corria pro teu colo e você me protegia. Depois descobri que embaixo da mesa de jantar era um excelente esconderijo, escutava as conversas dos adultos, encontrava os chicletes endurecidos e esperava que você levantasse a toalha dizendo que estava na hora de dormir.”
“Muitas vezes você dormia embaixo da mesa e era eu que te levava para cama.”
“Um patinho de borracha amarelo, depois do banho você me vestiu e eu fui assistir televisão, te perguntei o que acontecia com uma pessoa que caísse do alto de um prédio, a janela estava aberta e o vento soprou minha pele úmida, foi a melhor sensação que tive na vida.”
“O que eu te respondi sobre quem cai do prédio?”
“Morte. Essa foi a primeira vez que prestei atenção nessa palavra.”
“E teus irmãos como estão?”
“Casados, trabalhando, pouco nos falamos.”
“Quando fui embora a menina ainda era nenê de colo…”
“Eu me lembro que quando minha mãe colocava ela para dormir sozinha num quarto, eu pensava, mas que animalzinho sofrido, tão pequeno e já mergulhado nessa escuridão. Depois ela abria o berreiro e confirmava minha teoria. Acho que essa foi a primeira conclusão a que cheguei.”
“É gostoso se lembrar da infância…”
“Dias de felicidade, que agora estão escondidos atrás de uma neblina, mas continuam existindo. É que o mundo quase sempre se parece com um limão seco. Sabe a pasta de dente quando fica toda enroladinha e não sai mais nada de dentro?”
“Menino…”
“Bom… mas não quero reclamar, nem só ficar falando de mim, até agora você conseguiu me enrolar direitinho, não contou quase nada da tua vida. Posso te retribuir a visita ou você prefere voltar aqui num final de semana?”
“Que horas são?”
“Não precisa se preocupar, eu te levo em casa.”
“Não dá.”
“Por que não? Mora em outra cidade? Não tem problema. Já sei, se quiser pode dormir aqui, daí você conhece a Alba.”
“Não vai ser possível. Vamos aproveitar o dia.”
“Clara… que mistério é esse, arrumou namorado ciumento?”
“Tua casa é toda arrumadinha, pelo jeito ela é bem caprichosa. Posso te pedir um favor, você tem alguma foto de quando era pequeno?”
“Acho que sim, deve estar perdida em algum lugar. Essa aqui é a Alba no dia do nosso casamento.”
“Que moça linda, esses olhos escuros, lembram os da tua mãe…”
“É verdade… sabe que nunca tinha reparado nisso.”
“Tua mãe sobreviveu dentro desses olhos.”
“Talvez… nessa aqui eu devia ter uns oito anos. É pra você.”
“Obrigada, foi o melhor presente que já ganhei. Teu relógio de parede não para de bater hora cheia, o dia está indo embora tão depressa.”
“Não se preocupe Clara, vamos nos ver outras vezes, mesmo que o teu namorado ciumento não deixe.”
“Se você soubesse…”
“Que engraçado, depois que a gente puxa o fio da memória, ele vai desenrolando recordações cada vez mais compridas e elas têm cheiro, gosto e som. Sabe o que vivo nesse instante: pipoca.”
“Você era louco por pipoca, me pedia de joelhos para que eu fizesse, e quando ia para a panela, só faltava explodir de alegria.”
“Aquilo era um ritual, o chiado do óleo na panela, a pequena manivela que espalhava os grãos, a espera pelo primeiro estouro, os longos intervalos entre as explosões, depois a força da repetição, Berlim sendo bombardeada e um exército de irmãos brancos rompendo barreiras, até atingirem o último objetivo: levantar a tampa da panela. Essa conversa tá me dando fome, hoje você vai me deixar preparar algo para você.”
“Outra hora foi embora…”
“Mas que mulher mais preocupada com o tempo…”
“Infelizmente…”
“Tua visita me fez tão bem, mas me diga como você conseguiu me achar, saber que não tinha ninguém em casa, entrar… acho que a Alba tá por trás disso, daqui a pouco ela chega e as duas vão rir da minha cara
“Só coincidências, menino. Preciso me preparar, ainda tenho uma longa viagem pela frente.”
“Já te ofereci ajuda, só não quero ser chato, se quiser é só me pedir. Posso te fazer uma pergunta indiscreta, está precisando de algum dinheiro? A situação não está muito fácil mas alguma coisa eu consigo te arrumar.”
“Obrigada querido, você já me deu o que eu mais precisava. Mas agora… eu preciso ir.”
“Para onde? Quando volta?”
“Não voltarei.”
“Preciso que você me conte sua história, confie em mim.”
“Claro que confio, não é essa a questão. É que não quero te ver triste…”
“Doença?”
“… nem que você ache que enlouqueci.”
“Prometo que não vou te julgar, seja o que for que me conte eu continuarei ao teu lado, atenderei todos teus pedidos sem contestar.”
“Preciso ficar atenta pois devo partir antes do sol.”
“Não se preocupe, quando ele estiver indo embora te levo até a porta e você sai.”
“Pois bem, meu menino, você me passa uma segurança que há tempos não sentia. Eu trabalhei duro, e já não era mais nenhuma menina. Acabei adoecendo, os médicos disseram que era pneumonia, fiquei quinze dias internada. Depois Morri.
“Eu te prometi, vou respeitar tudo que me disser.”
“Já vou te advertindo, para quando chegar tua hora você não tenha de passar pelo que passei. Quando morremos o que acontece é uma grande confusão, memórias se misturam com desejos, parte de nossos hábitos de vivos ainda estão presentes, mas já não possuímos mais os corpos para executá-los, então a maioria dos mortos são egoístas que querem realizar seus desejos a qualquer custo. A confusão mental nesse novo mundo é muito grande, porque os vivos, gostam de permanecer vivos, mas muitos mortos detestam sua condição, e tentam de qualquer forma voltar a caminhar sob o sol. Como nunca conseguem, se transformam em mortos enganadores, que vivem tentando tirar a própria vida. Mas a bala não fere, nem a corda estrangula. O que sobra é a eternidade.”
“Nós os mortos também dormimos, e temos sonhos tão estranhos como um planeta comandado por pés de alface. Num desses dias, porque as noites são reservadas à vigília, sonhei que se quisesse poderia retornar à vida durante um dia. Desejei muito te rever. Escutei tua mulher sair, e quando abri os olhos estava na cozinha. Não sei, talvez tudo não passe de um sonho que começou comigo e te contaminou, ou então fez o caminho contrário. Mas agora é hora de acordar.”
“Clara… Clara… não sei o que dizer…”
“Não diga nada, você prometeu….”
“Eu sei… vou respeitar o juramento… mas tenho um último pedido a fazer antes que se vá. Pipoca.”
Clara saiu da sala em silêncio. Ele reparou na fragilidade de seu corpo. A pele acinzentada parecia prestes a romper-se e desvendar o segredo oculto dos ossos. Teve dificuldades para abrir a porta e quando a fechou, deixou o homem de meia idade sozinho, em um ambiente que nunca pareceu ter paredes tão brancas. Não havia tristeza ou qualquer outra sensação.
De repente um sorriso. O chiado da panela. O primeiro estouro teve a cor de um beijo. As explosões vieram com o peso da felicidade. Depois o silêncio. A expectativa de que a porta abrisse e ela voltasse carregada de lágrimas e justificativas.
Nada. O relógio bateu horas. A luz dos postes refletiu nos móveis envernizados. A escuridão poderia ser respirada. Saiu da sala. A cozinha estava acesa e vazia.
Sobre a mesa uma vasilha cheia de pipocas. Ao lado, sua foto, de quando tinha oito anos e era muito feliz.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
