
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi um homem estranho, sobretudo contraditório. Ficou conhecido pela teoria do Bom Selvagem, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Vamos aos fatos, Rousseau, que escreveu um livro sobre como educar os filhos, Emílio ou a Educação, abandonou seus cinco filhos. Esse mesmo homem, que em seus escritos preconizava uma vida simples, no campo, viveu apenas em cidades grandes e nunca plantou um pé de alface. Desprezava, em seus escritos, os políticos e a nobreza, mas era figura frequente em banquetes de poderosos e reis. Preconizava o anonimato pessoal, declarando que a personalidade individual não deveria ser ressaltada, mas escreveu mais de mil páginas autobiográficas. Fustigava os poderosos, mas nunca deixou de correr atrás de seus favores.
Podemos continuar enfileirando incoerências pessoais, mas não é o homem que nos interessa, mas sua obra, mais especificamente as consequências dela. Primeiro, deve-se ressaltar que elas foram imensas. Foram Rousseau e seu pensamento, importantes sustentáculos filosófico para a Revolução Francesa, acontecida poucos anos após sua morte. Suas ideias de igualdade entre os homens e opressão por parte de uma minoria corrompida pelos valores mundanos da sociedade, insuflaram interesses que, utilizando-se do que hoje conhecemos por fake news, incendiaram multidões, formaram exércitos, derramaram muito sangue, cortaram muitas cabeças e mudaram o mundo, seja o que quer que isso possa significar.
A imprensa, à época real, que antecedia à Revolução, era livre e admitia sem censuras notícias como a de que a rainha Maria Antonieta, mantinha uma série de amantes, entre eles, o próprio filho. Mas a Revolução fica para mais tarde, mergulhemos na base do pensamento rousseauniano, o Bom Selvagem corrompido pela sociedade. O que constitui uma sociedade? A resposta mais evidente é: A cultura de uma época. E ela, a cultura, é feita do quê? De homens. Portanto, dos mesmos homens bons que se tornaram maus. O que nos leva a uma dedução lógica: ou aqueles homens nunca foram bons, ou nunca se tornaram maus, ou, o mais provável, nada é, em si, bom ou mau. Tudo contém, em si, a semente de seu oposto.
Considerar o homem bom e a sociedade má, é o mesmo que atribuir qualidades de superioridade e inferioridade à água ou ao fogo, ou então ao dia e à noite. Por outro lado, considerá-lo bom individualmente e mau em conjunto, já que esse homem é o mesmo, transforma-o em vítima de si mesmo. Ele se torna ao mesmo tempo, o carrasco e aquele cujo pescoço será cortado. Mas não é aí que cessam as incoerências do Bom Selvagem, à medida que concedemos a essa figura inocente, a condição de vítima, retiramos dela o que o próprio Rousseau considera o que de mais importante um homem possui, sua alma. Ele deixa de ser um homem para se transformar em uma figura social, um cidadão. Desaparece o individual devorado pelo coletivo. O que ganha corpo e inteligência, que é retirada de cada indivíduo, é o coletivo. O mundo se transforma em uma grande colmeia, ou formigueiro.
Em sua obra mais conhecida O Contrato Social, essas tendências ficam ainda mais claras. O ponto central da obra é um acordo entre o indivíduo e a coletividade, o indivíduo cede para receber algo em troca do coletivo, ou seja, do Estado. O que ele recebe? Proteção e, a certeza de que vontades alheias, e que ferem o código ideal de comportamento, não serão exercidas contra ele e, caso sejam, quem as exerceu será exemplarmente punido por aquele conjunto de todos os homens chamado Estado. Aqui cabe uma pergunta: se o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, o que seria o Estado senão a mais organizada forma de sociedade? E por quais razões ele, o Estado, não se tornaria mau, assim como o resto da sociedade?
Mas voltemos ao Contrato Social, se o indivíduo recebe proteção, qual é o pagamento que deve por esses serviços? É nesse ponto que o pensamento de Rousseau, que até então possuía algo de ingênuo, com ares do romantismo do século 18, ganha tonalidades mais sombrias. O indivíduo deverá pagar com a destruição de sua liberdade, que deverá ser dispersada no caldo da comunidade. Feito isso, a noção de liberdade passa a ser unicamente coletiva. O homem deve lutar por uma liberdade que não é a sua. E deve, segundo o Contrato Social, buscar um guia que possa conduzir a comunidade à liberdade.
Voltemos à Revolução Francesa, talvez o primeiro grande acontecimento histórico influenciado pelas ideias de Rousseau, uma revolução estranha, em teoria esquerdista, mas que levou a burguesia ao poder. Uma revolução que pregava a fraternidade, mas que guilhotinou dezenas de milhares de cidadãos. Tendo custado a vida de 300.000 pessoas, cerca de 1% da população do país à época. Uma revolução que promovia afogamentos em massa, que ficaram conhecidos como Les Noyades de Nantes, prisioneiros eram colocados amarrados em barcos, que depois eram afundados. Havia também o que ficou conhecido como O Casamento Republicano, um homem e uma mulher que não se conheciam, eram amarrados um de frente para o outro, e então jogados no rio para se afogarem. O leito do Loire ainda está repleto de esqueletos daqueles que não aceitam serem livres. Tudo, em teoria, feito para um bem coletivo, coroando avanços humanos e destruindo aquilo que oprimia o povo.
Saltemos um século e meio para o futuro, a dissolução das vontades do indivíduo em uma vontade maior, coletiva, contra a qual, quem se opuser deverá ser punido, e que vem vestida com roupas sofisticadas, bem maquiada, guiada por uma figura personalista forte, que promete corrigir injustiças, vingar oprimidos e punir opressores, levou as palavras de Rousseau avante. O custo? Talvez algumas centenas de milhões de mortos. Rousseau foi democrático, seu pensamento justificou genocídios tanto de direita: Hitler, Mussolini, Franco, quanto de esquerda: Lênin, Stálin, Mao. Todas elas ditaduras com princípios teóricos nobres, todas prometendo uma vida melhor, mas exigindo para isso o pagamento que foi estipulado no Contrato Social.
O indivíduo forte, é profundamente nocivo para comportamentos coletivos. Qualquer agrupamento precisa, para existir, enfraquecer indivíduos, tornando-os controláveis. Para isso o método mais eficiente é a criação de mitos. Antes da Revolução Francesa, o grande mito que sustentou a civilização foi o religioso, depois dela, o democrático. Democracias representam a nova verdade intocável. Assim como aconteceu com o pensamento religioso, qualquer voz erguida contra a democracia, hoje representa um atentado contra a civilização. Mas nada que se transforme em dogma dura para sempre e, portanto, pode e deve ser questionado. E esses questionamentos podem ser divididos em dois:
Primeiro: Será que o que vivemos é realmente uma democracia? Não me refiro a nenhum país em particular, mas a todos que são considerados países democráticos. Não terá o poder econômico, aliado à mídia e a outros grandes interesses, construído essa gaiola dourada, onde em teoria todos possuem seus direitos respeitados e onde a liberdade do indivíduo é soberana, mas, no fundo, iludidos por luzes coloridas e disfarces cênicos, somos conduzidos a nos comportarmos de uma maneira que é alheia a nossos desejos mais puros? Havendo sempre espaços para minorias discordantes protestarem, contanto que elas permaneçam sendo minorias. E as eleições, a vontade soberana do povo, que nos dá o poder de escolhermos entre candidatos, aquele que mais combina com o nosso pensamento? Não serão sempre beneficiados candidatos que, por mais diferentes que possam parecer, terão em comum sempre o fato de, nunca questionarem o âmago do sistema. De uma ponta a outra do espectro ideológico, apenas aqueles que compactuarem com as regras do jogo poderão participar dele, então apenas aqueles que sustentam mudanças suaves, poderão ser eleitos.
E não é somente nesse aspecto que a democracia vigente pode ser questionada. E se um cidadão recusar-se a participar da vida coletiva, sem prejudicar ninguém, ele apenas nega-se a pagar impostos e consequentemente a receber as benesses que eles custeiam. Esse homem poderá exercer esse direito de escolha? A democracia aceitará dissidentes? Ou todos, mesmo contra suas vontades e, aceitando não receber nada em troca, deverão, à força, juntar-se a ela? Se assim for, ela apresenta uma incoerência, pois deixa de ser democrática.
O segundo questionamento surge a partir da constatação hipotética e pouco provável de que, realmente nenhum fato desabona moralmente ou logicamente a democracia. E as perguntas são simples: Sendo a democracia eficiente e justa, mas a escolha determinada pela maioria demonstrar-se desastrosa, um perigo que poderá colocar a humanidade inteira em risco, deverá ser respeitada a vontade da maioria? Haverá exceções possíveis? Quais serão?
Talvez em 200 ou 300 anos consideremos a democracia da mesma forma que hoje consideramos as teocracias, ou a inquisição, e lamentemos todo tempo perdido, todas as más escolhas que nos atrasaram séculos. Essa é uma possibilidade. O perigo não reside na democracia em si, mas em qualquer teoria que perca a vitalidade e transforme-se em dogma.
Voltemos a Rousseau, que não possuía nenhuma especial predileção pela democracia. Em “Emílio ou a Educação”, Rousseau diz que as crianças devem ter um preceptor que as deve acompanhar até os 25 anos. Essa figura deve ser o guia que o conduzirá a toda parte, o tempo todo. Caberá ao discípulo obedecer a seu mestre. Entre os conselhos de Rousseau ao preceptor estão: fazer com que o discípulo aprenda a sofrer, a suportar coisas repugnantes, a se resignar, a desejar aquilo que os outros desejam que ele queira, a dormir pouco, a reprimir seus sentidos, a considerar o desejo sexual vergonhoso, a aprender a mentir e fingir, a ser dócil, a não gostar de ler, a não aprender línguas estrangeiras, a jamais estar sozinho, inclusive no quarto (onde deverá estar acompanhado pelo preceptor), a detestar a escrita, a escolher a mulher que o preceptor lhe indicar.
Percebemos que essa educação preconizada por Rousseau era muito parecida com aquela incentivada por Hitler, Mussolini ou Mao. A perda total das liberdades e das capacidades individuais em benefício do coletivo. E foi esse tipo de educação que, em maior ou menor grau, somada à educação religiosa ou a de cunho marxista, formaram aqueles que transformaram em mito a democracia moderna.
O futuro necessita da razão, mas não pode a transformar em mito, precisa de ciência viva e não empalhada, necessita de criatividade e espírito, de movimento e cores, precisa descobrir o melhor dos mundos através do melhor do homem. Precisa navegar os mistérios humanos dentro do oceano universal, precisa de indivíduos grandes, maduros e independentes. Que não vejam o mundo apenas por um prisma, mesmo que esse se pareça com a verdade. O mudo não precisa, nem suporta mais utopias. Precisa apenas de homens e mulheres.
Necessita de médicos que examinem a civilização, e para ela receitem: Menos Rousseau, mais Voltaire.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
