
MAGMA
Como se tudo em mim fosse mais
sou eu que me lanço as pedras.
Deixo a faca no peito sem morrer.
Há um fogo no corpo se fechando em ciclo,
esse poema começando do fim.
Inferno? Partilha?
Nada me restitui a inocência
ainda que o sol no café da manhã
seja mais um ofício de querer a lição.
O hábito de sofrer diverte.
MEU ANJO
Avança decidido pela porta da noite.
Ajoelha-se como se precisasse estabelecer
o sistema de minhas artérias.
Depois descobre os pontos onde me sinto limitada
e só a mim seu alvo fere.
Se grito três vezes seu nome,
o perdido é uma cidade que amanhece.
Se sussurro mais fome desfere.
Meu anjo, quase sempre pintado de vermelho,
me arrasta para o tanto que não sei.
Não é nenhum Gabriel,
mas seu cheiro, seu corpo calcinado de águas e mistérios,
além dessas rajadas tem pétala de flor aberta.
O QUE NÃO FICA
É uma cidade grande
o homem que segura a porta do elevador.
Do térreo ao décimo terceiro andar
não corremos risco de ouvir
o assovio da paixão.
Desconhecido é o seu nome.
Quanto a mim,
volto a servir chá de camomila para a solidão.
A PANTERA
Invejo sua agilidade mansa,
a vela acesa de seu olhar.
Imagino que se a tivesse sobre o ventre
meu prazer não seria feito de raivas e punhais.
TRILHOS
Aqueles pés descalços que corriam livres
aos quatro cantos do luar,
hoje são mercadores e não vendem nada
nem mesmo os objetos pessoais que um dia
iluminaram a casa.
Tudo desemboca fora.
Se ainda ruminasse o velho desejo do tempo
que me fazia andar mais rápido,
eu correria.
Mas perco as estações no trem
e o apito que soa não traduz,
silencia:
a vida é crua.

LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.