Coluna Lila Maia: Uma vigília +3 poemas

Ilustração: Priya Anand Pariyani

 
UMA VIGÍLIA
 
Quarenta anos depois
o silêncio da chaleira que ferve.
Na infância, sempre acendi uma vela na outra.
As surras que levei não se enraizaram.
Cada dia soletrei um tempo do verbo partir.
Vivi com a indiferença e a saudade presas ao calendário.
 
Quarenta anos depois
não sei me despedir da saudade:
continuo ouvindo o arrastar daquele chinelo
número trinta e três pela casa.


MURAL DE DEUS
(n° 1)

 
Agora que compreendo o pão dividido,
aceito meu inferno.
E volto a sentir falta da utilidade dos brinquedos,
do quadro de Nossa Senhora da Conceição na parede.
Que bruxas, deuses cultuei ao longo dos anos
para suportar no corpo o peso destas colunas
sobre a curva dos meus rins?
Por ter amado os homens como podia
fui merecedora de espinhos, alumbramentos.
 
Até hoje minha dor se estende de janeiro a dezembro.


MURAL DE DEUS
(n° 2)

  
Aparentemente separados:
esta é a proposta que faço ao tempo.
Quero ressuscitar em mim o alto voo de uma ave
ter de volta a maré desordenada
subindo a pequena sacada da janela
onde imagens transbordam
e o desejo da carne ainda me persegue.
 
Preciso resgatar aqueles fantásticos desalinhos
que me permitiam ser densa, sonora
ou simplesmente refém das perdas
que vão tomando forma
e te olham com olhos de vidente.


FACE A FACE
 
E se o filho de Deus fosse meu amado?
 
Os punhais afiados
ante a sedução transparente
seriam os mesmos?
 
E se o filho de Deus desse os passos
que eu filha de Rorlando e Maria não aprendi a dar,
a gaivota ou o simples beija-flor
chegariam à janela do apartamento 609?
 
E se o filho de Deus me tirasse
os lobos, a serpente, as maçãs
sem frescuras, dor, espantos,
o amor teria cara de anjo?



LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS  MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.  

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *