Coluna Luís Palma Gomes: Manhãs, Cafés e Outros Começos

Ilustração: Julia Suptel


Há quem peça um café expresso sem princípio, tentando aliviar a parte mais forte do café, ritual e matutino. Sinceramente, prefiro a parte mais forte das coisas.
 
A parte mais forte dos dias é a manhã, claro. Tenho um amigo que já me propôs a publicação de um livro apenas com poemas cujo tema seja a manhã.
 
Dizia-se que, na prova dos 800 metros, devíamos começar a matar e acabar a morrer. Levo essa estratégia para o meu biorritmo. Depois do almoço, já estou que nem posso. A digestão pesa-me. Porém sempre me pareceu que as refeições são sagradas, sendo a sua sacralidade uma qualidade transcendental e não meramente horária.
 
Gosto de começos, ainda que em todos eles tenhamos de enterrar alguma coisa, um passado mais ou menos terreno. Gosto do café da manhã, da torrada, do “Conto de Verão” do Romer, por ter para mim, paradoxalmente, a leveza da primavera.
 
As crianças são a manhã e, sendo por vezes também professor de crianças, vejo nelas essa força motriz, essa inocência necessária para saborear a vida.
 
E se escrevo tudo isto é porque as férias estão a chegar ao fim. Hoje, na penúltima manhã desta dádiva dos deuses, sinto ainda a força necessária para o regresso. Um regresso sereno e possível, talvez para captar, em algumas linhas, aquilo que ainda resta destas manhãs no meu caderno de viagens.
 
 
Termas de São Pedro do Sul, 15 de Agosto de 2026



 

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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