
Se cada página em branco é uma oportunidade, perguntamos a seguir: se também os dias são folhas em branco ou se, pelo contrário, eles se nos apresentam parcialmente escritos, como canta Jorge Palma: «Domingo à tarde, sabes de cor o que vais dizer segunda-feira» — ou mesmo Rui Belo, que glosa este tema da antecipação existencial com o verso: «mas mais triste é recordar os gestos de amanhã».
Vadiar é talvez o verbo de que mais gosto: sentir essa possibilidade de não ter destino, ensaiar a pequena viagem a um subúrbio aparentemente igual a tantos outros, entrar no pequeno café de bairro, algures em parte incerta, ensaiar uma conversa com estranhos, descobrir que no baldio, por detrás da nossa casa, há mais vida silvestre do que no documentário da National Geographic.
Tarde descobri que a palavra flâneur (aquele que vagueia pela cidade) era todo um conceito, um projeto literário, na melhor das hipóteses; a idade e a popularidade dessa palavra, fez-me sentir parte de uma genealogia, de um tipo de gente que anda por aí à espera que algo aconteça.
«J’ai l’habitude du hasard», diz Gaspard, o protagonista do Conto de Verão, de Eric Rohmer. Na tradução, «tenho o hábito do acaso» soa a contradição, ou paradoxo linguístico, a uma mão cheia de nada — ou talvez à tentativa de perceber se mente quem afirma que “tudo o que diz é mentira”. A lógica da vadiagem é também ambígua, desprezível para quem não a pratica.
Parece não fazer sentido, sobretudo num mundo cheio de agendas, convenções e rotinas que se nos inculcam, porque é assim e não se discute.
«Nada do que eu disse é meu / juro dizer toda a verdade», escreveu também Ruy Belo. E se começamos por perguntar se os dias são ou não páginas em branco, podemos terminar perguntando se nada do que dizemos é nosso: onde vamos buscar as palavras, isto é, o sentido.
Por aí, diria eu, em parte incerta — o lugar que ainda não existe é o de que mais gosto, confesso.
Lisboa, 28 de fevereiro de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.