
Encontros são carências. Júnia é o estopim de uma bomba. Mas eu ainda não sabia disso. E seguia, como todos. Não podia prever o futuro. Tinha de arriscar. Se quisesse encontrar o amor. Se quisesse, ao menos (e por enquanto), um pouco de sexo.
Júnia abre a porta. Ao primeiro passo, compreendi que estava cercado por um corredor tão curto quanto estreito quanto baixo, que, por algum hábito doentio de fineza, as pessoas chamam hall.
“Júnia?”, eu sempre me dirigia a ela em tom interrogativo.
Sorriso, beijo. Camiseta sem mangas, calça jeans larga, descalça. Aproveitei para passar uns dedos sobre os seios dela.
“O que é isso escrito aqui?”
Ideograma chinês.
“Ah… Pensei que você já tivesse visto. Significa liberdade.”
Decidi beijá-la mais uma vez, com força, apertá-la contra meu corpo, num lance rápido. Que bom.
“E como você sabe disso? Hein? Que significa liberdade.”
“Me solta, ai! Eu sei. Eu só sei. Eu acredito.”
“Ah, mas que droga…” resmunguei, sem perder o humor, deixando-a livre. Tudo bem, tome sua liberdade de volta. No que se baseia? Por que acredita? Como assim, acredita? Tanta consciência política, e quando chega a isso…
Júnia me conduziu pela mão até a cozinha, café que vai preparar em seguida. Suas colegas de faculdade costumam viajar nos finais de semana, por isso nós nos movíamos à vontade pelo apartamento. Ela, moreninha clara, cintura de menina, quadris estreitos, mais baixa que eu, sempre ficava bem ao meu colo, quase uma adolescente. Mas bastava levantar-se, sair de meu colo, voltava a ser a adulta intelectualizada, envolvida com as crises do mundo e com os problemas da nação. Eu não sabia se a admirava por isso ou se ela me inspirava algo parecido com trabalho extra e tédio. Mas ela se atraía por mim, se entendia comigo, quais fossem seus motivos, mesmo conhecendo tão pouco sobre minha origem, sobre os passados remoto e recente meus.
“De onde você está vindo?”, ela enquanto escolhia canecas, utensílios, abria e fechava armários.
Eu a acompanhava, observando os movimentos dela enquanto fervia a água, enquanto o tempo passava, enquanto esses pequenos tempos passavam. Que coisa, como vim parar aqui? Uns poucos desvios de pensamento lógico, eu tomando café na casa dessa garota agora, alguém que há duas semanas nem existia para mim.
“Saí mais cedo do trabalho”, expliquei.
Quando pela primeira vez nos beijamos, supúnhamos ser invisíveis – apesar dos largos relâmpagos. Outra noite tempestuosa no outono. Dentro de meu carro, protegidos pela forte chuva que parecia a alguns golpes de espedaçar todos os vidros, olhando-nos de tão perto, sentimos, cada um a seu modo, sufocar suavemente com a própria saliva, aquele momento intenso e mágico quando os dois já se desejam claramente, mas precisam ainda de um primeiro gesto, como se dá com todo estranho ritual humano. Estávamos muito próximos, mas certamente não era isso o que servia de pretexto. Não havia pretexto. O caso era o mais antigo do mundo: a atração entre um homem e uma mulher. O caso éramos nós. Apesar dos largos relâmpagos.
“Por minha causa?”
“Sim, por que não?”
Eu não sabia o que dizer. O rosto de Júnia repousava e apertava-se contra o meu, enquanto eu respirava agradecido o cheiro dela, mais forte no pescoço, um aroma natural, sem artificialismos, cheiro de chuva e roupa molhada, ao mesmo tempo o contato de uns fios de cabelo provocando-me cócegas na ponta do nariz.
“Ai!”, ela gritou.
Que susto, outro trovão. Pretexto para protegê-la ainda mais. Mas não havia pretexto, certo? Demorávamos num contato lento, trocando lábios e línguas que se apresentavam como delícias vindas de longe, como algo que não conhecêssemos ainda, pois conhecíamos com outros, não entre nós, apenas isso. Só que isso fazia toda a diferença. Duas outras pessoas. Outra vez, uma primeira vez. Mais uma vez, outra primeira vez. Vivi uma sensação de grande felicidade porque aquilo parecia não ter fim. Até então, aquele prazer inocente e encantado, aquele vértice de lentas circunstâncias sob a poderosa tormenta pareciam ser o que de mais fascinante me havia acontecido em um longo período de tempo, em meio à sequência de tudo o que se engrenava tranquila e logicamente em minha vida. Só não imaginava que fosse durar tão pouco. A luta política dela não significava muito para mim. Foi preciso escolher. Foi ela quem escolheu. A tempestade me surpreendeu. A tempestade que, da outra vez, nos protegera.
Eu ainda a olhava e pensava nela com certa preocupação. Queria sentá-la ao meu colo depois do café. Uma vontade avulsa, em meio a meus questionamentos tolos. Instinto masculino, acima de tudo.
“Pensando se vai ou não dormir aqui hoje à noite”, ela iniciando um sorriso agora, olhando-me sem piscar.
O problema é não poder definir com clareza os possíveis desdobramentos de alguns incômodos que ela me inspira. E essa mínima, ridícula impressão não decifrada é o bastante para imobilizar-me os olhos, como se um nevoeiro me embaçasse a vista. Recordei o vapor no carro fechado, sob a tempestade: eu e ela nos agarrando como dois adolescentes famintos. E daí? Aquela tempestade já passou. Que mais agora?
“Fica comigo hoje, diz que sim…”, mãos em torno de meu rosto, sorriso de boca pequena, café fumegando lá atrás.
Recordação recente e ainda perturbadora: logo após o primeiro beijo, tendo a respiração declinado ao seu ritmo normal, ficamos observando os rostos um do outro, em detalhes. Eu, agradavelmente (e literalmente) embriagado, declarei-me a ela, de maneira irresistível, movido apenas pela felicidade presente.
Na manhã seguinte, acordei com o ruído do chuveiro. Júnia demorava-se no banho. Fechei os olhos enquanto lentamente arranhava, de cima para baixo, o rosto mal barbeado, com as duas mãos. Não tinha planejado começar nada. Sentia-me preguiçoso, entediado, naquele apartamento. Não me familiarizava com aquilo – nem com o lugar nem com a intimidade que ia crescendo com Júnia. Ela me acontecera fácil. Conhecia muitas pessoas, parecia confiar naturalmente em todo mundo, algo que, para mim, soava incompreensível. E não perguntava muito sobre mim, o que poderia ser bom. Mas não era. E, mais uma vez, eu não fazia ideia do que teria pela frente.
Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agosto, A seta de Verena, Marcas de gentis predadores, Projeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedra, A conspiração dos felizes, Lisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).
