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Subo a escada atrás de Marina, em manhã diáfana e o verão nos bogarins da Franca Filho, gente me intimidando no olhar, ando pensativo, tenho vontade de acender um cigarro, já na boca, falta fósforo, encaro os transeuntes solícitos, muitos deles me negam, talvez não tenham o hábito, me constrange a maneira como me fitam, uma sensação me obriga esconder, mas ao fazer, deparo com um estranho, aqui, moço, me alegro do seu gesto espontâneo, a mão dele se instala, uma baforada apaga o palito, desculpe, era o único que havia, sacode a caixinha no asfalto junto com meus desejos liquefeitos, desce a escada momentaneamente, ainda se desculpando, eu paro com o cigarro na boca, imaginando que o sabor das tragadas já era, desço à mão e machuco o cigarro, com a sensação de um craque que perdeu uma grande jogada, lembrando que Marina me vem, às vezes, nas fendas do combogó do banheiro, o seu corpo é alcalino e uma ilha de segredos para se constar penso nela nesse domingo, doido para chegar na sua porta e bater; descer à praia do Beça, e junto dela, me encantar com o mar, suas formas primitivas de vida e a contingência do verde escuro, escolho um lugar mais distante, ela estende a toalha, Marina pega um bronze, muitos rapazes suspiram suas ancas e esbarram em mim, o vento e o sol se encapelam, a praia vira um festival de pernas e gritos, há uma alegria em tudo, na caixinha do sorvete ali adiante, nos castelos de areia das crianças, nas embalagens dos descartáveis e no azul clorofórmico do céu, alguém disse que o mar é o começo da gênese humana.
Subo os degraus e esmago o cigarro, olho para trás, me espanto, lá está o estranho me fitando, o coração se enche de músculo de saudade, coloco na boca outro cigarro, sento no degrau, e espero a insolvência do instante, faltam dois andares para chegar ao apartamento de Marina, o estranho se encosta na escada, sorri, ôi, ôi, cadê o cigarro, devolvi à carteira, ah, fiz suposição, de que, por exemplo, que você tinha sacudido no mato e se aborrecido, não, não, cigarro tá uma nota, você procura alguém, sim, tá difícil, poucas são as pessoas que tão por aqui, por causa do Festival, acho, a praia tá assim de gente, quer acender o cigarro, é bom, então suba comigo a gente acende no meu apartamento, tá legal, entro, deixo as sandálias ao lado da porta, não, por favor, entre com elas, se deixar alguém pode levar, arranjo outra vez nos pés, o apartamento é pequeno, a mobília além de escassa está em desordem e muitas roupas no chão, ouço também o pingo no chuveiro desmantelado, me convida ao sofá, desculpe, tou aqui mesmo, observo os mínimos detalhes, uma geladeira pequena e um colchão no chão, sente, por favor, não se acanhe, ela se dirige e abre a janela, e com a claridade, o sol pinta, lá da banda do mar, pulsando piquetes, dando golfada, levanto do sofá, risca outro palito e se achega a mim, outra pancada apaga o fogo, droga, acho isso uma coisa por duas vezes, lembro que nos encontramos na escada, isso é o vento, o vento é uma coisa chata, a gente se abaixa, me acocoro ao lado dela, lança a chama, o fogo sapeca o xerém do fumo, trago, despejando no rosto dela a chaminé.
Oh me perdoe, não devia, que nada, e senta ali no assoalho, me apontando o piso, penso que bom ao lado dela, nunca vi pessoa tão descontraída, em poucos minutos já preparou um clima de uma grande amizade, a gente se fareja meio sem jeito, a buscar um espaço ilhado de ternura, meu Deus, o biquíni dela é azul, cor dos meus alfarrábios, mas não pergunto se foi proposital, seria demais, aí ofereço, ela apanha o cigarro, fumo por esporte, me diz, e nisso nasce o primeiro contato, ali estão suas pernas depiladas as pirâmides do Egito e sua boca com batom o arco-íris no meu céu de espera, fume mais, instigo o clima, me mostra uns dentes fragatas de bandeira oscilando, pergunto que horas seriam, já vexado, não, não, me desculpo, te conheço de algum lugar, ela diz, quem sabe da Faculdade, friso, pensa quando desvia o olhar para a estante, ah isso mesmo, agora recordo, você não sai com Marina, sim, às vezes, vocês namoram, bem não é namoro, amizade apenas, o apartamento dela fica aqui ao lado, sei, já pintei por aqui diversas vezes, ela está na praia com outro cara, até pediu que comprasse cigarro no fiteiro.
Oh quem diria, deixo escapar o coração entre os dentes, isso é a vida, ela diz, nisso puxa outro cigarro da minha carteira e pede fósforo, risco o palito, e o fogo sangra da cabecinha e enche as porosidades do seu rosto, as nossas mãos se roçam ocasionalmente, sinto em seus olhos um assustar de vento e uma alma de flores, quando o vento polvilha seus olhos de cinza, oh que azar, vão ficar vermelhos, tire aqui, me aproximo mais, seu hálito me despeja toneladas de angústia, serei eu responsável, me pergunto aflito, sinto também que seus gestos descontrolam, aí toco seu queixo, ela fecha os olhos, o meu coração se precipita entre as fontes calcinadas da primavera, dói em alguma parte, pergunto, apenas um ardido, onde, aqui, me aponta o canto do olho onde vejo uma senzala, limpo seu olho amavelmente, seus braços me circulam, e ganham turbulência gravitacional, o corpo dela aglutina no meu formando um poente e um santuário de águas tépidas, o biquíni se choca no chão e o vento entra em diagonal, degola as minudências dos artefatos, feche a porta, alguém pode entrar, onde tá a chave, me parece no trinco, levanto e a chave treque na porta.

João Pinto é natural de Luzilândia (PI), radicado no Amazonas, onde foi professor por quase 40 anos. É autor de três livros de contos: Luzes esvaídas (PI, projeto Petrônio Portela), O ditador da terra do sol e Contos de uma aula em vermelho, ambos editados pela Editora Valer. Sua obra mais recente é o romance As Pedras doentes da rua do fio, alcançando duas edições; a primeira pela Caravana Editorial e a segunda pela Valer. João Pinto escreve com frequência crônicas e contos postados nas mídias digitais, especialmente em sites literários. Seus livros são, não raramente, ambientados em três paisagens: Luzilândia, Teresina e Amazonas.