
Cais
um barco suspenso por correntes
acima do mar
: a dor que me perseguiu à costa
pairando por ali.
uma coisa que pertence a algo
: pura miragem!
nunca se alcança além do tempo
o que perturba.
barco e mar separados pelo fio
de uma penumbra.
Estilhaços
da mata
se levanta
um pardal
a engrenagem ativa a espingarda
um estrondo implode tímpanos
o susto desorienta a vida
Lampejo
não é a vasta
claridade
ou o escuro
avassalador
que trará
mudanças
mas aquele
ínfimo lampejo
meia-luz
dupla asa
– um inseto
interrompendo
o infinito
Penumbra
Quando olho para um ponto fixo,
como a ponta queimada
do lírio
ou a fresta debaixo da porta,
nada acontece.
Fito esses cantos como se deles
surgisse a resposta
pra minha procura. Como se deles
esvaísse a luz
para a minha loucura.
Indestino
Esse chão em que caminho
não percorre comigo.
Há uma ideia de que algo
se locomove: é tão
somente o abismo
entre sombras e silêncios.
Não se enganem:
a jornada é dolorosa,
temos o pôr-do-sol infindo
e quebrado, a cansar
nossa visão.
Não se iludam:
há o arame farpado
atravessando o fino tecido
da nossa pele.
E tudo o que vivemos
se desfaz; tudo ao
que caminhamos, se vai.
Só sobra a escassa ideia
de um resto de sonho.
Rota
todo desvio
guarda uma história,
como a jornada que
abriga uma vertigem:
viagem desconhecida
só de ida.
Mudança
Como um manto escuro,
o entardecer cobre a kitnet.
Amontoados de vidas
se revelam
em fumaças alheias de cigarro
e em risos soltos, espontâneos,
vindos da janela.
Sei que há existências dispersas
para além de um cubículo.
Aqui, caixas continuam empoeiradas.
As frutas apodrecem na geladeira
e a violeta nunca mais deu flor.
Eu? Morro na gaiola.
Mas os dias não precisam
de mais nada,
tudo já aperta e sufoca. Mesmo
num corpo sem espaço,
a roda gira e nisso está a luta.
A natureza dura das coisas:
plantas que, mesmo não regadas,
sobrevivem,
mas raramente, enternecem.
*verso em itálico: Donizete Galvão
Colheita
Para além daquela mata
empoeirada
ele desaparecia.
Acordava o próprio sol
a fim de iluminar a colheita.
Sem reclamações ou cara feia:
enfrentava a luz ardente
e as plantas espinhosas.
A camiseta rasgava-se
juntamente com o tempo.
Era dilacerado,
naquela terra sem Deus,
cada vestígio de sonho,
cada sobra de poente.
Vivia em segredo
a própria vida.
Ansiava por chegar em casa,
esfregar a roupa
no tanque de pedra.
E adiantar-se: morrer por 6 horas.
Altitude
Caminhar
indiferente
ao fim.
Esquecer-me:
nunca ser.
Só a estrela-
-Mistério
(Deus)
acima de mim!
Ponte-Alta
Todo dia a mesma rotina.
Atravessava, sem falta,
aquele lamaceiro:
só restavam
terra e pedras na botina,
mas isso mais
em tempo de chuva.
Também tratava as tilápias:
vez ou outra,
brincava
com as brânquias.
Desse modo,
mecanicamente,
vivia assim:
cavando
as brechas do tempo.
Na roça, era amplo
o que não se notava.
Não pensava
nas grandes cidades
nem nas torres góticas
da Alemanha.
Queria mergulhar
na própria mente.
Restaurar a criança
que corria pelos campos
atrás das andorinhas.
Gustavo Adriano (Goiás, 2002) é poeta e professor de Português e Literatura. Atualmente reside em Buriti Alegre. Autor de Voo sem direção (Editora Minimalismos), dedica-se a uma escrita que captura a crueza e o lirismo das cenas cotidianas. Aprecia momentos longos de contemplação e uma xícara cheia de café acompanhada de acordes suaves de rock.

Uma resposta
Sempre uma honra participar deste espaço! Obrigado, Amaité. <3