
Imagem: Lebre morta pendurada pela pata traseira, de Jean Bernard (1775-1883)
Mindfulness
Orquídeas de pano
o inquietavam
Cubificava nuvens
num edifício
Aspirava o calor das
várias manifestações
do concreto
Trilhava o voo
de suas ascendências
Pensava se seu lugar
fora de alguém tomado
Freava espasmos
por um moço estrábico
Coletava pedaços de
um bilhete somente
imaginado
Se sabia ou presumia
seguia ou estacionava
talvez flutuava
quando
estava.
***
01/01
O outro
aquele cavalo
areado
na chuva.
***
Limbo 1
1.1
A bordo
mas à parte
a vista fixa
num ponto além
recolhe os
velhos brinquedos
a origem
que não se explica
o destino
que mal se contorna.
1.2
Não sei se me guio
pelo mesmo traço
do alfabetizado
hoje é fantasma
a mão que abraçava
a mim e o lápis
Esqueci seus ossos
me esqueço que
o voo também é solo
meias-orações
em motes apagados
na impressão
mal informam a
autonegligência.
1.3
Onde
se aprende a pairar
sem aguar as brasas
no peito?
Como
se prossegue com
o corpo que reluta
o mundo inteiro?
1.4
Se acreditasse
em pecado
o diria imitação
que não é cara.
1.5
Oportuno
que certas dores
virem excretas
ensaiam
apoteoses em sonhos
que se esquece
quando embarcamos
no ônibus das 5h30.
1.6
Obra:
caixa de pregos
chaves antigas
alicates.
Poema:
jazigo perpétuo.
Poeta:
com sorte
lasca de pedra
ou metal
acesso de asfalto
sintagma nominal
sobre um CNPJ.

Sebastião Ribeiro (São Luís – MA, 1988) é poeta e professor de Língua Inglesa, graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão. Componente de “Acorde” (Scortecci, 2011) e autor de “&” (Scortecci, 2015), “Glitch” (Scortecci, 2017), “Memento” (Penalux, 2020), “Ménage – Antologia Trilíngue de Poesia” (Helvétia Éditions, 2020), com Antonio Aílton, “Outro” (Penalux, 2022), “Solo” (Litteralux, 2024 – premiada com o 2º lugar do Prêmio Claudio Willer de Poesia 2023, da União Brasileira de Escritores (UBE-SP) e finalista do 2° Prêmio Candango de Literatura (SECEC – GDF) e “Limbo” (Litteralux, 2026).