3 poemas de “LIMBO” de Sebastião Ribeiro

Imagem: Lebre morta pendurada pela pata traseira, de Jean Bernard (1775-1883)



Mindfulness


Orquídeas de pano 
o inquietavam 

Cubificava nuvens 
num edifício

Aspirava o calor das 
várias manifestações 
do concreto

Trilhava o voo 
de suas ascendências 

Pensava se seu lugar 
fora de alguém tomado

Freava espasmos 
por um moço estrábico

Coletava pedaços de 
um bilhete somente 
imaginado

Se sabia ou presumia 
seguia ou estacionava
talvez flutuava 

quando 
estava.

***


01/01


O outro
aquele cavalo
areado
na chuva.

***


Limbo 1


1.1 


A bordo 
mas à parte 

a vista fixa 
num ponto além 
recolhe os 
velhos brinquedos 

a origem 
que não se explica 
o destino 
que mal se contorna.


1.2


Não sei se me guio 
pelo mesmo traço 
do alfabetizado 

hoje é fantasma 
a mão que abraçava 
a mim e o lápis

Esqueci seus ossos 
me esqueço que
 
o voo também é solo
 
meias-orações
em motes apagados 
na impressão 
mal informam a 
autonegligência.


1.3 


Onde
se aprende a pairar 
sem aguar as brasas
no peito?

Como 
se prossegue com 
o corpo que reluta 
o mundo inteiro?


1.4


Se acreditasse 
em pecado 
o diria imitação 
que não é cara. 


1.5


Oportuno 
que certas dores 
virem excretas
 
ensaiam 
apoteoses em sonhos 
que se esquece
quando embarcamos 
no ônibus das 5h30.



1.6


Obra: 
caixa de pregos 
chaves antigas
alicates.

Poema: 
jazigo perpétuo.

Poeta: 
com sorte 
lasca de pedra 
ou metal 

acesso de asfalto 

sintagma nominal 
sobre um CNPJ.




Sebastião Ribeiro (São Luís – MA, 1988) é poeta e professor de Língua Inglesa, graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão. Componente de “Acorde” (Scortecci, 2011) e autor de “&” (Scortecci, 2015), “Glitch” (Scortecci, 2017), “Memento” (Penalux, 2020), “Ménage – Antologia Trilíngue de Poesia” (Helvétia Éditions, 2020), com Antonio Aílton, “Outro” (Penalux, 2022), “Solo” (Litteralux, 2024 – premiada com o 2º lugar do Prêmio Claudio Willer de Poesia 2023, da União Brasileira de Escritores (UBE-SP) e finalista do 2° Prêmio Candango de Literatura (SECEC – GDF) e “Limbo” (Litteralux, 2026).

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