Coluna Guido Viaro: A Laranja Verde/Capítulo 3

Ilustração: Sparrek

                                                                                                           
A aldeia estava mudada, a antiga integração já não existia. Os grupos viviam para si e apenas suportavam os outros. Nutriam interesses particulares que rapidamente se derivavam em outros, e se espalhavam como os ramos subterrâneos que prendem as árvores ao chão. Mas, nesse caso, a árvore social, ao contrário, parecia menos rígida. Qualquer chuva ou vento poderia derrubá-la. 
           
E não eram apenas os grupos que se formavam partindo de uma coletividade, dentro deles também a divisão acontecia. Não havia unanimidades. O individualismo florescia e, a cada nova manhã, parecia haver conquistado território. Aprendia-se uma nova maneira de viver, que possuía também algumas vantagens. O vilarejo nunca fora tão dinâmico. Em nenhum momento anterior, tantas pessoas buscaram realizações, e tão poucas aceitaram a tranquilidade e o ritmo da natureza. Mas, talvez, essa nova maneira de viver, também fosse parte da natureza, um ramo que até então, permanecera enterrado.      
                                                                      
Os pensadores que costumavam se reunir no alto dos rochedos, e se ocupavam de questões referentes à vida e suas consequências, agora passaram também a analisar as mudanças que aconteciam na sociedade. Um deles, em uma palestra que despertou muitos comentários, mesmo daqueles que não pertenciam ao grupo, afirmou que aquelas mudanças sociais poderiam ou não ser boas, e isso apenas o tempo diria. Mas, independentemente de seus resultados imediatos, o simples nascimento de mudanças era, em um sentido mais amplo, muito importante. E mesmo que algum dia tudo voltasse a ser como antes, de fato, jamais seria igual. A partir do instante que uma flor aponta no botão, ela pode morrer ou florescer, mas nunca voltará para dentro dele. 
                             
Mas, como a vida é feita de ventos, e também dos troncos que a ele resistem, e é, de fato, o conjunto de força e resistência que não cessa de acontecer, a palestra do alto dos rochedos recebeu argumentos contrários. As mudanças só deveriam ser bem-vindas se fossem benéficas para a comunidade. A mudança, assim como todo o resto, possuía qualidades intrínsecas, e eram elas, as qualidades, que nesse e em outros casos, deveriam indicar os caminhos.  
                          
As águas pacíficas do lago, agora recebiam grandes pedras, atiradas no meio da noite, e que geravam consequências até o dia raiar. Em compensação o mar nunca fora tão calmo, o ruído das ondas desaparecia assim que a areia terminava. A mudança não consegue ser contida em apenas um aspecto da sociedade, ela espalha-se por todos os lados, influenciando comportamentos, destruindo hábitos e inventando novas maneiras de viver. Tudo isso acontece aos poucos, nesse processo muitos passos são dados para trás antes que os avanços aconteçam. Desequilíbrios são gerados, mas também eles fazem parte do progresso.                                                
 
Os sonhadores, aquele grupo que fazia experiências sob o laranjal, e assim foi apelidado pela comunidade, prosseguia suas tentativas. O caminho era longo. Para cada novidade, trinta noites repetidas. O mundo dos sonhos não se rendia com tanta facilidade, as chaves estavam muito bem escondidas e quem as encontrasse ainda teria de desvendar seus símbolos. Parte da comunidade os via como fracos, que temiam viver a vida e buscavam subterfúgios em um reino mentiroso. Outros os julgavam apenas sonhadores acordados.
                                                                                            
Há muitos anos, conta-se que um homem afirmou que a verdade estava sob a terra e que a única maneira de encontrá-la seria cavando o maior buraco possível. Ele consumiu seus dias retirando terra do chão e formando um morro, não muito longe do lago. Hoje a vegetação cobriu esse morro e o buraco transformou-se em uma cratera que é coberta pela relva, mas que perdeu suas bordas mais altas. Ninguém mais reconhece seu esforço, ou se dá conta de que onde pisam tenha sido um buraco cavado por um só homem. Também desapareceu a busca pela verdade enterrada. Acabou tornando-se mais fácil procurá-la no alto do penhasco, olhando-se para as estrelas. 
                                                                                               
O senso comum comparava essa velha história a dos sonhadores. Assim como aquele que dedicou a vida a escavações, eles serão completamente esquecidos e seus legados dissolvidos nas areias da praia, para depois serem varridos pelas ondas. Algo parecido com o que os sonhadores pensavam daqueles que os julgavam. Havia também outros grupos com opiniões parecidas com a daqueles que não eram eles mesmos. O desperdício parecia ser o grande pecado atribuído aos outros. Desperdiçava-se, sobretudo, aquilo que o relógio de sol marcava.                                                      
 
Os filósofos do alto do rochedo, transformados em pensadores sociais, detectaram essa mudança, sem julgá-la. Se antes o sol corria na frente e o homem o imitava, agora a bola de fogo o ameaçava com suas chamas. O mundo enterrou a paz e, da terra retirada do chão, nasceu a pressa. Entretanto, os vapores da natureza continuavam iguais, o musgo espalhava-se sobre as árvores caídas e os pássaros escondiam-se assim que a luz ia embora. O homem deixou de ser conduzido pelas ondas e passou a nadar na direção contrária. Atravessada a arrebentação, o mar espalhava-se até onde o fim encontrava a imaginação. Era preciso acreditar, nadar e viver em um mundo de pés secos. Viver em dois mundos. E em nenhum.                        
 
Depois de muitas noites dormidas sob os laranjais, o mesmo jovem que tivera o estranho sonho com cor de realidade, tivera outro. Nada de especial, corriqueiras cenas espalhando-se pelos cantos, marcas anotadas mentalmente e depois conferidas com os olhos abertos e, novamente, as laranjas verdes. 
                                          
O grupo, depois de conferir detalhes sonhados e perceber como eram fidedignos, iniciou um debate sobre a razão pela qual a realidade não conseguira pintar as laranjas com sua verdadeira cor. O jovem contou que durante o sono, ao contrário da primeira vez, estava perfeitamente ciente de que sonhava. Tanto que não quis perder tempo com conversas para reparar melhor nos detalhes que seriam conferidos. Fato que, depois, disse arrepender-se, pois se conversaria com gente real, gostaria de saber se apenas conseguiria encontrar pessoas que estivessem dormindo, e se elas teriam alguma recordação do encontro. Quanto às laranjas, lembrou-se de examiná-las de perto, subir em alguns pés em busca da cor natural, e também da decepção por nada descobrir além da mesma tonalidade de verde que vira no primeiro sonho. Foi essa sutil tristeza que fez com que voluntariamente decidisse acordar para deparar-se com as frutas cor de laranja.  
                                                                      
A reunião também serviu para que outros membros narrassem seus sonhos. A velha soma de retalhos vividos durante o dia, amarrada com a corda da mais espantosa fantasia. Histórias feitas para morrerem antes de serem contadas. Delas nada servia para a construção que desejavam iniciar. Depois de duas narrações o líder do grupo deu a reunião por encerrada. Ninguém chegou a conclusões e dois membros começaram a achar que a experiência não passava de perda de tempo, e que talvez, fosse melhor escolher outro grupo.
 
O jovem, que conseguia ter os sonhos vívidos, acreditava que ali morava um segredo. A porta estava aberta, mas talvez ele ainda não a tivesse atravessado. Apenas contemplara a paisagem do lado de fora. Precisava prosseguir, nem que a experiência consumisse muitos anos e fosse obrigado a continuá-la sozinho. Uma das participantes se solidarizou a ele. Os dois conversavam sobre o assunto. Aquilo lhes parecia um novo mundo, que apesar da aparência similar, poderia ser completamente diferente daquele que vivenciavam. As pessoas que conheciam e que ele encontrava no sonho, talvez não fossem as mesmas, mas cópias, disfarces. Tudo poderia não ser exatamente como se parecia. E o que dizer das marcas que durante o sonho verificava e pela manhã as encontrava do jeito que sonhara? Para isso não tinha respostas, mas desconfiava que até aquilo pudesse ser diferente do que aparentava. E as laranjas? Talvez um descuido daqueles que mentiam, ou então um convite para que o enigma fosse desvendado.                                       
 
Hipóteses, perguntas feitas pela vida utilizando-se de dois corações jovens. E eles, os corações, continuaram as escavações: aberta a porta e feita a transição, poderiam atravessá-la sempre que quisessem? Poderiam usufruir do melhor de dois mundos? Ela sorriu o medo que sentia, mas ele era salpicado por desejos. Ele reconheceu em si o mesmo que nela brilhava. Apertaram-se as mãos e as palavras não foram necessárias.
                                               
As certezas estavam por toda parte, e elas pareciam ser a força que os repelia e os impulsionava. A sociedade, que a cada dia parecia melhor organizar sua divisão interna, era construída sobre grandes estacas de certezas. Mas não era apenas ela, também a natureza, por mais que se modificasse todos os dias, era feita da mesma matéria. Todas as manhãs o sol estava lá, o mar repetia as ondas e a floresta, seus ruídos. A sociedade e a natureza eram tudo o que conheciam. Procuravam outro. Aquele desconhecido, que não precisa ser sempre igual. As pessoas nascem, crescem, envelhecem e morrem, a vida é dinâmica. Por que então não vivê-la da mesma forma?   
                                                                                                      
Os jovens concordaram sobre esses argumentos. A mulher sentia-se ainda mais deslocada dentro do vilarejo. Parecia que seu lugar era ainda mais determinado, que deveria obedecer a regras muito mais rígidas do que aquelas dos homens. Sentia-se sufocada e confessou ao rapaz que já havia pensado em embrenhar-se sozinha na mata em busca de alguma descoberta. Certa vez chegou a entrar alguns metros, sentindo se a própria natureza a convidava para seguir adiante. Foi picada por muitos insetos e teve o pé furado por espinhos. A natureza pode ser algo tão artificial quanto uma sociedade. Foi de lá que as normas sociais foram extraídas. Desistiu porque achou que talvez não encontrasse nada além de sofrimento, e se por acaso encontrasse, não havia garantias de que seria algo melhor do que aquilo que já conhecia.                                                     
 
O outro caminho era o mar, construir um barco e deixar-se levar por correntezas até que… poderiam acontecer muitas coisas, a maioria delas envolvia sofrimento e nenhuma certeza. Percebeu que apesar de detestar certezas, também era dependente delas. As dores se sobrepunham e aquela que gritasse mais alto conseguiria convencê-la de correr na direção contrária. Mas, por enquanto, as certezas eram como o lugar onde o mar termina, e era com esse lugar que sempre tentava sonhar.  
                                                                      
Muitos dias nasceram com o grupo dormindo sob o laranjal. Em uma manhã, o jovem acordou exultante. Um novo sonho vívido havia acontecido, novamente a única diferença concreta em relação à realidade era a cor verde das laranjas. Mas havia algo diferente nesse sonho, ele havia encontrado e conversado com a jovem que dormia a seu lado e que tentava descobrir o que havia no fim dos mares. Disse que conversaram muito sobre suas inquietações e ela contou sobre seus planos de invadir o mar até descobrir todos seus segredos, ou então, como dissera em seu sonho “esvaziar seu mar interno no azul”. A jovem surpreendeu-se com a narração, lembrava-se vagamente de haver sonhado e talvez ele tivesse aparecido em seus sonhos, mas o enredo parecia outro e não possuía nenhuma recordação dessa conversa.  
                                                                                     
O moço disse que ela havia escrito palavras na areia, que não lhe contou quais eram. Ele iria descobrir no dia seguinte, assim que acordasse e fossem conferir o local marcado com dois pedaços de madeira enfiados no chão. Caminharam até o local indicado e nada encontraram. Havia um graveto caído no chão, mas nada escrito. O jovem ficou decepcionado. Era a primeira vez que, durante um daqueles sonhos que parecem realidade, os detalhes não conferiam. Permaneceu calado e a moça notou que estava chateado. “Talvez tudo não passe de perda de tempo. Mas era ainda mais real do que das outras vezes. Lembro da luz molhando teus olhos, de você bloqueando o sol com a mão e da sombra que ela fazia em tua mão. Até a sensação da areia quente…”                                                      
Ela não soube o que dizer, mas só havia dois caminhos, continuarem ou desistirem. Decidiram prosseguir. Sentados sob um sol quase poente conversaram sobre a vida e os medos, os sonhos poderiam ser como as pessoas, às vezes diziam a verdade, em outras ocasiões apenas esforçavam-se para se parecerem verdadeiros. Foi quando ela disse que se ele tivesse uma nova oportunidade de sonhar com aquilo que parecia a verdade, que se arriscasse e tentasse descobrir como era o mar. Mergulhasse, nadasse… nesse instante ele percebeu que ela usava a mão para se proteger do sol exatamente como fizera em seu sonho. A mesma sombra sobre a pele, a mesma mancha em seu rosto. O assunto sobre o qual conversavam era outro, mas o jovem, que a partir desse momento permaneceu em silêncio mergulhado em deduções, concluiu que aquele era outro mundo, e não se devia esperar que funcionasse exatamente como o nosso. Mesmo que as aparências dissessem o contrário. Parte da verdade poderia ser confirmada, enquanto o resto poderia ser feito de outra matéria. Símbolos, enigmas, ou talvez simplesmente, mentiras.   
                                
Ela continuava sendo banhada pelos restos de um sol adormecido, foi quando ele, ainda em silêncio, se perguntou se também a vigília não seria feita da mesma mistura de verdades com indeterminações. Foi sua vez de se proteger dos raios de sol e, por um instante, imaginou se ela estaria reparando nas sombras que manchavam suas mãos.  
                                                                               
Tudo se afigurava estranho e grande. Respostas não eram evidentes, o mundo explodia dentro de buracos escuros e o que víamos eram sobras de luz, reflexos de objetos desconhecidos. O sol poderia se mover na direção oposta e arrastar com ele o tempo, os dias teriam início com o pôr do sol e avançariam até o amanhecer. E nós, mergulhados nessa mistura, sem sabermos se são necessários os começos e imprescindíveis os finais. Nós, e dentro dele, do nós, habita o eu, e é ele quem eu deveria ser, e talvez seja, em parte, uma mistura com seus opostos, suas sombras, reflexos, nuvens, ondas e sóis indecisos que giram em muitas direções. E agora sinto que há ainda esse outro mundo, sonhos feitos da mesma realidade que seca poças d’água ou assopra para fora dos pulmões o ar feito de desânimo. Em qual dos lagos mergulhar? Será vedado pertencer a mais de um mundo? Ou as águas se comunicam e, no fundo, só o que existe é um único oceano? 
                                                                      
A vida parecia ao jovem uma grande emenda de pequenos instantes, e era justamente nessa substância colante, que unia os pequenos trechos vividos, onde morava o esquecimento. Abandonamos grandes convicções, não porque delas desistimos, mas porque nos esquecemos, a memória é invadida por novas prioridades, e elas, assim como ondas, lavam as areias da velha praia. Somos o instante, mas apenas enquanto ele não arrebenta as cascas da semente e constrói vida. Assim que isso acontece já nos tornamos o próximo instante, e assim sucessivamente. Talvez, dentro do mundo dos sonhos, o poder exercido pelo tempo sobre o indivíduo, diminua. E, à medida que essa independência aumenta, diminuem as certezas em relação a todo o resto. Pelo menos as mais evidentes, porque, no fundo, nada é aquilo que aparenta.            
 
Ele queria continuar sonhando, aquilo lhe parecia outra maneira de viver. Desejava descobrir segredos, encontrar pedaços de si que costumam ser levados pelo tempo. Queria abolir os esquecimentos sem superlotar a floresta de sua mente. Queria tudo. O melhor de dois mundos. Atravessar pontes sem ter de molhar os pés com lágrimas. Refugiar-se nos prazeres do mundo opostos à dor. E lá, dentro de sua bolha escura, iluminado por luzes de sóis sem calor, colher laranjas verdes e senti-las em toda sua doçura.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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