
Era uma vez uma menina que dançava feliz, serpenteando e saltitando entre as árvores do passeio. A menina cantava e as árvores dançavam, soltando as suas folhas. As pessoas passavam sisudas por ela e nem a viam. Ela continuava a dançar como se mais nada no mundo existisse. Às vezes até o vento a acompanhava enquanto os gatos a observavam. As pessoas continuavam a passar por ela como se nada fosse. E para ela nada era.
Um dia, passou um velho por ela e a menina parou. Ele parou também, sem saber bem porquê. Ela olhou bem para ele. Ele sentiu-se observado e um calafrio desceu-lhe pela espinha. A menina reconheceu as feições. Sim, era ele. Muito mais velho, sem dúvida, mas era ele. As árvores pararam de dançar. Os gatos puseram as unhas de fora. Era o homem que, sem que a menina soubesse porquê, um dia lhe tapou a boca e a fez dormir. E era uma vez uma menina.
Lewis Medeiros Custódio nasceu na paradisíaca ilha de São Miguel, nos Açores, foi aluno do Conservatório de Ponta Delgada, onde aprendeu piano. É licenciado em Línguas Modernas e mestre em Ensino pela Faculdade de Letras daUniversidade de Coimbra, além de ser judoca e guitarrista. Desde cedo, desenvolveu uma paixão pelo terror e pelo macabro, mergulhando nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King.
