Coluna Guido Viaro: 7 poemas

Ilustração: Andrey Luna Giron


 
Sob o céu atemporal,
As árvores centenárias, anônimas e silenciosas,
Decoram as décadas humanas,
Feitas de inquietação e resignação.
 
Olhos rebeldes encontram sombras,
Descobrem silhuetas, para depois,
Quando a noite cai, se fixarem no azul profundo,
Mistério do tamanho daquilo que o homem possui dentro de si.
 
***
 
No fundo do reservatório há um cano pequeno,
Por onde a água lentamente escoa.
As gotas enfileiradas disputam espaço para pingarem na terra.
 
O mesmo ocorre com a vida,
Infinita reserva da substância que faz os olhos se abrirem,
E que despeja-se sobre minúsculos sorvedouros,
Que sorriem e lamentam,
Para então abandonarem o líquido sobre eles despejado,
E finalmente serem engolidos pelo chão,
 
*** 
 
Desde pequeno tentava descobrir.
Primeiro acreditou em razões, depois nos significados.
O mundo, os objetos e pessoas,
Os acontecimentos, e mesmo aquilo que não se consegue enxergar,
Deveriam possuir uma segunda ou terceira camadas,
Conter emendas sem muitas semelhanças,
Ou até mesmo que aparentassem oposição.
 
Os anos se arrastaram sem que ele conseguisse
Descobrir nada além do que seus olhos revelavam.
 
O amargor da rúcula se espalhou por seus dias,
Todo o percurso parecia-lhe uma estrada errada
Onde não havia retorno.
A única atitude possível seria parar o veículo e esperar,
Até que algo começasse a fazer sentido,
Ou então tudo desaparecesse completamente.
Foi o que fez.
Sentado à beira do caminho,
Contemplou a estrada deserta,
Uma máquina de repetição da mesma imagem,
Com insignificantes variações.
 
Às vezes o calor fazia com que o asfalto vibrasse,
E ao seu redor, o horizonte misturasse a ele suas tintas.
Depois de muito assistir a cenas como essas, sorriu.
 
Jamais havia chegado tão perto de seu sonho.
 
***
 
Não há o verde da esmeralda se ela permanece escondida sob a terra.
As flores coloridas devolvem aos olhos o que recebem do sol.
A tarde derrete sobre a terra, apagando pétalas caídas no chão.
 
Os escuros são luzes esperando por olhos especiais.
 
***
 
A palavra é a ferramenta do homem para informar
Ao outro a própria existência.
Essas máquinas de conexões mentais,
Amarram ideias, e a maneira como elas nascem e se desenvolvem,
À todo e qualquer pedaço de existência.
Cimentando relações e construindo a realidade de cada um.
  
***
 
Cada imagem busca seu próprio significado,
E o homem é o hospedeiro dessa descoberta.
Viver é acreditar no que se enxerga,
Para depois escutar os murmúrios dos símbolos reluzentes.      
 
***
 
A pedra é.
Estando no mundo.
Plantada dentro de um sol molhado por luas.
Sendo si mesma.
Encontrando a pedra que ela é.
Reconhecendo a própria existência,
Que coincide com sua imagem.
Pedra feita de pedra,
Esfarelando as bordas,
Diminuindo contornos.
Sumindo para sempre ser.     

   



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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